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Comunidades Khoi San alteram hábitos seculares

Habituados a viver em áreas inóspitas do Sudoeste de África, longe das cidades e das novas tecnologias, as comunidades san conservam tradições seculares há mais de 100 mil anos.

Conhecidos desde a era do Paleolítico (período da pré-história que começou há cerca de 2,5 milhões de anos), esses povos são descendentes directos dos primeiros ancestrais africanos.

Conforme estudos especializados, baseados em testes de DNA, é um dos povos mais antigos do Planeta Terra, que vive em grupos nómadas, nos territórios da Namíbia, África do Sul, Angola e Botswana.

Talhados para a caça, os sans ou “khoisans” partilham características físicas e linguísticas distintas da maioria dos Bantu, como a língua, marcas identitárias que “atravessam” várias gerações.

Segundo pesquisas, só no Botsuana, por exemplo, oito mil “bosquímanos” natos preservam sons de cliques que seriam, de acordo com linguistas, componentes remotos de um idioma ancestral humano.

Trata-se, pois, de um povo peculiar, que perdeu as suas terras com a chegada dos europeus, e se fixou em zonas desérticas do Continente Africano, ganhando, à época, o apelido de “homens do mato”.

Os Koisan são povos humildes, conhecedores da natureza, habituados a lutar pela sobrevivência. Estima-se que, actualmente, pelo menos 100 mil Khoisan vivem em África (Botswana, Namíbia, África do Sul, Zâmbia e Zimbabwe), dos quais 14 mil e 900 em Angola.

No país, habitam em clãs patriarcais, maioritariamente nas províncias da Huíla e do Cuando Cubango, onde lutam, diariamente, pela sobrevivência, nas matas e no deserto.

No Cuando Cubango estão 11 mil e 900 membros, que vivem em 22 comunidades San, nos municípios de Menongue, Cuito Cuanavale, Nancova, Rivungo, Dirico Calai, Cuangari e Mavinga.

Já na Huíla, segunda localidade mais numerosa, estão três mil membros, nos municípios do Quipungo, Cuvango, Cacula, Matala e Lubango, estes dois últimos com grupos ínfimos.

Apesar da falta de dados disponíveis, pequenas comunidades de khoisans podem ser também encontradas na província do Cunene, mais precisamente na zona fronteiriça com a Namíbia.

Na essência, a vida dos sans, nesses territórios de Angola, é marcada por duras batalhas, sacrifícios e superação constantes, que já começam, inclusive, a fazer alterar o seu estilo de vida.

Todos os dias, adultos, jovens, adolescentes e crianças dessa comunidade travam uma luta para manter as tradições, que muita gente não vê, pelo país adentro, mas que é cada vez mais acentuada.

Com o passar dos anos, a comunidade san, na Huíla e no Cuando Cubango, está a perder os seus hábitos e costumes, principalmente a prática da caça e a recolha de frutos silvestres.

Contrariando a sua forma natural de viver, tem vindo a apostar em novas técnicas para sobreviver, como a agricultura de subsistência e a criação de animais, práticas até então alheias ao seu dia-a-dia.

Na base dessa alteração radical está a escassez de frutos silvestres, por causa das queimadas que dão cabo da flora, além da proibição, pelo Governo, da caça de várias espécies de animais.

Confrontada com a realidade, a comunidade san enfrenta períodos de fome, que levam à adopção de  novo estilo de vida, perdendo, assim, habilidades seculares, como o uso do arco com veneno, para caça.

Outro aspecto que se vem perdendo, ao longo dos anos, é prática das danças características.

Diante desse quadro, actualmente, muitos membros da comunidade apostam na agricultura familiar e fundição de ferro para a produção de artefactos, o seu novo negócio temporário e fonte de renda.

Com esse novo paradigma, alguns têm aderido a empregos em instituições públicas e frequentado escolas e cursos profissionais, tendo em vista a adaptação a novos costumes e a melhoria de condições.

Na região de Mbundo (Cuando Cubango), são notórios os sinais de mudança entre os sans, que investem em casas à base de blocos de barro, cobertas de chapas de zinco, uma realidade nova.

Proteção contra Covid-19

Numa altura em que o país sofre com o impacto negativo da Covid-19, as autoridades administrativas locais tudo fazem para facilitar a vida destes povos nómadas.

Para tal, à semelhança dos cidadãos das grandes cidades, o Governo do Cuando Cubango distribuíu meios de biossegurança, como máscaras, sabão e água para a higienização pessoal e colectiva.

O pacote, tal como nas demais comunidades, inclui cestas básicas e campanhas de sensibilização sobre  as formas de transmissão de outras informações sobre o perigo da pandemia.

Em paralelo, tem vindo a ser feito um trabalho de reinserção dos povos Khoisan, nesta província, onde já estão a aprender a comunicar-se em outras línguas, com destaque para a Língua Portuguesa.

Os mesmos participam do processo de alfabetização nas suas comunidades, sendo que, nesta comunidade, 84 membros frequentam aulas de alfabetização (jovens e adultos).

O processo de inserção social é apoiado pela organização MBAKITA que, em 2019, ganhou um financiamento EU 200 mil da Conferência Episcopal Alemã, para apoiar três mil pessoas.

A iniciativa está virada para os sectores da agricultura, saúde e assistência alimentar.

O referido valor será doado em duas fases, sendo que nesta primeira fase estão disponíveis 50 mil euros para o efeito.

Os projectos visam o reforço do processo de construção de habitações, escolas e postos de saúde, bem como a instrução da comunidade para as práticas da produção de bens de consumo, por via do cultivo nas zonas ribeirinhas, para melhorar a produção agrícola familiar.

Na comunidade, com cerca de 30 famílias deste grupo alvo, muitas crianças em idade escolar foram inseridas no sistema normal de ensino, juntando-se a outras encontradas na circunscrição.

Já no município da Jamba (Huíla), a administração local adquiriu um tanque, com capacidade para 10 mil litros de água e duas moto-cisternas para o abastecimento de água para o consumo e higienização.

Para facilitar a integração, a comunidade tem vindo a receber carros de tracção animal e sementes para cultivar a terra e criar animais pequeno porte, estratégia que já começa a dar resultados.

É com esses apoios, que as autoridades procuram preservar essa comunidade secular, que perdura no tempo, com os mesmos traços físicos, a mesma perícia, mas com outros sonhos e realidade social.

Gradualmente, a comunidade Khoisan abre espaço à modernidade, procura equilibrar a vida no deserto com na cidade, saindo em busca do conhecimento moderno, sem, jamais, haver o risco de extinção.

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FonteAngop
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