- Publicidade-
Smooth Jazz Rádio Calema
Inicio Desporto Futebol Angola, 14 anos depois do Mundial da Alemanha

Angola, 14 anos depois do Mundial da Alemanha

Há exactos 14 anos, precisamente no dia 11 de Junho de 2006, na Alemanha, Angola estreou-se num Campeonato do Mundo de Futebol, organizado pela FIFA.

A estreia dos então desconhecidos Palancas Negras na mais alta roda do futebol mundial representava o corolário de um aturado trabalho, cujas sementes só começaram a dar frutos em 1996, altura da também primeira qualificação do país à Taça Africana das Nações.

Dez anos depois da histórica participação no CAN da África do Sul, Angola chegou destemida para o Mundial da Alemanha, batendo o pé à forte selecção de Portugal, liderada por Luís Figo e Deco, com quem perdeu à tangente (1-0), num jogo equilibrado.

Na Alemanha, Angola era, inicialmente, tida como uma das selecções mais fracas, pelo seu historial, pela ausência de jogadores nos maiores campeonatos da Europa, pela falta de títulos nas competições africanas e, acima de tudo, pelo histórico dos adversários.

À partida, era quase certo, entre os grandes críticos e analistas do futebol mundial, que Portugal e México, pelo seu histórico, fossem disputar as duas vagas disponíveis, sem grandes dificuldades, cabendo a Angola a missão de lutar com Irão pelo terceiro lugar.

Era isso que o Mundo esperava, mas como a lógica do futebol dita que os jogos são ganhos no campo, a tendência e a prática demonstraram outra coisa. Angola equilibrou os três jogos e até podia vencer, caso tivesse no seu elenco atletas mais experientes.

Desde a estreia contra Portugal (1-0), ao fecho da participação contra o Irão (1-1), os Palancas Negras deram provas de que estavam na Alemanha para competir, honrar África e mostrar que as qualificações ao CAN não foram obra do acaso.

A 11 de Junho, o primeiro testemunho disto mesmo foi Portugal, que sofreu até ao último minuto para vencer Angola por 1-0, em jogo disputado na cidade de Colónia.

No dia 16, em Hannover, os angolanos impuseram um empate a 0-0 ao México e, no fecho da fase inicial, a 20 de Junho, em Leipzig, novo empate, 1-1, diante do Irão.

Neste último desafio foi marcado o primeiro golo de Angola na fase final de um Campeonato do Mundo, concretizado pelo avançado Flávio Amado (de cabeça).

Tal como na qualificação para o evento germânico, após vitória no derradeiro jogo, sobre o Rwanda (1-0), com golo de Akwá, de cabeça, Zé Kalanga voltou a ser o autor do cruzamento que deu o tento contra o Irão.

No essencial, os Palancas Negras tiveram bom desempenho, com um saldo de uma derrota e dois empates (diante do México a 0-0 e do Irão a 1-1), números que lhe davam, até ao último segundo, claras possibilidades de qualificação.

A selecção lutou com tudo o que tinha, mas quis o destino que o sonho da passagem aos oitavos de final ficasse adiado para outra ocasião.

A participação de Angola na Alemanha e os resultados obtidos na época fazem levantar uma questão: aonde andam os “Palancas Negras” que entusiasmaram os angolanos e criaram expectativas de futuras participações em eventos do género?

Na verdade, desde 2006, o futebol angolano tem sido marcado por equívocos administrativos e directivos, fundamentalmente no escalão de sénior.

Por conta disto, o país nunca mais participou, a nível desse escalão, numa fase final da maior competição de futebol mundial, perdendo as qualificações para as edições de 2010, na África do Sul, de 2014, no Brasil, e de 2018, na Rússia.

Para o Qatar2022, nada ainda está perdido. Angola integra a fase de grupos da zona africana, com vitória sobre a Gâmbia por 2-1, em Setembro de 2019, no Estádio 11 de Novembro, em Luanda, no jogo da “2ª mão”. Antes triunfou fora por 1-0.

Trocas sucessivas de treinadores, dissidências no actual elenco federativo, destacando-se a do vice-presidente para os escalões de formação, Norberto de Castro, e descontentamento por parte dos jogadores da selecção, estão na base do actual insucesso.

Sob liderança de Justino Fernandes e, depois, de Pedro Neto, o futebol nacional não só obteve a inédita participação num mundial (da Alemanha), como também conseguiu as melhores participações em campeonatos africanos, realçando-se os quartos-de-final do Ghana2008 e Angola2010, sob orientação de um mesmo técnico – Oliveira Gonçalves.

Estes 14 anos têm sido também marcados pela descontinuidade. No período anterior, havia sequência na sucessão dos escalões.

O exemplo disso é que a selecção levada à Alemanha foi quase a mesma que conquistou o CAN de Sub-20 (Etiópia2001) e competiu no Mundial do escalão (Argentina2001).

Hoje, Zito Luvumbo é quase excepção quando o futebol nacional é analisado na perspectiva da renovação, numa altura em que se assiste a fenómenos nunca antes vistos, como a reclamação de prémios e, sobretudo, ameaças de greve por parte de atletas.

Foi, de resto, esse mau ambiente que “minou” a participação no CAN do Egipto, em 2019.

Desde a estreia de Angola num mundial até aqui, o futebol sénior tem estado em “queda livre”, sendo excepção apenas os Sub-17, que neste período se apresentaram como a tábua de salvação do actual elenco federativo liderado por Artur Almeida e Silva.

Os “miúdos” tiveram, em 2019, um ano inesquecível, mercê do segundo lugar alcançado no CAN disputado na Tanzânia (ficaram em terceiro, mas beneficiaram da desqualificação da Guiné Conakri por adulteração de idades de jogadores) e uma segunda fase no Mundial do Brasil.

No entanto, apesar deste ambiente nostálgico que rodeia a efeméride, melhor mesmo é recordar o que de bom se viveu há 14 anos, na Alemanha.

Fruto de uma preparação com todos os “condimentos”, consubstanciados numa boa liderança federativa e técnica, Angola conquistou o respeito até dos mais cépticos, que perspectivavam derrotas por números gordos.

A história mostrou que foi puro engano. Os angolanos, vulgo Palancas Negras, contrariaram esses prognósticos, com uma equipa competitiva, formada pelos seguintes atletas:

Guarda-redes: João Ricardo (sem clube), Lamá (Petro de Luanda) e Mário (Inter de Luanda).

Defesas: Locó (1º de Agosto); Delgado (Petro de Luanda); Marco Airosa (Barreirense de Portugal); Jamba (ASA); Lebo Lebo (Petro de Luanda); Rui Marques (Leeds da Inglaterra); Marco Abreu (Portimonense de Portugal); e Kali (Barreirense de Portugal).

Meio-campo: Mendonça (Varzim de Portugal); Figueiredo (Varzim de Portugal); Edson Nobre (Paços de Ferreira de Portugal); Miloy (Inter de Luanda), Zé Kalanga (Petro de Luanda); e André Makanga (Kuwait FC).

Avançados: Fabrice Akwá (sem clube); Flávio Amado (Al Ahly do Egipto); Pedro Mantorras (Benfica de Portugal); Love Kabungula (ASA); Titi Buengo (Clermont da França); e Mateus Galiano (Gil Vicente de Portugal).

O futebol é mesmo o desporto “Rei”

Em termos gerais, a participação inédita de Angola na 18ª edição do Campeonato do Mundo de 2006 foi marcada com júbilo generalizado e sentimento patriótico dos angolanos.

Aquela euforia só pode ser comparada a eventos como a proclamação da Independência Nacional, no dia 11 de Novembro de 1975.

O movimento de apoio a favor dos Palancas Negras ganhou dimensão nacional, após a qualificação para a prova, na tarde de dia 8 de Outubro de 2005, em Kigali, Rwanda, com uma vitória suada de 1-0.

Os mais de 500 excursionistas presentes no Estádio Amahoro, vestidos com as cores da Bandeira Nacional explodiram de alegria quando, aos 84 minutos, Akwá desviou de cabeça um cruzamento da ala direita, de Zé Kalanga, colocando Angola no topo do futebol mundial.

Seguiu-se a preparação para a prova, com um movimento de apoio organizado, que incluiu cidadãos de todo o país, independentemente das crenças religiosas, convicções políticas ou extractos sociais. “Angola esteve representada de Cabinda ao Cunene”.

A participação no mundial trouxe outro entusiasmo à forma como os adeptos se manifestam em eventos desportivos.

Contava o país com apenas quatro anos de paz efectiva, alcançada em 2002, pelo que a participação de Angola representou uma viragem na vida dos angolanos.

Para quem acompanhou a selecção à Alemanha, fazer amigos entre compatriotas, grande parte deles fora da terra natal há anos, era o “menu” preferido, nos estádios, bares, esplanadas e churrascarias, com o teor das conversas a incidir nas transformações do país.

Graças àquele evento, entoar o Hino Nacional – o “Angola Avante” – tornou-se moda e o orgulho pelo país, sendo que a valorização das origens e dos símbolos nacionais é hoje mais visível, tendo contribuído para isto a boa prestação da selecção.

Hoje, principalmente nos musseques, as crianças têm os seus ídolos, brincam e jogam apelidando-se de João Ricardo (guarda-redes), Zé Kalanga (médio), Mantorras, Flávio ou Akwá (atacantes), apenas para citar estes.

Actualmente, o uso de camisolas, calções, saias, bandeiras, cachecóis e outros utensílios com as cores nacionais é mais frequente, se comparado ao período anterior ao evento germânico. Mas a aproximação da selecção aos adeptos é cada vez menor.

Volvidos 14 anos, desde o 11 de Junho de 2006, o sentimento patriótico vai se renovando cada vez mais, provando que o futebol é mesmo o desporto “Rei”, embora, no caso de Angola, muito ainda deva ser feito para o país voltar a viver um ambiente de festa como o de 2006.

Para tal, o trabalho para devolver a mística aos Palancas Negras deve ser sério e consistente, com dirigentes e atletas comprometidos apenas com o interesse nacional.

O futebol angolano, a nível de selecções, precisa de despertar e voltar à ribalta.

Angola continua a ter bons jogadores a evoluírem no país e na diáspora, mas, sem organização, investimento e planos consistentes, muito dificilmente voltará a ter, tão cedo, uma nova participação num Mundial. A hora é de trabalhar, arregaçar as mangas, esquecer os problemas do passado e caminhar rumo ao ressurgimento dos Palancas Negras.

- Publicidade -
FonteAngop
- Publicidade -

Moçambique: Cadeia provincial de Inhambane sobrelotada e sem condições

A cadeia provincial de Inhambane, no sul de Moçambique, tem o dobro de reclusos que a sua capacidade poderia suportar. Detidos ouvidos pela DW África reclamam falta...
- Publicidade -

Valentino Rossi acusa positivo à Covid-19 e falha GP de Aragão

Valentino Rossi informou recentemente que acusou positivo no teste feito à Covid-19. O piloto italiano de MotoGP não se estava a sentir bem, como...

Henri Lopes: “No Congo, a independência era assustadora”

Ex-primeiro-ministro e ex-embaixador do Congo na França, o escritor Henri Lopes conta a atmosfera confusa que reinou no Congo nas décadas de 1960 e...

RDC: batalha entre Kabila e Tshisekedi pelo controle do Tribunal Constitucional

Félix Tshisekedi e seu antecessor Joseph Kabila têm travado uma batalha feroz pelo controle do Tribunal Constitucional há várias semanas. Na véspera da posse dos...

Notícias relacionadas

Moçambique: Cadeia provincial de Inhambane sobrelotada e sem condições

A cadeia provincial de Inhambane, no sul de Moçambique, tem o dobro de reclusos que a sua capacidade poderia suportar. Detidos ouvidos pela DW África reclamam falta...

Valentino Rossi acusa positivo à Covid-19 e falha GP de Aragão

Valentino Rossi informou recentemente que acusou positivo no teste feito à Covid-19. O piloto italiano de MotoGP não se estava a sentir bem, como...

Henri Lopes: “No Congo, a independência era assustadora”

Ex-primeiro-ministro e ex-embaixador do Congo na França, o escritor Henri Lopes conta a atmosfera confusa que reinou no Congo nas décadas de 1960 e...

RDC: batalha entre Kabila e Tshisekedi pelo controle do Tribunal Constitucional

Félix Tshisekedi e seu antecessor Joseph Kabila têm travado uma batalha feroz pelo controle do Tribunal Constitucional há várias semanas. Na véspera da posse dos...

Dinamarquês que matou jornalista num submarino tentou fugir da prisão

O dinamarquês condenado por torturar e matar uma jornalista sueca no seu submarino privado fugiu esta terça-feira da prisão, onde cumpre prisão perpétua, mas...
- Publicidade -

Deixe um comentário

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.