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Acertar o passo…

O engenheiro e sociólogo francês René Dumont não assistiu ao advir do nosso novo ciclo político. Mas, da sua tumba, parece ter espreitado pelo buraco da fechadura, o reacender por aqui de uma nova época de desencontros.

Desencontros que haveriam de nos voltar a colocar de costas viradas, mesmo dentro da mesma casa e ao redor da mesma família. Desencontros que revelaram não termos sido capazes de cicatrizar velhas feridas e de saldar, à sombra do Jango, contas antigas.

Com perspicaz premonição, aquele investigador gaulês, que (ante)via longe, sem nunca ter posto os pés nesta terra, parece que, afinal, tinha razão.

Sentenciando na sua magistral obra “Áfrique noire est mal partie“ o destino da África francófona a partir de 1960, por aqui rapidamente nos associou a uma porção lusófona de África também perdida em patológicas ambições internas, que também “começara mal” e que, teimosa, insistia em “continuar mal”…

Primeiro em tempo de guerra, o tempo que corroeu a alma das nossas vidas. Depois em tempo de paz, o tempo que deu à luz algumas das nossas maiores ilusões e desilusões.

E por fim, entre estes dois tempos, em tempo de bonança petrolífera, que ao provocar uma monumental bebedeira entre as nossas elites, acabou por impulsionar a instalação de um estilo de governação que insistiu sempre em colocar a carroça à frente dos bois.

Continuou a ser assim com o alastramento da pandemia da corrupção, que para além de desafiar e de derrubar as leis concebidas para a sua neutralização, por aqui, dobrada a uma esquizofrénica afirmação, acabou por corromper-se a si própria! E, por se expor como um poderoso Polvo que persiste agora em estrangular o Estado.

Mas, os nossos desencontros mantêm-se vivos por aqui. Com os postos de comando dos vários domínios da governação entregues a figurantes adeptos de visões alucinantes, os desencontros encontraram e continuam até hoje a encontrar o seu amparo em fantasiosas perspectivas de crescimento económico e social.

Essas perspectivas, apoiadas no vazio, acabaram por se revelar sempre completamente deslocadas da nossa realidade e sempre incompatíveis com as nossas (limitadíssimas) capacidades.

A receita sempre pareceu mágica. Todos garantiam em uníssono que a economia ia crescer, a inflação baixar, o crédito aumentar e que as reservas internacionais iam subir incessantemente. Tudo era estabilidade, optimismo e vivacidade.

E nessa toada triunfalista, os desencontros não pararam. Os disparates também. E associados ao surgimento de novos “Césares”, assistimos à exibição de peças de arte que, misturando pretenso enciclopedismo académico com folclore propagandístico, são dignas de figurar na galeria das nossas comédias políticas.

E se pensávamos que já tínhamos consumido os anti-retrovirais suficientes que nos pusessem a salvo dos efeitos desta pandemia, estamos profundamente equivocados.

Provou-o o Ministro da Economia em recente entrevista à TPA. Com a entrevistadora escoltada por olhares tutelares, o governante fez uma espantosa confissão de amor, declarando-se adepto do encolhimento do nosso espaço territorial para que Angola possa ser bem governada. A sorte é que, olhando num extremo para a China e noutro para a Guiné-Bissau, ninguém levou a sério a piada…

O que já não pode ser configurado como uma piada é a imposição de uma “autorização superior” decretada pela Comissão Interministerial de Combate à COVID-19 para que os angolanos no exterior possam regressar ao seu próprio país.

De tão bizarro, o caso ressuscita os fantasmas securitários que no século passado pairavam sobre os

cidadãos nacionais então condicionados à obtenção de um visto para poderem entrar em Angola. É hora, pois, do absurdo desta decisão, que não encontra paralelo em nenhum país, ser imediatamente abandonado!

Depois de ter posto fim à banalização e transformação das garantias soberanas em papel higiénico para lavar o dinheiro sujo, o Presidente apostou na transparência, mas agora, ao popularizar as contratações simplificadas, arrisca-se a gerar novos desencontros com o mercado.

Os ajustes directos, plenamente justificados nalguns casos, ao deixarem de ser excepções para passarem a ser a regra, ameaçam, na verdade, lançar o descrédito de Angola junto dos investidores e de parceiros multilateriais como como o FMI, Banco Mundial, o Banco de Desenvolvimento Africano ou Banco Central Europeu.

Os sinais de mudança sustentados por João Lourenço sugerem, por isso, que, nesta matéria, se proceda à urgente correcção do tiro, pondo-se fim a escusadas suspeitas de opacidade na atribuição de certas empreitadas.

Os números podem ser reproduzidos em slogans, mas, frios, não esticam. Na economia e também na saúde – onde ainda se festeja o abarrotamento de aviões inteiros com material de bio-segurança – mas, em termos estatísticos, ninguém se refere à estranha inexistência de um só doente contaminado com a pandemia da coronavírus no Hospital Américo Boavida ou no Hospital Geral de Luanda…

O rejuvenescimento, quando mal doseado, pode ser, como já está a ser, uma faca de dois (le)gumes..

Seis meses depois de ter eclodido a pandemia e de terem sido gastos milhões de dólares, quem observe o ridículo número de testes que por aqui se realizam diariamente e ainda tenha que aturar o monólogo que enfeita conferências de imprensa que mais não servem do que para prestar vénias ao “síndrome mufindífero” – uma bárbara trapalhada de conceitos – só pode concluir o que concluiu um conhecido médico: “estamos na fase do riso”…

No outro lado da barricada, atacados pela nova crise petrolífera e por um ano atípico – o ano da Covid 19 que nunca deveria ter existido, como seres sonâmbulos continuamos a ser embalados pelas tradicionais e desastrosas ondas de optimismo livresco.

Num país tão carente de massa cinzenta, continuamos a ver gente competente e capaz de carburar saber e conhecimento a ser marginalizada por quem, do alto da sua arrogância, julga que detém o alfa e o beta das nossas soluções económicas.

E sempre que elaboramos as nossas projecções, insistimos em promover o insulto a países que, há anos, pensam muito para além do nosso milhão e duzentos e quarenta e sete mil quilómetros quadrados de superfície.

Fazemo-lo como se pudéssemos transportar para o nosso mundo subdesenvolvido a realidade competitiva de potências económicas como a Alemanha ou equipararmo-nos a gigantes continentais como a África do Sul…

Parece que nos esquecemos, porém, que vivemos à volta de uma roleta russa, que gravita em torno de duas variáveis da nossa única boia de salvação – a produção e o preço do petróleo.

E andamos a ignorar que, desde 2014, o volume da produção petrolífera continua a derrapar, a confiança, aos poucos, a esvair-se e, a corrupção, galopante, a manter um insistente e acirrado braço de ferro com a nova ordem política, moral e ética defendida pelo Presidente João Lourenço.

A inquietação dos governados, que caminha para um espiral de descontentamento social generalizado, vai para além da “cerca política” montada à volta do Presidente.

Os danos são conhecidos e deles deveríamos retirar as devidas ilações. Mas não. Nem mesmo depois do que se passou com José Eduardo dos Santos.

A princípio, no seu reinado, ninguém sabia de nada. Depois, o Presidente passou a saber de tudo e a controlar tudo. Por fim, passou a deixar de saber tudo e, aos poucos, passou a ser controlado por quem antes controlava…

Não chegamos ainda a este ponto, mas se não for montado um dique para travar tentações saudosistas, a história poderá vir a repetir-se.

Os que governam preferem o engano que os deleita, à verdade que os incomoda e, por isso, não estando em 2012, nem em 2008 e, muito menos em 1992, é avisado saberem que os tempos são outros.

Mas, os actores, que já não vão com comes e bebes, nem com comícios, t-shirts e bonés, também são outros. Apetrechados com outra consciência social, os cidadãos recusam agora continuar a ser vistos como “bibelots” da antiga manada…

Por isso, é prudencial ter em conta que os brasileiros, por mais imaginativos que sejam a manipular as campanhas de propaganda e de marketing, por si só, já não fazem milagres.

Agora, os cidadãos têm fácil e rápido acesso à governação e aos governantes. E sabem que o Presidente sabe do que eles sabem. E o que é que, afinal, eles sabem?

Que o Presidente está rodeado de alguns auxiliares que se comportam como “eucaliptos” que andam a secar as suas intenções. E mais do que secá-las, nalguns casos, andam a subverte-l

Que o Presidente sabe quem, à sua volta, continua a celebrar contratos com a mentira e a manipulação, quem anda comprometido com o roubo e a corrupção e quem continua amancebado com a manipulação e a fraude.

Nem tudo, porém, está perdido. Se este Presidente voltar a ser o mesmo Presidente que restituiu vida à alma de cidadãos que tinham as liberdades amordaçadas; se este Presidente voltar a transmitir confiança aos mercados, respeitando com rigor o primado da concorrência e da transparência; se este Presidente se abrir para um diálogo democrático mais aberto, abrangente e sem filtros com vozes críticas da sociedade civil; se este Presidente se libertar das velhas amarras partidárias e se interiorizar que a popularidade é como a fumaça, que desaparece em poucos instantes, por certo será capaz de acertar o passo.

Mas, perante o declínio da confiança dos governados para com os governantes, agora não tem outra alternativa que não seja desenvencilhar-se de gente que, ao seu redor, insistindo em permanecer atada a velhos compromissos e aos mesmos vícios, tem como secreta aspiração suprema ocupar o lugar e usufruir do estatuto e dos bens dos antigos corsários.

O Presidente, como alertava Voltaire, precisa cada vez menos de pessoas inúteis no Governo e na cúpula do seu partido. E precisa de perceber também que o propalado rejuvenescimento, quando mal doseado, pode ser, como já está a ser, uma faca de dois (le)gumes… ■

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