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Anatomia de uma «Irmandade»…

Um mês depois do Fundo Soberano ter sido submetido à “autópsia” e uma semana depois dos esqueletos da AAA terem sido retirados do armário, o que se passa em Angola em matéria de corrupção é que os angolanos ainda não sabem exatamente o que se passa em Angola.

As primeiras ondas de choque vieram de Londres. Em Luanda, os seus efeitos catastróficos reduziram a destroços a inocência hasteada no Bairro Miramar.

Na Península Ibérica os raios da faiscante notícia provocaram alterações na geografia do rosto envelhecido e solitário de um dos mais famosos turistas africanos em Barcelona, rasurando-lhe a pele e a cor.

Nos Alpes, a pontualidade suíça fez as honras da casa. Cirúrgica, Genebra içou a bandeira da Cruz Vermelha e de imediato fez soar o alarme.

Na Praia do Bispo, os danos da tempestade deixaram sem bússola os pescadores e, no rescaldo da ressaca, despedaçaram o tecto falso e as paredes do Mausoléu.

No seu interior, sacudido pelo abalo sísmico, jaz agora uma tumba sobressaltada pela traição de quem, fazendo parte das “maiorias silenciosas e desencantadas” do MPLA, jurava “nunca” se ter “envolvido em práticas imorais” …

Em ambos casos, submersos em mistérios acrobáticos, viu-se logo que essas aventuras encerravam um nível de malabarismo financeiro que não encontra paralelo no continente africano.

Uma e outra garantiam o sucesso da bilheteira. Uma e outra apareciam vergadas à uma esquizofrénica concorrência para ver quem “atingia os zeros”.

Por isso é que, em casa, era ver quem mais e mais contas de multiplicar contabilizava. Por isso é que, em casa, o somatório das contas passadas por estas duas mãos, pode ter atingido mais de 4 mil milhões de dólares!

Destapado o véu, em defesa da nossa “primeira dama de horror” – a corrupção – a histeria revela-se sempre igual a si própria. O ritual toma conta da praça, mas os representantes da majestade rejeitam a caricatura.

Nunca aceitam a carapuça, mas o auto-retrato, visto de fora para dentro, é perfeito. Assenta-lhes que nem uma luva.

Furiosa, a Irmandade, reunida de emergência, prefere disparar, a torto e a direito, poluída gritaria. Desgastada e desorientada, vai a óbito de fantasmas. E acreditando em perseguições, desenterra cadáveres.

Consumida a hóstia, depois de passado e reconhecido o alvará para a apropriação indébita dos recursos públicos, fazem-se as contas da colheita dos dízimos. No final da missa, repete-se a cantilena da ordem: por aqui não há corruptos…

A pés juntos, o Santo Padre, em teleconferência, confessa que nunca os viu. Nem nunca ouviu falar deles. A igreja, no entanto, está lotada com a fauna.

É assim, de forma cínica, que, ao longo de anos, andamos a tentar enxaguar, no tanque da mais refinada cumplicidade, as nódoas que mancham os nossos colarinhos brancos.

Desta vez não foi diferente. Quinze anos são contabilizados na AAA. No Fundo Soberano foram menos. Bastaram meia dúzia de anos. Mas, espalhadas e entrincheiradas um pouco pelas dobradiças das capelas da tribo mandante, há outras AAA. Outros Fundos Soberanos.

Há quem tenha nascido e morrido antes do Fundo Soberano. E há quem tenha nascido e morrido antes da AAA. Mas, há também, quem tenha crescido durante e depois da AAA. E durante e depois do afogamento e da ressurreição do Fundo.

Durante e depois dos 500 milhões. Durante e depois dos 900 milhões. Como ninguém sabe o que se passou, nem como por aqui alguns continuam “a atingir os zeros”, só há uma certeza: nada garante que estas tenham sido as últimas subtracções…

Na parada, a tese da defesa da inocência apresenta-se fardada a rigor e armada até aos dentes. O resultado não passa, porém, de uma gargalhada.

A mesma que já não acredita na decência e na probidade da maioria dos nossos políticos, governantes e gestores públicos ou privados.

Do lado paterno de (quase) todos os lados, – e não apenas do lado do Fundo e da AAA – não há heranças. Do lado materno, que se saiba, idem aspas.

Sendo a origem humilde comum a todos, todos na origem abraçavam a simplicidade. A honestidade e a modéstia.

Com tempo, dinheiro e poder, o clientelismo surge como apólice de seguro para o florescimento subterrâneo das várias castas que tomaram de assalto a Irmandade. E surge também como fonte de satisfação do afiado apetite da tribo.

Foi assim em várias entidades empresariais. Na Sonangol ou na Endiama. Nas Telecomunicações ou na Banca. E também na Indústria, nas Pescas ou na fiscalização das Importações. E ainda na AAA e no Fundo Soberano.

E aqui chegados, sejamos claros: as duas figuras de proa agraciadas com a Medalha de Ouro do Fundo Soberano e com a Grande Ordem de Mérito da AAA, só chegaram onde chegaram graças à força do poder e ao carisma das sombras que tutelam os respectivos clãs.

Um é o que é, por ter casado com quem casou. Outro foi o que foi, por ser filho de quem foi o que foi. Um e outro, sem essas sombras, não teriam chegado onde chegaram. Mas, se calhar, estariam a viver livres da tormenta judicial que, hoje, não os deixa dormir em paz…

A evocação da memória dos tutores, desta vez não pode ser atribuída aos jornalistas. De Barcelona, escondida em saias paternais, chegou uma carta registada. Azar. As cuecas estavam à mostra.

Em Genebra, foi o Cantão local que decidiu associar o “premiado” à deferência histórica de que, pelo seu legado, o sogro goza na sociedade.

Em defesa da honra, o entrelaçado laureado exibiu a “obra prima” e, em pleno tribunal suíço, reivindicou em voz alta os direitos autorais. Nada mau. Não é a primeira vez que o faz. Da outra vez, Ennes Ferreira apanhou-o na curva.

Desta vez, é a própria família que, através de um comunicado escrito a uma mão, mas subscrito a…. quatro mãos, se confessa em público.

Desta vez, recorrer a terceiros para assacar culpas pela evocação do nome do patriarca da família nesta “caldeirada”, é uma patetice.

Desta vez, foi a própria família que, sem que ninguém, em momento algum, tivesse chamado à liça a figura de Agostinho Neto na acrobacia financeira do genro, se apressou, voluntariamente, a apresentar o auto de denúncia.

Agora, as acusações vindas de dentro para fora, podem estar a fazer ricohete. O laudo da filha mais velha destapa “os desvios monumentais, descarados e obscenos” que ocorreram logo após a sua morte.

Mas também põe a nú “um clima de impunidade” que estimulou “a criação de uma burguesia nacional escolhida a dedo e não por mérito próprio” que se entregou “a delapidação do erário público para acumulação do capital de algumas elites em detrimento da maioria” movida, anos mais tarde, por uma “galopante ganância e voracidade de velhos e jovens ambiciosos, deslumbrados pelo reluzir das pratas e de mil oiros”…

Nada mais lapidar. Uma declaração de amor ao próximo, que descarna a imagem perfeita do peixe a morrer pela boca. Para quê então perder mais tempo à procura da identidade dalguns desses eleitos?

Para quê mais palavras se alguns deles fizeram-se à vida nas diversas AAA e nos diversos Fundos que andam espalhados por aí?…

O pior, porém, é que esses e outros eleitos, nascidos sem laços, mas agora encadernados com jaquetas, quando não gozam de estatuto de cidadão especial por via paternal, surgem investidos de imunidade diplomática por via marital.

Para ver quem brilha mais no firmamento, entretêm-se em encarniçadas disputas tribais. E o que tem estado por detrás dessas disputas? O dinheiro, pois claro, a porcaria do dinheiro!

Não espanta, por isso, que, nalguns casos, expelindo tiques de arrogância e misturando boçalice com capital, se tenham transformado nuns monstrinhos.

Mas, os modelos que saíram das linhas de montagem da AAA e do Fundo Soberano não são únicos. Temo-los distribuídos em série pelas várias camadas que formam a Irmandade.

E, hoje por hoje, continuamos a ver a sua reprodução ganhar, em cascata, a dimensão de (novos) polvos, que aspiram a tomar o lugar dos antigos accionistas da Corte.

A bordo do novo avião, o Comandante faz-se acompanhar por muitos co-pilotos e auxiliares de mecânica que sendo portadores de licenças viciadas, se recusam a impor a si próprios e aos recém admitidos na cabine de voo, “distanciamento social” para bloquear a expansão do assédio da nossa “dama de horror”. Não tendo sido vacinados à partida, a cabine está agora infectada.

O vírus continua, assim, a provocar danos no sector empresariado público, estragos na administração central do Estado e a fazer das suas também já ao nível da Comissão Interministerial de Combate à Covid-19.

Mesmo conhecendo o nome daqueles que estão contaminados, agora já não basta substituir a maioria dos membros da tripulação, a fuselagem empenada ou motor gripado. Agora, é preciso desinfectar também todo o pessoal de terra, e desinfestar toda a zona aeroportuária e arredores.

Para quê? Para que não voltemos a levar no lombo com os desvarios de gestão autocrática em novas AAA, novos Fundos Soberanos, sucursais e filiais…

Para que um dia, alguns Caps inteiros não tenham que ser obrigadas a reunir na cadeia…

Porquê? Porque a tese de defesa que os sustenta, hoje não passa de uma sátira sem graça. Não passa de uma piada encharcada com falsa pureza virginal. Que alojando um péssimo exercício de marketing, mais parece uma anedota contada num funeral…■

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