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A Jangada e a autoridade do mar…

Ao proclamar aqui na semana passada a necessidade de levarmos a cabo uma reforma sobre as reformas, não faltou logo quem, legitimamente, se apressasse a perguntar-me: e os reformadores?

A pergunta, oportuna, salta da tampa ante a ameaça de virmos a ser novamente engolidos pela máxima “lampedusiana”: mudar tudo para que tudo fique na mesma…

Porém, nem oito, nem oitenta. A resposta àquela pergunta, não sairá de uma arma de destruição massiva, mas também não será envolvida em grinaldas.

Não havendo espaço para festivais de fogo de artifício, não se abrirá igualmente alas à instauração de um cenário apocalíptico que oponha “todos contra todos”. Não, nada disso.

Desde logo porque sente-se no ar a fermentação crítica de uma mudança de atitude dos governados para com os governantes de carácter irreversível.

Sente-se no ar a calibragem de um novo espírito de liberdade que, impulsionado de baixo para cima e avesso ao inconformismo, se ergue agora para fazer prevalecer o direito à indignação dos cidadãos contra sucessivas operações de cosmética que, por aqui, continuam a embrulhar em exótico bálsamo o nosso sistema democrático.

E sente-se ainda no ar a noção dos gigantescos estragos provocados pela embriaguez do “boom” petrolífero propulsora de uma perigosa deriva governativa.

Mas, no ar clama-se também pelo surgimento de reformadores portadores de uma mente “desmineralizada”, que sejam capazes de oferecer à sociedade um pensamento político mais racional e uma visão da coisa pública mais estruturada.

No ar ergue-se ainda o desabrochar de reivindicações de uma cidadania que, depois de ter sido conduzida, durante vários anos, em contramão, ao impor agora como imperativo político e moral a arrumação e desinfestação da casa de diversas pandemias sociais, exige a imersão de uma liderança que, mesmo escrevendo direito por linhas tortas, saiba ao menos reconhecer que o poder do dinheiro mal gerido pelos governantes é sempre inversamente desproporcional à lucidez política, à noção de racionalidade governativa e ao bom senso dos governados.

Se “partir os dentes” ao ciclo de monopólios prevalecente constituiu uma espécie de “Grito de Ipiranga”, a via verde para as reformas num sector nevrálgico para a economia – os petróleos – pode ter sido betumada no mais poderoso activo do país – a Sonangol – com a separação do exercício, em simultâneo, da atividade concessionária da atividade de exploração.

Escreveu-se assim direito porque houve coragem política para dar um pontapé no desfile de conflitos de interesses que, assente no império da corrupção, acabou por provocar a degradação da imagem da companhia.

Escreveu-se direito porque a sua governança passou agora a estar virada exclusivamente para o seu “core bussiness”, pondo fim à ilusão besuntada na testa dos seus funcionários que julgavam que pertenciam a um Estado dentro de outro Estado…

Escreveu-se direito porque começou-se a quebrar o ciclo vitorioso da acumulação de ociosidade em pessoal, do triunfo da morte de competências à deriva, da dispersão de energias de recursos técnicos e do descontrolo de meios financeiros que, sem qualquer escrutínio auditorial, acabaram por provocar há oito anos a sua falência técnica.

Escreveu-se direito porque a Sonangol está agora obrigada a preparar-se para enfrentar o mercado da concorrência, em igualdade de circunstância, com as demais operadoras petrolíferas.

Escreveu-se direito porque em obediência às regras de transparência e em busca das práticas que conferem maiores garantias de credibilidade aos parceiros, entregou-se, finalmente, a função concessionária a um organismo – a Agência Nacional de Petróleos.

Endireitadas algumas das linhas tortas com que, por aqui, no passado, se coseram as nossas políticas públicas, com uma nova escritura em andamento, começam agora a levantar-se dúvidas sobre a arquitectura das reformas e sobre o perfil dos reformadores.

Dei por mim, por isso, a projectar um rápido olhar sobre a obra de Deng Xiao Ping. E lembrei-me então, que este (quase) anão de metro e meio impulsionador da política de “portas abertas” na China, ao demonstrar ao mundo que tamanho não é documento, atirou-se às reformas munido de três armas:

uma forte convicção na mudança sob uma liderança firme, a “paciência de chinês” alicerçada numa visão de longo prazo e uma elite política séria, comprometida e bem preparada.

E, logo lembrei-me também de João Lourenço. Lembrei-me de um Presidente que, alimentando o país com uma forte vontade de mudança, está, porém, a tornar-se vítima dos seus próprios erros de “casting” e de algumas decisões governamentais que, tomadas por impulso e sem efeitos no bolso dos cidadãos, ao gerarem a descrença, na China certamente levariam o velho Deng a corrigir o tiro.

Lembrei-me que a prevalência por aqui de um ambiente de negócios difuso e a incapacidade dos poderes públicos vencerem alguns desafios sociais básicos estão a revelar que, em muitos casos, a incompetência pode estar a ser muito mais danosa para a governação do que a corrupção.

Lembrei-me do efeito corrosivo do totalitarismo presidencial vigente no nosso modelo empresarial público. Lembrei-me das consequências do seu triunfo amparado pela falta de controlo interno e de mecanismos de corporate governance.

Lembrei-me, afinal, de um político que ao ser chamado a transformar a “paciência de chinês” num acelerador do tempo, está confrontado com um grande dilema:

alguns dos intérpretes da mudança que o rodeiam com maior preponderância política, ao terem submetido o

nosso deserto intelectual a apressadas cirurgias plásticas, respirando vício e crime sem precisar de ventiladores, erguem-se como promotores de um situacionismo que mais não é do que o astrolábio de um país ainda fortemente tatuado por uma democracia monossilábica.

Estamos, pois, aqui perante o imperativo político de olhar para Angola com novas lentes de contacto.

Para isso, os reformadores do século XXI não podem voltar a pensar como se estivéssemos no último quartel do século XX, que é como ter jornalistas a comunicar por telex o que, em segundos, hoje os telemóveis colocam ao alcance de todo o mundo.

Se esses reformadores devem ter a fibra política, a lucidez intelectual e a integridade moral dos grandes pensadores e políticos da saga nacionalista do século passado, agora, deles exige-se que desfiliem a tribo mandante do sindicato da mentira, da cultura da arrogância, da dependência da incompetência e do vício do roubo.

Deles se espera que reformem o conceito de “esforço governativo” agora profusamente exaltado pelo discurso oficial como se o empenho dos governantes devesse ser abençoado como um favor aos cidadãos.

Deles se espera que tenham a noção de que sendo pagos para trabalhar bem e apenas bem, quem governa, como lembrou esta semana o jovem jornalista Israel Campos, “não faz esforço, faz o seu trabalho”! E se decide trilhar o caminho inverso, então arrisca-se a antecipar a reforma!

Deles se espera que rompam com o monólogo comunicacional vigente para que a avaliação da “massa cinzenta” dos governantes pelos cidadãos, não se confina aos discursos do Presidente, aos comunicados oficiais do Governo, a repetição de slogans por parte de papagaios políticos ou a reprodução de “orientações superiores” como catequese normativa da sua relação com a opinião pública.

Deles se espera, por isso, que também falem, complementem, debatam ou exponham, sem freios, um pensamento que, como assinala o filósofo Marco Aurélio, saiba estabelecer “a diferença entre um bom argumento e o bom senso”.

Deles se espera que entendam que a auto-censura ao empobrecer o debate está a transformar as nossas elites num novo corpo expedicionário de retardados mentais.

Deles se espera que contribuam para a reposição de uma escala de hierarquia social bem definida para que não se caia na tentação populista de voltar a nivelar a sociedade por baixo.

Deles se espera que não persigam o sucesso dando a palavra aos imbecis, promovendo os idiotas, ignorando a competência ou desvalorizando a educação, o saber e a concorrência.

Deles se espera que reconheçam que, da mesma forma que diploma não é sinónimo de competência e rejuvenescimento não significa inovação, também não podemos continuar a navegar entre mentiras e meias verdades.

Deles se espera que, em presença da ausência de amortecedores sociais que aliviem os efeitos gravosos do crescente espiral de pobreza e de desemprego, liderem um debate urgente sobre o Estado social que queremos, as formas de o financiar e os meios de comparticipação dos cidadãos.

Deles se espera, enfim, que tendo plena noção do aumento de sinais de inquietação popular, para enfrentar os desafios que se avizinham, percebam que boiar numa jangada não significa ter autoridade sobre o mar… ■

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