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Estado de emergência: Disparos de polícias provocam mortes, dor e tensão

Actuação policial já fez o mesmo número de vítimas mortais que a Covid-19 no país. Autoridades assumem discurso crítico contra «desobediência e enfrentamento» policial. Famílias enlutadas falam em uso «desproporcional e criminal» da força policial.

São desfechos dramáticos da actuação da Polícia Nacional (PN), em pleno estado de emergência, que terminaram com a vida de dois jovens. Há vários pontos convergentes no relato dos episódios que enlutaram famílias num intervalo de quase um mês: Tonylson e Lili conheceram a morte em solo luandense; os disparos dos agentes policiais atingiram a cabeça das vítimas; foram sábados trágicos.

A morte de Tonylson, mais novo entre as vítimas, colocou a zona do Rocha Pinto na rota de mais um tumulto, com modus operandi muito parecidos com o motim que se sucedeu após a morte, em 2018, da zungueira Juliana Kafrique, também por agentes da PN: “A polícia matou e nós revoltámo-nos”, relatam, em uníssono, os moradores.

Carregam traços de fúria no rosto. A morte é ainda recente. Falam à reportagem do Novo Jornal minutos após terem levado, na manhã de terça-feira, 12, António Vulola à «última morada», no cemitério do Benfica.

As fotos do jovem de 21 anos, morto no sábado, 09, por agentes policiais que vigiavam a zona no quadro do estado de emergência, estão espalhadas nas ruas e becos do chamado bairro Huambo, interior do Rocha Pinto. O luto é quase generalizado e a revolta também.

O local em que Tonylson foi alvejado está a metros de onde Juliana Kafrique deu os últimos suspiros. Não terá passado ainda a dor pela morte da zungueira para que a população do bairro voltasse a chorar a morte de um morador, novamente por disparo policial. Quase nas mesmas circunstâncias: “desacato” às autoridades, segundo advoga a polícia, e “uso desproporcional da força policial”, de acordo com a tese popular.

O bairro está, por isso, vigiado por um número considerável de efectivos das forças da ordem, destacados no local para conter o alvoroço. São quase duas dezenas de polícias e militares, devidamente equipados com armas de guerra e gás lacrimogénio. Há uma constante troca de olhares que comunica crispação entre os efectivos e a população.

O local do óbito faz-se através de um longo beco. No percurso estão, sobretudo, mulheres que não escondem a dor da perda de um familiar. Os desabafos, com tons carregados de ira, contra a actuação da polícia, ouvem-se com frequência no percurso.

A família está ainda concentrada em número significativo. Os homens ocupam maioritariamente a parte do quintal.

A sala da casa onde Tonylson vivia com a mãe e três irmãos está preenchida de senhoras. Lá está também Margarida, de 19 anos, que transporta um recém-nascido ao colo. É Anderson o primogénito que Tonylson viu nos cinco primeiros dias de vida.

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