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Pandemia segue descontrolada no Brasil e reabertura é um erro, afirmam médicos

Ao contrário do que afirma o Ministério da Saúde, o Brasil ainda não estabilizou a pandemia de COVID-19. A avaliação é de médicos ouvidos pela Sputnik Brasil.

Em entrevista coletiva em Brasília na segunda-feira (1º), o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo de Medeiros, afirmou que o número de mortes causadas pelo coronavírus tem se mantido constante e que o país atingiu um platô na curva de contágio, ou seja, o número de infectados não deverá crescer de maneira aguda e deve se manter estável.

O médico epidemiologista e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Guilherme Werneck afirma que “não há evidência clara” de que o país tenha estabilizado a pandemia.

“Hoje está claro que a epidemia está se expandindo para a região centro-oeste e sul do país, que foi relativamente poupada no início da epidemia. Nessas regiões, a gente deve esperar que a epidemia esteja iniciando de certa forma, que o número de óbitos vá aumentar. Em outros estados, por exemplo o Ceará, Amazonas, já foram mais atingidos e estão esperando um decréscimo. Mas eu diria que na maior parte do país não se está observando o platô que eles estão alegando”, diz Werneck à Sputnik Brasil.

O professor da UERJ também aponta outro fator que demonstra a falsidade da afirmação do Ministério da Saúde: as notificações sobre mortes e infecções no Brasil são atualizadas com “grande defasagem”.

No Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) autorizou a reabertura com restrições de bares, restaurantes e academias a partir do dia 2 de julho. No Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha (MDB) estabeleceu cronograma para a reabertura total do comércio nas próximas semanas e a retomada das aulas presenciais.

O epidemiologista Guilherme Werneck afirma enxergar com “preocupação imensa” a reabertura.

“O que está acontecendo é uma abertura precoce em que não temos clareza do ponto em que nos encontramos na epidemia nas diferentes partes do Brasil e, também, não estamos completamente preparados para enfrentar essa flexibilização que implicaria, por exemplo, em uma ampliação substantiva no número de testes, na busca de pessoas sintomáticas e seus contatos”

Brasil caminha para um genocídio, diz professor da USP
O médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Gonzalo Vecina Neto compartilha a preocupação com a reabertura e também discorda da avaliação do Ministério da Saúde sobre o momento do coronavírus no Brasil.

“O que o secretário de Vigilância em Saúde está falando não confere com a realidade. Nós não estamos em um platô, nós reduzimos a velocidade de crescimento, mas continuamos crescendo e, pior, o Ministério não está realizando os testes e, portanto, estamos frente, também, a um grande sub-registro de casos. Portanto, está na hora de tomar cuidado e não pensar em relaxamento. Uma coisa é o que o secretário, o ministro, o presidente quer. Outra coisa é a realidade e a realidade, infelizmente, como nós não estamos fazendo o que temos de fazer em termos de isolamento social, em termos de testagem e em termos de quarentena de pessoas que estão infectadas, os casos continuam a crescer”, diz Neto à Sputnik Brasil.

O Brasil está em seu terceiro ministro da Saúde desde o início da pandemia. Luiz Henrique Mandetta foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) semanas após pesquisa indicar que a gestão do Ministério da Saúde tinha mais que o dobro de aprovação popular do que o próprio presidente. Seu sucessor, Nelson Teich, deixou o cargo após se opor ao uso de cloroquina no tratamento da pandemia, medicamento sem eficácia comprovada. O atual ministro, Eduardo Pazuello, é interino e militar.

O Brasil tem, nesta quinta-feira (2), 61.884 mortes causadas pela COVID-19 e 1.496.858 pessoas infectadas pela enfermidade.

“A flexibilização só poderá ocorrer se houver queda consecutiva de 14 dias. E, além disso, em regiões onde as taxas de ocupação das UTIs estejam abaixo de 60%. Caso contrário caminhamos para um genocídio”, avalia Neto. “Temos que ser sérios com o tratamento de vidas e não é isso que o Ministério da Saúde está propondo.”

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