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Filme português consagrado em Veneza

A primeira longa-metragem de Ana Rocha de Sousa, “Listen”, teve estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza e conquistou o prémio ‘Leão de Futuro’ para a primeira obra em competição e o prémio especial do júri ‘Horizontes’, além de outros galardões paralelos. O filme inspira-se em factos reais e retrata dramas anónimos e esquecidos no seio de famílias portuguesas emigradas.

É um filme inspirado em factos reais e que retrata dramas anónimos e esquecidos. “Listen”, da realizadora Ana Rocha de Sousa, conta a história de uma família portuguesa emigrada no Reino Unido, a quem os serviços sociais retiram os três filhos menores, por suspeita de maus tratos.

A primeira longa-metragem de Ana Rocha de Sousa teve estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza e conquistou vários galardoes: venceu o prémio ‘Leão de Futuro’ para a primeira obra em competição, e o prémio especial do júri ‘Horizontes’. O filme ganhou ainda títulos paralelos do festival, como o prémio da crítica independente “Bisato d’Oro” de melhor realização, o prémio “Sorriso Diverso Venezia” para melhor filme estrangeiro pela sua abordagem às questões sociais, o prémio Fundação Casa Wabi – Mantarraya e o Prémio especial da Hollywood Foreign Press Association.

O filme tem co-produção luso-britânica, foi rodado nos arredores de Londres com elenco português e inglês, encabeçado por Lúcia Moniz, Ruben Garcia e Sophia Myles. A RFI falou com Lúcia Moniz, que interpreta a mãe de família.

“É um filme que aborda um tema pouco falado. A importância de ter recebido estes prémios é uma forma deste assunto seja falado, seja discutido, que haja espaço para reflexão”, começa por explicar a actriz, que sublinha que as famílias a quem são retirados filhos, sobretudo na comunidade portuguesa, é “um tema escondido”.

Esta é uma família portuguesa em Inglaterra, a viver com poucas possibilidades financeiras e num bairro social. Devido a um mal-entendido na escola, a professora de uma das crianças faz uma queixa à segurança social, que retira os filhos à família para uma adopção forçada.

“Isto abre uma discussão porque nós sabemos que os serviços sociais, a intenção deveria ser uma protecção das crianças e, em casos extremos de maus tratos, as crianças devem ser protegidas e encaminhadas para uma situação de protecção e retiradas às famílias. Aqui é que é aberta a discussão do que é que é um caso extremo, como é que é avaliado esse caso extremo. No caso de haver um engano ou uma consciencialização que, se calhar, a família não errou, que a decisão do tribunal possa ter sido precipitada, a lei neste momento não permite reverter o assunto. Ou seja, a partir do momento em que são retiradas as crianças e são encaminhadas para a adopção forçada, o caso não é revertido e, às vezes, são cometidas bastantes injustiças”, explica a actriz.

Recorrendo a uma frase de Ana Rocha de Sousa durante uma das recentes entrevistas conjuntas, a actriz questiona “Como é que uma instituição que tenta proteger danos psicológicos, fazendo danos psicológicos?”

Para retratar a sua personagem, Lúcia Moniz pesquisou e leu muito, viu documentários e vídeos das separações reais, analisou com a sua psicóloga os traumas que se pode sentir. Um trabalho difícil do qual não se sai intacta. “Há uma entrega muito grande da nossa vulnerabilidade, da nossa sensibilidade, da nossa dor. Foi difícil mas felizmente – e também com o trabalho da minha psicóloga – trabalhei o conseguir separar as coisas e conseguir desligar-me do que é ficção e do que é realidade. Mas, no momento em que filmava, mergulhei muito fundo, sim”, conta.

No Festival de Cinema de Veneza não são muitos os realizadores portugueses que receberam prémios oficiais. Entre eles contam-se João Pedro Rodrigues, que recebeu uma menção especial em 1997 com o filme “Parabéns”, e João César Monteiro, que venceu o Leão de Prata em 1989 com “Recordações da casa amarela” e o Grande Prémio do Júri em 1995 com “A Comédia de Deus”.

O mais premiado é Manoel de Oliveira, contando, por exemplo, com o Grande Prémio do Júri em 1991 com “A Divina Comédia” e o Leão de Ouro de Carreira em 2004. Em 2016, Nuno Lopes venceu o prémio de melhor actor da secção “Horizontes” pela prestação em “São Jorge”, de Marco Martins. No ano passado, “A Herdade”, de Tiago Guedes, venceu o Bisato d’Oro neste festival.

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FonteRFI
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