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O impacto social e económico da Covid-19 na vida das famílias mais desfavorecidas

Wendi é uma cidadã angolana de 47 anos, vive, há mais de uma década, no bairro Paraíso, uma das localidades mais pobres da cidade de Luanda. Antes da Covid-19, ela conseguia, por via da venda-ambulante, e com o apoio do seu filho mais velho, Wilson Oliveira, que é professor numa instituição de ensino privado, sustentar os seus sete filhos, apesar dos desafios de ser mãe solteira e de ter de fugir dos fiscais que proibiam a venda-ambulante em muitas artérias da cidade.

Mas a pandemia representa-lhe, agora, a gota de água, já que Wendi tem vindo a perder rendimentos desde que se anunciou o primeiro caso positivo de Covid-19 no País.

O seu filho mais velho, Wilson Oliveira, de 31 anos, ficou sem emprego depois de o colégio onde trabalhava ter anunciado a suspensão do contrato laboral devido à interrupção das aulas. Num momento em que os preços dos alimentos tendem a subir face à inflação, isso é o pior que pode acontecer a uma família nesta situação.

A senhora é forçada a cortar nos alimentos e a fazer recurso ao empréstimo de agiotas para poder comprar comida e outros bens essenciais, como água e sabão. Ela não tem um fogão a gás, por isso, se não conseguir encontrar lenha ou carvão para cozinhar, a família não come.

“Por causa do coronavírus, muitas coisas mudaram na minha família. A vida tornou-se cada vez mais difícil. Agora, o meu filho mais velho já não tem emprego. A venda nos mercados não pode ser realizada todos os dias, e não há nada que eu possa fazer para ganhar um pouco mais de dinheiro”, disse-me Wendi, com um ar apreensivo, quando a abordei acerca de como encarava ela a vida nos tempos actuais.

Há milhões de pessoas como Wendi em todo o País, que já lutam para manter os seus meios de sustento há muitos anos, devido ao impacto da crise económica, mas, agora, correm o risco de ser empurradas para a fome, porque a situação se agravou com a Covid-19. A perda de rendimento poderá acentuar a exclusão social, aprofundar a pobreza de muitas famílias e levar as mais vulneráveis a uma situação que as coloca abaixo da linha da pobreza.

Nas zonas rurais, por exemplo, teme-se que a produção e o consumo de alimentos poderão sofrer alguma rotura devido às dificuldades acrescidas que os produtores menores enfrentam para escoar os seus produtos e obter outros produtos e inputes para trabalhar, já que Luanda, o maior mercado consumidor e também abastecedor, se encontra sob cerca sanitária.

De modo geral, a grande maioria das pessoas em Angola sabe que a pandemia do coronavírus afectou a todos, de muitas maneiras. Mas algumas actuam, entretanto, comportam-se e pronunciam-se como se não soubessem que a Covid-19 está a empurrar milhões de pessoas para uma situação de extrema pobreza e de fome.

As tendências mostram que todos os dias, pelo menos até ao final deste ano, continuará a aumentar o número de pessoas em risco de morrer devido ao impacto económico e social da pandemia provocada pelo coronavírus – ou ao contrário do que ocorre noutros países, se as nossas autoridades não tomarem as medidas mais assertivas, teme-se que estas poderão morrer por problemas resultantes do aumento da pobreza e da fome e do colapso do sistema nacional de saúde muito mais do que da própria doença.

Para as pessoas que já viviam em situação de pobreza, o coronavírus surge como mais uma crise no topo das múltiplas, que já enfrentam. Problemas como a violência de género ou doméstica, crise climática, num contexto de alto nível de insegurança alimentar, já impediam milhões de pessoas de viver de forma digna.

É preciso evitar que agora, com o alastramento da pandemia, as medidas tomadas pelo Poder Executivo para contê-la não criem condições, para que estas pessoas tenham a situação mais agravada. É, a meu ver, para isso que servem as políticas públicas, dentre as quais o Orçamento Geral do Estado (OGE).

Por que algumas pessoas tentam ainda hoje enfrentar o problema com os mesmos “truques” do passado, isto é, encher os camiões de comida e distribuir pelo País afora, aproveitando para fazer propaganda de cariz político e partidário? Não teria sido melhor utilizar tais recursos para criar junto destes beneficiários capacidades para que estes possam resistir ao problema e garantir formas de sustento mais dignas?

Sérgio Calundungo

FonteNJ

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