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Covid-19: Distanciamento social é um dos principais desafios em Moçambique

O não cumprimento do distanciamento social dificulta a implementação do estado de emergência, conclui conferência científica sobre a Covid-19, em Maputo. Medidas para conter o impacto da pandemia devem ser reforçadas.

Cerca de 80% de mulheres e 99% de homens adultos saem de casa, alegadamente para se deslocarem às compras, para irem para o trabalho ou para realizarem negócios, revela um estudo divulgado pelo Centro de Investigação em Saúde da Manhiça.

A principal fonte de sobrevivência da maioria dos moçambicanos é o comércio informal. “Nós verificamos diariamente que as pessoas, em média, ficavam fora de casa, antes da Covid-19, 13 horas. E depois da Covid, este tempo apenas reduziu ligeiramente”, explica a investigadora Aleia Rachide Agy, do Observatório do Meio Rural.

“E grande parte das pessoas que saíam dependem daquela actividade para o seu sustento”, afirma também o director executivo do Instituto para Democracia Multipartidária, Hermenegildo Mulhovo.

O Observatório do Meio Rural defende que o Governo devia criar uma cesta básica para garantir a permanência em casa das famílias vulneráveis.

Dados avançados na conferência indicam igualmente que 40% das crianças não permanecem em casa, apesar das escolas se encontrarem encerradas.

“Doença das cidades e das elites”

Contrariamente ao distanciamento social, a implementação das medidas de higienização das mãos e do uso das máscaras regista maior adesão. No entanto, no campo as pessoas têm ainda a percepção errada de que a Covid-19 é uma “doença das cidades e das elites”. Para a investigadora Janet Dulá, “as zonas mais urbanizadas têm acesso fácil à informação e acabam tendo algum privilégio nas mensagens-chave, mas há que abranger as zonas mais ruralizadas”.

Também foi constatado num inquérito que metade dos pais deixariam que os filhos regressassem à escola caso diminuíssem os casos de Covid-19 e fossem criadas condições de prevenção nos estabelecimentos de ensino.

Já 100% dos trabalhadores estão prontos para retomarem o trabalho, mediante a tomada de medidas de prevenção.

Moçambique figura entre os dez países com o registo mais rápido de duplicação da pandemia no mundo.

É preciso “rever prioridades”

O escritor Mia Couto, que é igualmente biólogo e membro da Comissão Técnico Cientifica sobre a Covid-19, considera que é preciso olhar desde já para o impacto desta pandemia no futuro da sociedade. “Se nós voltarmos àquilo que chamamos normalidade vamos arranjar uma cura para esta doença, mas não vamos arranjar cura para outras doenças mais antigas que são doenças sociais, a falta de solidariedade, a desigualdade, a injustiça, que agora se tornaram bem patentes”.

Mia Couto defende ainda que “é preciso que se revejam as prioridades que é preciso dar. Por exemplo, a ideia desse modelo neoliberal em que o Estado fica emagrecido, os sistemas públicos ficam enfraquecidos porque o mercado é que vai resolver, não serve”.

FonteDW

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