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Adeus, Waldemar

Este é um texto rigorosamente pessoal. Como amigo de Waldemar durante anos, recuso-me a participar quer em tentativas de aproveitamento de toda a ordem, inclusive por iconoclastas gratuitos e desconhecedores dos factos e das relações entre os indivíduos, quer em operações de normalização embaladas em cinismo e hipocrisia política.

Partiste há escassos dias, mas, como talvez aconteça com todos, já sinto a tua falta. Tenho, pois, necessidade de lembrar-te. A memória, posta à prova por tantos acontecimentos – extraordinários ou degradantes, mas marcantes – vividos, certamente me impedirá, fragilizada, precisões temporais e exactidões detalhísticas, mas não abalará a factualidade das experiências que vivemos em comum. O coração, principalmente, sabe e saberá para sempre das cumplicidades que alimentámos ao longo da vida.

Nascemos com um ano de diferença, tu, um ano antes de mim. Conhecemo-nos em Luanda no século passado, nos anos de fogo de 74 e 75, talvez antes da independência do nosso país – essa Angola que dizias ser a tua “namorada” -, talvez logo a seguir.

Já não sei quem apresentou quem a quem, mas, nessa época, éramos três: tu, eu e o Aguiar dos Santos, o Quim. Palmilhávamos a cidade de então. Os bairros: Terra Nova, Caputo, Bairro Popular, Vila Alice, Marçal, rangel, Precol, Boavista. Conversávamos. Sonhávamos. Vivíamos.

Conheci também parte dos teus familiares. A memória só fixou o Bastos, teu irmão, hoje médico. Creio que fomos quase vizinhos, ali mesmo, nos edifícios do Cofre de Previdência dos funcionários públicos, na rua da Rádio Nacional (há ruas assim, que são fixadas pelo conhecimento popular por alguma referência icónica desse tipo e não pelo seu nome oficial).

O Bastos venerava-te. Sonhava os mais altos voos para ti. Queixava-se, amargurado, das barreiras que tinhas de enfrentar. Tantos anos depois, penso nessa relação, tua e do Bastos, e não posso deixar de pensar no meu falecido irmão Kiluxa, que também conhecias e também gostava de ti – e de chorar por ele. Ou no Bito Pacheco, que também era meu irmão, embora não de sangue, e com quem partilhaste igualmente parte da tua existência.

Sim, éramos uma família.

E havia, ainda, o Beto Lacerda. Sempre ligado à música, responsável pelo som, na chamada “cozinha”. Ainda costumo vê-lo, de vez em quando. Já não falamos “desses tempos de outrora”, para lembrar Alberto Teta Lando, com quem, tenho a certeza, já te encontraste nessa outra dimensão para onde acabaste de partir. Os tempos actuais estão muito ásperos e cinzentos.

Vivemos mais de perto, eu e tu, durante alguns meses (ou anos?), numa outra cidade, que para nós se tornou muito cara: o rio de Janeiro. Foi na segunda metade dos anos 80, quando fui para o Brasil trabalhar como correspondente de imprensa e te encontrei lá, tentando lançar a tua carreira internacional. Tinhas acabado de lançar o teu primeiro disco, com a ajuda desses gigantes chamados Martinho da Vila e Chico Buarque.

No dia em que anunciaram a tua morte, o Aluízio Belisário – irmão do nosso camba do peito João Belisário, antigo guerrilheiro contra a ditadura militar no Brasil, actualmente jornalista, nascido carioca mas que hoje é mais angolano do que brasileiro – lembrou na página dele do Facebook como te conheceu, a pedido do irmão.

“Quando era jovem” – escreveu ele a teu respeito -, “veio ao Brasil e preparou em minha casa, num gravadorzinho bem simples, uma fita de demonstração para levar ao Chico Buarque e que lhe abriu as portas para a gravação do seu primeiro disco (tarde inesquecível).

Depois, em 2014, durante o período em que estive em Angola, tive a chance de revê-lo, já famoso e reconhecido internacionalmente, e passamos uma noite no Chá de Caxinde em Luanda, papeando. Mais um poeta que o mundo perde”.

Eras assim, Waldemar. Por isso, todos os que te conheciam te amavam.

Apesar da dívida do Brasil com África e das inúmeras e importantes amizades que tinhas no meio musical brasileiro, o mercado desse país não é (e, naquele tempo, menos ainda) fácil para os artistas africanos. Por isso, partiste para Lisboa, a fim de, a partir dali, alcançar o mundo. Quando te foste, muitos dos teus amigos ficaram meus amigos.

Evoco, em nome de todos eles, o Mais-Velho Adolfo, figura enigmática e bem humorada (diziam-no “bicheiro”, mas nunca tive interesse em confirmar) e a sua predilecção pelas “jararacas de pêlo curto” (não posso dizer, aqui, o que eram).

Quando estavas em Lisboa, procurava-te sempre que passasse por essa cidade. Como sempre, conversávamos. Partilhavas comigo os teus planos, as tuas queixas, as tuas decisões. Comemorávamos os teus sucessos, grandes ou pequenos. Eu tentava amenizar a tua amargura por não poderes festejar esses sucessos com todos os angolanos.

Num desses nossos encontros em Lisboa, sempre ao almoço, claro, falaste-me num dos teus grandes sonhos: gravar com uma orquestra sinfónica. Por isso, exultei quando recebi o fantástico disco que gravaste com a Orquestra Sinfónica de Londres. Quando o escutei, não tive dúvida: todos os angolanos vão festejá-lo.

Nos últimos tempos, fomo-nos encontrando quando era possível. Mas eu ia tendo notícias de ti, pela imprensa e por esse grande médium contemporâneo chamado Internet. Quase sempre que vinhas a Luanda, arranjávamos um tempo para nos vermos.

Assisti (tinha de fazê-lo) ao teu último espectáculo no Show do Mês, onde nos abraçámos. dias depois, no quintalão da União de Escritores Angolanos, eu, tu e o Belisário falámos durante horas, já não lembro a respeito de quê. Importa?

Vi-te na televisão, há dois dias, num show que deste no Terreiro do Paço, em Lisboa, em 2018. Estavas em plena forma. Já nem cantaste “Velha Chica”. A causa está entendida, meu irmão e camarada.

Adeus.

 

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