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Governo de silos…

“Este documento, sem consistência, não pode ser aprovado, mas só tu é que podes intervir para o desmontar”…

Parece mentira, mas não é. Foi exactamente assim. E é assim que continua a ser. Sem tirar nem pôr.

O diálogo, entredentes, passou-se numa única reunião do Conselho de Ministros? Não! Passa-se em (quase) todas as reuniões deste órgão. Do Conselho de Ministros do antigamente? Não! Do Conselho de Ministros do novo testamento.

O diálogo, envolto em penumbra, por entre estes dias, entretém o tempo de (dois) Ministros, que participam em reuniões onde, afinal, em vez de se complementarem, uns e outros, vigiam-se entre si.

O murmúrio é a voz que, por ali, comanda a vida. Uns e outros, por detrás das cortinas do tempo, acompanham a rotação dos ponteiros do relógio para ver quem, lá dentro, tem coragem para pôr a cabeça de fora.

Uns e outros, como estatuetas engravatadas, esperam, lá dentro, para ver quem dá o primeiro passo e quem toma a palavra. Para uns e outros, o uso da palavra parece configurar a disseminação de urticária pela sala.

E quando se combate a pandemia, uns e outros, estão ali sobretudo para apurar contra quem se faz uso da doença.

Do alto do pedestal, e com respeitável distanciamento social dos restantes membros da comitiva, o Presidente não se apercebe, mas é assim que funciona o Governo.

A liberdade de opinião incorpora o discurso oficial, mas os oficiais da corporação, postos lá dentro, desdenhando o seu exercitamento em voz alta, preferem ostentar autocongratulatório silêncio.

Dessa opereta, muito mal saem os Ministros. Saem mal, mesmo sem haver registo de qualquer história do seu fuzilamento mental.

Saem mal porque mesmo não havendo esse registo, não chega a uma mão o número de criaturas que, no Conselho de Ministros, ousa tomar a palavra.

A perversão das liberdades está, assim, ali auto-mutilada, sob o manto diáfano da fantasia democrática. Por ali fecham-se os olhos e tapam-se os ouvidos diante da monitorização da palavra.

Ministro que tome a palavra para falar sobre a área de Ministro vizinho é por ali considerado invasor do território alheio. Lá dentro parece prevalecer uma espécie de pacto de sangue ao abrigo de um tratado fronteiriço com áreas bem delimitadas.

Quem é do Ambiente não pode entrar no território da Habitação e quem pertença à região da Agricultura está proibido de penetrar no espaço da Indústria.

As suspeições que recaem sobre o Ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança são uma nódoa que toda a gente vê estar a borrar as paredes do Palácio, mas lá dentro ninguém ousa destapar a mancha.

Os reparos, cá fora, à forma egocêntrica como a Ministra da Saúde gere a crise pandémica são notórios debaixo da mesa, mas lá dentro o que assusta é o desfile de um silêncio cúmplice de aves mortas. Ninguém está autorizado a ultrapassar os limites da acomodação política acordada entre as partes…

Diante de opções de políticas públicas desastrosas, o código de conduta interno impõe que ninguém fale do sector do outro para não fragilizar proponente algum diante do Chefe.

Pode-se ver o copo a entornar a água, mas ninguém ousa mexer uma palha para estancar o derrame com medo de ser acusado de pretender aspirar a um lugar na plateia…

Dessa opereta muito mal andam a sair os nossos Ministros. Estão ali para trabalhar, mas o que neles se vê, à saída de casa, são criaturas sorridentes, mas blindadas na boca a caminho do emprego: as reuniões.

Por aqui, o Estado continua a navegar em burocracia, opacidade, lentidão e perda de tempo e de dinheiro. Por entre um número infindável de reuniões, não há eloquência.

No gesto, por lá, reproduz-se a tentação para clonagens norte-coreanas. No olhar, a sombra da previsibilidade. No acarneiramente, a doutrina. E na acomodação política, a procissão…

Por ali, os gestos estão codificados numa sala que se confunde com um convento onde não há espaço para diálogo assente no debate aprofundado dos temas técnicos. Por lá, não há interesse em confrontar ninguém…

Cada um age segundo a sua agenda. Cada um reina em função da proliferação de organismos paralelos. Cada um viaja ao sabor de diversos interesses paralelos.

Cada um prospera segundo poderes paralelos. Cada Ministério funciona como um “silo” ou como uma “ilha” inexpugnável à entrada dos habitantes de outras “ilhas”. O Governo é o mesmo, mas cada Ministro actua como se cada Ministério fosse uma coutada pessoal ou de grupo.

Por lá, os Ministros movimentam-se sob a influência da órbita teatral partidária. Agem com os reflexos condicionados pela inacção cerebral de um partido que, nunca como agora, revelou tanta escassez de massa crítica…

Às vezes dá a impressão que estamos diante de corpos estranhos ao funcionamento do próprio Governo. Reparos dentro do Conselho de Ministros? Nem pensar! Críticas em voz alta? Ninguém se atreve!

Toda a gente, por ali, vive refugiada dentro de si própria. Por ali, os Ministros continuam a reunir-se à volta de palavras mudas, com medo de conjugar o verbo falar…

Por lá confunde-se a crítica com ataque pessoal. Olhos vesgos vêem perseguição onde se proclamam apenas denúncias públicas. O debate perde-se no deserto.

Por lá os Ministros, intencionalmente, não intervém perante documentos alheios sem consistência, com receio de serem mal interpretados. Depois, como Pilatos, assistem, triunfantes, à intervenção do mata-borrão.

A mudez e a surdez, como traço de união, tomaram conta da tribo. O génio só sai da toca quando há um rebanho a seguir. De mãos dadas, estendem-se, alegremente, no divã da hipocrisia.

O retrato, desfigurado, torna-os irreconhecíveis. A encenação é medonha. Convoca um espelho retrovisor que exibe em casa a caricatura de cada um no Conselho de Ministros.

Não, não são bons exemplos. Estão por lá tão indiferentes à vizinhança que mal se dá conta da sua existência. Julgam-se tão estranhamente imunes ao vírus que infecta outros Ministros que nem parecem pertencer ao mesmo Governo.

Não podemos deixar-lhes serem menores. Pertencem a um Conselho de Ministros que, afinal, não está feito para falantes. O Presidente bem pode reunir-se sozinho. Mal sabem que as palavras servem para os libertar!

À saída do convento falta fazer-lhes um aviso: podem gastar o tempo e o dinheiro que quiserem a fazerem reuniões e a aprovarem leis, mas no final serão sempre julgados não pelo tamanho da coleira, mas pelos resultados…

E se dentro do convento a missa faz fé, no alto mar, perante a turbulência do tempo, o comandante do navio vê ao longe os marinheiros convencidos de que, no convés, a coordenação é perfeita.

Mentira! Não chega a ser sequer imperfeita porque, por ali, se há um coordenador, não há coordenação. Os vasos comunicantes parecem entupidas. Sem comunicação, prevalece um diálogo de surdos e mudos.

O “pivot” da coordenação é tão fugidio na tomada de posições, que até já foi simpaticamente classificado com o título de “Nobel da Indecisão”.

Não é peixe nem carne. A ausência da sua presença na hora das grandes decisões preenche o menu da sua agenda.

À medida que o tempo vai passando, a sua imagem vai-se deteriorando cada vez mais e, se não se precouver, qualquer dia, nem nos meios académicos os estudantes lhe reconhecerão autoridade…

As excepções fazem parte da regra. De entre elas, uma de grande relevo, faz a diferença. Bornito de Sousa. O Vice-Presidente é das raras vozes que é ouvida com atenção nas reuniões do Conselho de Ministros.

Fala com propriedade. Sabe o que diz. Ao corrigir à mão alguns governantes deixa o Presidente em situação desconfortável a pensar no nível de alguns colaboradores que o rodeiam…

Ao Vice-Presidente deve-se o mérito de, em boa hora, ter passado a pente fino os Manuais Escolares. Sem ele, mais um desastre estaria na rua a provocar danos irreparáveis às novas gerações. Vê-se que é um político que dorme com um livro na cabeceira.

Pena é que outras excepções como as do Vice-Presidente, não tivessem visto a oportunidade que tiveram à mão para questionarem o que criticam nos corredores: a construção da clínica dentária da Presidência…

Por lá, ninguém fala. Por lá rasteja-se em dó menor. Por lá, como adverte o sociólogo português António Barreto “muito mal vai um país quando se começa a olhar não para o que as pessoas fazem, mas para o que pensam, sentem e dizem”.

Por lá, nada se diz. E assim vai (muito mal) o país. Vai mal e, às vezes, parece que nos esquecemos que, mergulhados em grande inquietação, a corrida do tempo exige alta velocidade.

O comandante da coluna bem tenta pôr o pé no acelerador, mas o pelotão, desafiado a sprintar, tem medo de pedalar. Antes mesmo de se sentar na bicicleta, cai e prefere simular lesões para não ser acusado de má condução.

Este é o estado anedótico de mau gosto a que, lá dentro, chegou a nossa governação… ■

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