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Portugal “entalado” entre dívida e União Europeia

João Duque refere que ajudas às empresas têm de ser “estritamente para acudir à Covid”, enquanto a CIP defende que “não é com moratórias ou com o aumento do endividamento que se resolve o problema”.

Um país “entalado entre duas paredes, a dívida e a União Europeia”, palavras do economista João Duque. Em declarações ao Jornal Económico (JE), o também professor universitário frisa que “os apoios a determinadas empresas não podem ser considerados ajudas de Estado, porque o Estado não pode distorcer a concorrência nem os mercados”. Realça ainda que “as ajudas têm de ser estritamente para acudir ao efeito Covid” e lembra que o nível de endividamento existente no país “faz com que Portugal tenha menos margem de manobra”.

João Duque recorda medidas do passado que acabaram por sair caras. “Houve quem distribuísse benesses quando, se calhar, devia ter feito uma amortização mais severa da dívida, e agora, possivelmente, teríamos mais folga. Não pusemos os funcionários públicos a 35 horas e fizemos todas as reversões? Tudo isso teve imenso custo”, refere, traçando um cenário ainda mais negativo para o futuro. “Poderemos ter situações bastante graves, como Portugal começar a baixar o seu nível do rating da dívida, com impactos que podem ser muito grandes. Portugal pode ficar com um nível de dívida que nunca teve”. Para o economista, há que “responder às emergências dentro das restrições que temos”.

Questionado sobre a forma como a economia de Portugal poderá evoluir, João Duque diz ter a sensação de que “vamos descer menos agora, mas depois subimos menos também”, e que o país até teve sorte com a Covid-19. “Também não quis muito connosco, e aparentemente acabamos por sair bem na fotografia, o que também ajuda em alguma recuperação da imagem de Portugal”.

CIP defende que problema não se resolve com moratórias
Aquém das expetativas ficaram também as medidas de apoio disponibilizadas pelo Governo para 80% dos empresários. Este é o resultado de um inquérito feito pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP) com o Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE).

Ao JE, Óscar Gaspar, vice-presidente da CIP, diz que “já foram lançadas linhas de apoio na ordem dos 6,2 milhões de euros”, verba que ainda não chegou às empresas”. Por outro lado, frisa que o número de pedidos “foi muito além daquilo que eram os seis mil milhões”, sendo “o valor global de dez milhões de euros”. O responsável afirma não entender que “tendo o Governo já feito uma notificação a Bruxelas para as linhas de crédito poderem ir até 13 mil milhões de euros, não encontramos nenhum motivo para elas ainda estarem nos seis mil milhões”.

Óscar Gaspar afirma que “até agora as medidas do Governo incidiram em linhas de crédito e moratórias”. Algo que lhe parece insuficiente: “Nos últimos meses uma boa parte das empresas estiveram fechadas e não é com moratórias ou com o aumento do endividamento que se resolve o problema das empresas.”

Sobre as medidas apresentadas pela Comissão Europeia na quarta-feira, salienta que “são robustas em termos de montante, adequadas porque em cerca de 2/3 se trata de subvenções, e justas porque não penalizam assimetricamente os países em função de uma crise (pandémica e económica) que foi simétrica”, até porque “a par das medidas do Governo para apoio à economia e manutenção dos postos de trabalho, era absolutamente essencial que a União Europeia também assumisse as suas responsabilidades”. Sobre a retoma da atividade por parte das empresas, refere que “desde o dia 4 de maio tem havido um regresso progressivo à atividade”, embora existam “preocupações específicas, nomeadamente no setor da restauração e do turismo”.

O responsável da CIP assume que “é necessária uma reativação da economia nacional, europeia e mundial”, sendo que “Portugal, nos últimos anos, fez uma grande inversão, com uma abertura exterior, dado que uma parte da nossa economia depende, e bem, das exportações”. Como tal, “precisamos que os outros países reativem a economia e que venham turistas estrangeiros a Portugal”, realça, mostrando confiança na recuperação do país.

“Havendo os instrumentos certos do lado europeu, é possível no próximo ano recuperarmos uma boa parte daquilo que perdemos em 2020. Acredito que podemos ter uma recuperação em V”, conclui Óscar Gaspar.

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