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Governo de Cabo Verde demite presidente de empresa pública citado como “enviado” a Venezuela

O Governo de Cabo Verde demitiu nesta sexta-feira, 21, o presidente do Conselho de Administração da Emprofac, empresa pública de produtos farmacêuticos, Gil Évora, “em consequência da violação dos deveres inerentes ao gestor público e desvio da finalidade das funções”.

Com efeitos imediatos, a decisão foi formalizada hoje “ao abrigo da deliberação unânime nº 27 de 21/08/2020, do accionista único, Estado de Cabo Verde, da Emprofac SA”.

A nota, no entanto, não explica os “deveres inerentes” violados nem o “desvio da finalidade” das funções de Évora.

Venezuela

A decisão ocorre dois dias depois do jornal americano El Nuevo Herald ter revelado um encontro na segunda-feira 17, entre o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e dois alegados enviados do Governo de Cabo Verde.

Como a VOA noticiou, fontes daquele jornal com sede em Miami indicaram que os tais “enviados” foram Gil Évora., PCA da Emprofac, e Carlos Anjos, empresário e antigo director-geral do Turismo.

Ainda de acordo com as mesmas fontes, eles terão chegado “num avião privado no terminal presidencial, conhecido na Venezuela por “Rampa Quatro”, e “do Aeroporto Internacional de Maiquetia foram levados para o palácio presidencial”.

Embora as supostas negociações tenham tido lugar à porta fechada, o jornal garante que centraram-se na “luta diplomática entre Caracas e Washington” e que nelas “participaram o Presidente Maduro e por video-conferência várias figuras do chavismo, entre elas o ministro de Petróleo, Tareck El Aissami, e o ministro da Informação, Jorge Rodríguez”.

O El Nuevo Herald, que cita os modelos e referências dos aviões usados na viagem de Lisboa a Caracas, e vice-versa, garante que os dois supostos enviados, saíram na tarde de terça-feira, 18, de Caracas em direcção a Lisboa, em Portugal, depois de uma escala em São Vicente e Las Granadinas.

Contactado pela VOA através de uma rede social no mesmo dia da notícia, 19, Gil Évora, limitou-se a dizer que se encontrava de férias em Lisboa e que, como o artigo dizia que era enviado do Governo, que fosse questionado o Executivo da Praia.

Carlos Anjos não respondeu ao contacto da VOA, mas em breves declarações ao portal Mindelinsite.cv, de São Vicente, afirmou que a notícia era “fake” e que “quem fez a notícia que se explique”.

Ele acrescentou que estava em Portugal “numa viagem de negócio” como “consultor individual do setor privado”.

Governo refuta

Horas depois da notícia ter corrido mundo, na quarta-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde considerou falsa a informação posta a circular de que o Governo teria enviado emissários para conversações com o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

“Tais informações são absolutamente falsas. O Governo de Cabo Verde não enviou ninguém, nem qualquer missão, à República Bolivariana da Venezuela”, garantiu o comunicado que lembrou que “Cabo Verde é um Estado de Direito democrático, onde os tribunais são independentes e as garantias de defesa se aplicam a todos os indivíduos, razão pela qual existe confiança no sistema judicial, que decidirá sobre o caso de extradição do senhor Alex Nain Saab Morán em curso”.

Na nota, o Ministério advertiu “que qualquer acção, contacto ou démarches fora do quadro institucional e de representação oficial são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não vinculam o Estado de Cabo Verde”.

O caso

O empresário colombiano Álex Saab foi detido a 12 de Junho em Cabo Verde quando estava a caminho do Irão, onde, segundo o Governo da Venezuela, iria negociar a compra de produtos e bens para o país.

Ele foi detido a pedido dos Estados Unidos que o acusam de vários crimes, como lavagem de mais de 350 milhões de dólares nos bancos americanos.

No passado dia 31 de Julho, o mesmo tribunal, na ilha de São Vicente, decidiu pela extradição de Saab para os Estados Unidos.

A defesa recorreu ao Supremo Tribunal de Justiça que ainda não se pronunciou.

Em entrevista à VOA nesta sexta-feira, 21, o advogado espanhol Baltasar Garzón, que integra a defesa de Saab, considera que o caso é de uma ilegalidade absoluta e que vai recorrer a todas as instâncias.

Caso for extraditado para os Estados Unidos, Álex Saab ele incorre numa pena de prisão que pode chegar a 20 anos.

O Departamento de Tesouro americano colocou Saab numa lista com outros altos dirigentes do regime venezuelano a quem acusa de envolvimento em corrupção para evadir às sanções económicas impostas por Washington para conseguir uma saída pacífico à crise no país.

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