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Massa cinzenta

Em nome do lucro, ao longo dos últimos anos, andámos a bombear o ensino com turbo-informação. Mas, sendo tão dispersa, tão inútil e tão atabalhoada, em muitos casos, parte substancial da massa cinzenta sai deformada das suas linhas de montagem e não consegue depois ir ao mercado de trabalho converter a informação recebida em conhecimento. Tudo em nome do lucro e só do lucro!

Mas, a deriva não pára. Sem capacidade para assegurar índices de prestação académica atractivos, sem capacidade para estabelecer uma ligação produtiva com o sector empresarial e desprovida de condições de funcionamento encorajadoras, insistimos agora, ao nível do ensino superior, em continuar a confundir democratização com massificação.

E os danos provocados pelo desprezo a que foi votado o ensino público em Angola reproduzem as suas misérias também na política.

Por aqui parece que estamos apostados em continuar dar palco às “pérolas gramaticais” com que, amiúde, Bento Kangamba gosta de brindar à sociedade…

Como se vê pelo “talento” empregue agora na campanha de folclórica agitação propagandística posta em marcha pelo Gabinete de Cidadania do MPLA. O que este gabinete está a fazer circular nas redes sociais é demasiado mau para ser verdadeiro.

A estratégia de comunicação contida na mensagem é desastrosa. Faz-se um uso inapropriado da palavra “revú”, ignorando-se o tom pejorativo que lhe está subjacente. E se a mensagem está mal elaborada, os conceitos são todos errados.

Nem o nome do líder do MPLA não escapou à intifada: “Lorenço”. Escrevem, afinal, como pronunciam. Mal e porcamente! Seguem-se cotoveladas pedestres na gramática e erros de concordância monumentais.

Não chegam a cometer a proeza de, em dez palavras, aloirarem o texto com quinze erros como, frequentemente, se notabiliza Kangamba, mas se a ousadia não for travada lá chegarão…

Mas, indiferentes a essas e outras misérias, lá vamos nós, cantando e rindo, com abertura de mais universidades, como se o maior número de instituições de ensino superior por metro quadrado determinasse a sua qualidade ou a subida de Angola no ranking regional…

O ambiente, ao nível da academia, é insalubre.

Os currículos estão lá, mas, como diz o meu camarada Alves Fernandes, “o autoritarismo e a arrogância” são hoje “co-morbilidades” que, por ali, concorrem também para o predomínio da “pandemia das ordens superiores”, da troca de favores, da profissionalização da intriga e da falta de visão e da ausência de liberdade democrática…

Sem nunca ter havido diálogo e muito menos debate académico entre a Ministra do Ensino Superior e os professores catedráticos espalhados pelo país, não espanta que – como diria o escritor e sociólogo português, João Pedro George – por ali também se “viva num lago de água estagnada, pobre em oxigénio”…

Da quarentena das vaidades que por lá vai desfilando, o Prof. Doutor Eng. Luís Guerra Marques nunca deixou de se mostrar receoso perante a antevisão da (anunciada) catástrofe.

Na semana passada, Ennes Ferreira, professor catedrático do ISEG em Portugal, escrevia no Expresso que “país sem um sector educacional estruturado e de qualidade certamente não vai longe”.

Pode ser uma verdade “lapalissiana”, mas não será assim tão líquido. E antes de Ennes Ferreira, já no início da década de noventa do século passado, Guerra Marques advertia que “a privatização do ensino das engenharias e da medicina poderá vir a redundar num perigoso negócio de consequências criminais incontroláveis”. Pena é que ninguém o tenha levado a sério. Muita pena. O resultado está à vista…

O investimento na formação de base de professores do primeiro ciclo com uma aposta de longo prazo no Magistério Primário surge agora como um desafio inadiável e de importância capital para travar a tragédia e encetar a recuperação da antiga qualidade pedagógica do ensino de base em Angola.

Para isso, falta-nos, no entanto, rigor e uma aposta séria na investigação. Mas, para começar, salvaguardado o contexto, ao nível do ensino primário, falta-nos um novo Pinheiro da Silva…

Falta-nos reflectir sobre o que (não) fizemos mais de quarenta anos depois do envio dos primeiros bolseiros angolanos para o estrangeiro. E aqui chegados, não poderemos agora continuar a remeter a um silêncio sepulcral o resultado do investimento feito pelo Estado nesta matéria, quer através do INABE, quer através da Sonangol, quer ainda através do sector pesqueiro.

E não podemos continuar a fazer cedências neste ponto porque, ao longo de anos, a ecologia do poder fez dos militantes e da fidelidade partidária o seu aliado preferencial, mas dissociou-se do seu principal activo: os quadros.

Alhearmo-nos agora deste último e vasto património seria o mesmo que capitular perante a imposição de uma insustentável quarentena política arquitectada por uma elite cujo cérebro foi sequestrado pelas ramas petrolíferas.

E se essa elite, através de um ambicioso e diversificado plano de formação de quadros promovido pela Sonangol sob a batuta de Cláudio Silva, soube montar e olear a máquina e lubrificar os rolamentos, nunca conseguiu, porém, accionar o ponto de ignição…

Agora, queixamo-nos da falta de recursos qualificados em muitas áreas do saber. Essa realidade é inquestionável. Mas pior do que isso, é o sub-aproveitamento, a utilização irracional ou mesmo o ostracismo a que têm sido votados muitos quadros diferenciados em Angola.

E se não os temos por aqui em dimensão satisfatória, só nos resta ir lá fora recrutar angolanos ou estrangeiros à altura das nossas necessidades. E devemos fazê-lo sem complexos!

Outros países, com as mesmas dificuldades, mas com melhores performances económicas que Angola, dispensaram preconceitos e não hesitaram em recrutar o melhor que há no mundo.

Aqui ao lado na Namíbia, durante muitos anos, a Câmara das Minas foi dirigida pelo engenheiro zambiano Veston Malango e a soberania financeira deste país – de que tão ciosos gostam de ser os angolanos – não desapareceu.

No Reino Unido, os accionistas do Banco Real – o Lloyd’s Bank – não se importaram de colocar como CEO um português. Os fabulosos resultados, entretanto, alcançados por Horta Osório revelaram que a competência não tem nacionalidade.

Durante alguns anos, a África do Sul teve à frente da Direcção dos Direitos Mineiros também um estrangeiro. Reconhecidas as suas grandes valências técnicas, “a visão alemã” do nosso Ministro dos Recursos Minerais, Petróleos e Gás, Diamantino Azevedo acabou por determinar a sua recente contratação para dirigir a Agência Nacional de Recursos Minerais. Quem era esse estrangeiro? O angolano Jacinto Rocha.

Angola não tem experiência nenhuma em matéria de Bolsa de Diamantes. Visionário, o nosso Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, pondera agora colocar à testa deste organismo um estrangeiro com vasto currículo na indústria mundial de diamantes.

O escolhido poderá ser o belga Peter Meeus, o homem que, durante anos, esteve à frente do Centro Mundial de

Diamantes do Mundo sedeado na Antuérpia e que montou a Bolsa de Dubai. Algum problema?

No campo da medicina, entre outros grandes especialistas, Portugal, acolhe a maior patologista do mundo, a Drª Fátima Carneiro – uma médica nascida e crescida em Angola onde chegou a frequentar a Faculdade de Medicina até ao 25 de Abril.

No nosso continente, para além de Luís Sambo, de entre outros, Nené Filipe – reconhecido cardiologista com passagem pelo Congo Brazzaville e Gabão – e Joaquim Saewka – um dos maiores especialistas em saúde pública que esteve quinze anos no Quénia – são quadros com provas dado ao serviço da OMS.

Depois de ter feito a especialidade em Inglaterra, o mestrado na antiga República Federal Alemã e agora o doutoramento nos Estados Unidos, o Professor Doutor Belchior Silva, com larga experiência no combate às epidemias de ébola e febre amarela, será porventura hoje a maior autoridade angolana em bio-estatística.

É estranho no primeiro caso que, ao nível da Faculdade de Medicina, ou dos poderes públicos, ninguém se tenha ainda lembrado de convidar aquela especialista do Hospital de S. João do Porto para vir ao nosso país transmitir a sua experiência.

No segundo caso, não deixa de ser igualmente surpreendente o afastamento de quadros com aquela craveira técnica e pedagógica do “onze principal” que enfrenta hoje um dos adversários mais temíveis do planeta nos últimos 50 anos – o novo Coronavírus.

Com estes e outros especialistas sentados no banco dos suplentes ou em casa, fica provado que, tal como em economia, o nosso problema não será tanto a escassez de recursos, mas a má distribuição da riqueza e do saber.

Também no sector da saúde o nosso problema não será tanto a falta de currículos para publicitar no mercado ambulante, mas o desprezo a que a mais valia técnica e pedagógica dalguns especialistas está a ser remetida e a irrelevância a que está a ser relegado o seu capital científico e intelectual.

O nosso problema radica antes na empáfia de gente sem capacidade para gerir competências e no medo encarnado por quem detendo poder foge ao debate técnico.

O nosso problema é que, misturando cifrões com neurónios, continuamos a confundir massa monetária com massa cinzenta. Assim, como diz e bem Ennes Ferreira, “não vamos longe”… ■

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