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A Memória, o Silêncio e o COVID 19 (II)

Por Gabriel Baguet Jr* / Redacção Portal de Angola

A rigor, pode-se dizer que cada cidadão escolhe os seus pontos de atenção e referência para se situar no tempo e no espaço urbano. Eu conheço um lugar, costumamos dizer, implicando com isto que nos referimos a um recanto da cidade especial para nós, que nos toca de maneira particular. E podemos fazê-lo evocando a Memória e o Silêncio. Neste âmbito de reflexão, recordo com assumida tristeza que no dia que comecei a traçar as linhas de namorar de novo com as palavras como ocupação do meu tempo de Memória e de Silêncio, acabava de ter a notícia da perda da Mãe de um amigo, meu compatriota, antigo militar durante a trágica Guerra Civil em Angola e actualmente Escritor, dando-me também o prazer de escrever o Prefácio de uma das suas obras literárias. Entre os amigos, é conhecido por Singa, por também ter vivido em Singapura. O seu nome natural é José Manuel Pinto e tive o grato prazer de conhecer a sua querida Mãe. Mãe é Mãe. Antes de falarmos, uma amiga moçambicana de nome Carmen e antiga proprietária do Restaurante ” 101 Ideias” dava-me a triste notícia. O nosso Singa acaba de perder a sua Mãe no Hospital de Santa Maria em Lisboa. A ele e aos seus familiares exprimo em Silêncio as minhas sentidas condolências num Tempo de Memória. O Abraço desejado de dar ao Singa não podia acontecer. O telefone foi o meio para exprimir os meus sentimentos. Na Memória apareceram as longas conversas tidas em diferentes espaços da histórica cidade de Lisboa, hoje “fechada” ao Mundo pelas contigências vividas pelo Estado de Emergência devido ao COVID 19 e agora em Estado de Calamidade. Isto é Memória. Uma Memória triste, mas também de Saudade quando se conversava no primeiro Parlamento ( espaço existente na baixa de Lisboa e para onde convergiam vários amigos e parentes, como ZéZé Gamboa, José Manuel Carioca, José Luís Tavares, Luís Carlos Patraquim, Zethu, eu próprio, José Manuel Rodrigues Vaz e o Primo Geninho e outros). É assim o caminho da Memória e do Silêncio. Como diz e cito ( ele não se importará) um Saudoso Primo “que é possível amar uma cidade como se ama uma mulher”. Esta profunda e lindíssima reflexão que orgulhosamente faço, tem a assinatura de GéGé Belo. Evocar esta frase do GéGé é também relembrar a Memória e no Silêncio lembrar Luanda, a cidade virada para o esplendor do Oceano Atlântico.

Luanda, a capital de Angola, também é como o País inteiro está, encontra-se em Estado de Emergência. Faz e ntegra a Memória. Disse em várias circunstâncias que não há Futuro sem Memória. A Memória percorre o nosso tempo e a nossa alma em diferentes fusos horários e em múltiplos lugares e momentos. Por isso e apesar da trágica Pandemia, há também boas razões para evocar a Memória. Na Memória cabem todas as boas e más Memórias. Dirá o leitor que o autor destas palavras vive um momento de nostalgia. Mas quem não vive? Talvez as pessoas insensíveis.

E não há que ter vergonha de assumirmos a nossa sensibilidade e respeitar quem a tem. A sensibilidade de estarmos sensíveis ao sofrimento dos outros, é uma atitude naturalmente humana. Condição fundamental para perceber o que nos rodeia e interpela no nosso quotidiana. Por exemplo indigna-me como vi na minha amada Luanda, um polícia bater uma Mulher Quitandeira que orgulhosamente caminha descalça no alcatrão quente para alimentar os seus filhos. Indigna-me. Indigna-me que existam Seres Humanos Sem Abrigo. Indigna-me. Indigna-me a insensibilidade perante as diversas dores da Condição Humana. Indigna-me a arrogância, a petulância, o novo riquismo, a brutalidade para neutralizar os mais frágeis e desfavorecidos.Indigna-me o abuso de poder e a boçalidade. Indigna-me a violação de Direitos Humanos em pleno Século XXI. Indigna-me os Silêncios corporativos para humilhar a Dignidade Humana. Indigna-me a falta de coragem e dos que fazem dos seus temporários Poderes armas de arremesso perante quem não tem como se defender. Indigna-me ter visto a impotência de milhares de Seres Humanos não poderem abraçar os seus ente queridos no último adeus da vida.

A COVID 19 trouxe isso ao terreno de 2020. Isso é Memória. É um Olhar de reflexão e Silêncio neste alegado “novo normal” como dizem alguns analistas. Mas nada será como dantes, cuja normalidade em muitas circunstâncias não foi nada normal.
E neste triste contexto não imaginava ver a cidade Nova-Iorque com valas comuns a céu aberto. Não imaginava o apelo justo do Governador de Manaus no Brasil confrontar-se com as valas comuns. Isso é Memória. Como ainda me comove o vivido em Espanha, Itália Inglaterra, México, Equador e todos os demais Estados do mundo afectados por esta Pandemia.

Induzidos, educados e ensinados a identificar lugares de uma cidade, partilhando das mesmas referências de sentido, em um processo de vivência do imaginário urbano coletivo. Os lugares de memória de uma cidade são também lugares de história. História e memória são, ambas, narrativas do passado que presentificam uma ausência, reconfigurando uma temporalidade escoada. São representações que dão a ver um “acontecido” que, a rigor, não é mais verificável ou sujeito à repetição. Mas o tempo passado não é irrecuperável, uma vez que, através do imaginário, se faz presente no espírito, dando-se a ler e ver através de discursos e imagens. Uma cidade é, pois, detentora de História e Memória, assim como também o é desta comunidade simbólica de sentido a que se dá o nome de identidade. O centro de uma cidade foi, por muito tempo, o cartão de visitas de uma cidade. Mesmo que tais espaços tenham sofrido degradação, deixaram marcas, que funcionam como padrões de referência identitária para uma cidade. As identidades são fabricadas, inventadas, o que não quer dizer que sejam, necessariamente, falsas.

As identidades, enquanto sensação de pertencimento, são elaborações imaginárias que produzem coesão social e reconhecimento individual. Identidades asseguram e confortam, sendo dotadas de positividade que permite a aceitação e o endosso. Identidades fundamentam-se em dados reais e objetivos, recolhendo traços, hábitos, maneiras de ser e acontecimentos do passado, tal como lugares e momentos. Com tais elementos, a identidade implica na articulação de um sistema de ideias imagens que explica e convence. Mais do que isso, a identidade se mostra e se exibe em ritos e práticas sociais, e se dá a ver, como no caso dos monumentos, feitos para lembrar. E tais marcos, como se pode bem apreciar, têm seu locus preferencial de referência nos centros urbanos, núcleo onde tudo começou. A construção de identidades urbanas tem o seu acabamento na construção de paisagens, onde o enquadramento do espaço construído com seus elementos referenciais e icónicos e ajusta e se enlaça com o meio natural. É o Silêncio do Abraço e da ausência do mesmo em Tempo de Pandemia que se reconstroi a Memória.

Neste sentido, cidades à beira do mar, de um rio ou de um lago jogam com o elemento natural a integrar-se com a cultura, compondo imagens dotadas de valor simbólico de forte apelo.
Isto é Memória e no Silêncio vamos construir novas pontes de Esperança esperando por novas mudanças. Conhecemos de sobra centros urbanos, corações da urbe que atraem pelo seu valor de paisagem. É ainda o cenário urbano de um centro, agitado e densamente povoado e edificado, o traço emblemático que melhor define o fenómeno urbano. Chegamos, pois, aos centros urbanos, ligados à História, à Memória e também à identidade. A indagação que se coloca é: tais lugares da cidade, tais espaços simbólicos de referência, estão, estiveram, estarão no centro urbano? É lá que se situa a memória do urbano, depositária de seu passado? Mas, antes de tudo, é preciso definir o que entendemos por centralidade. A definição, no caso, parte de uma referência espacial, ou seja, geográfica e de dimensão física: o centro é o núcleo original, o ponto de partida nodal e uma aglomeração urbana. O centro é, pois, o marco zero de uma cidade, o local onde tudo começou, o seu núcleo de origem. Assim sendo, o centro é um espaço privilegiado no tempo. Parafraseando a frase bíblica, podemos dizer que no princípio era o centro. Foi o centro. E hoje, o que é o centro? Ser o núcleo mais antigo de um assentamento urbano implica poder contar, de forma visível ou não, com a certeza de ser o sítio portador do traçado original da urbe. Como núcleo de origem, os centros urbanos concentram os prédios mais antigos, ditos históricos e potencialmente referenciais para o passado da urbe; neste espaço central teve ainda início uma nova canção que fale de mais Abraços, de mais Amor e de mais distribuição de Justiça de ajuda fundamental à sobrevivência da Dignidade Humana. Há Silêncios fortes que implicam emergentes respostas fortes e inteligentes e humanas apostas nas condições da Nova Ordem de Saúde Pública Mundial. É tempo de acabar com a Fome, com o fim da dor dos Refugiados e da dor das Mulheres. Homens e Crianças que não escolheram sofrer. É o tempo Emergente de acabar com as assimetrias sociais e económicas e dar uma nova Luz aos túneis negros da Vida. Comove-me o empenho e a coragem de toda a classe de Profissionais de Saúde e de diferentes áreas de intervenção nesta Área da Saúde Pública Mundial no combate à COVID 19 e a todos os outros Sectores profissionais que permitiram que as Farmácias, as Padarias,as Mercearias, os Supermercados, os Homens e as Mulheres da Recolha do Lixo público, dos profissionais dos Correios, Bombeiros, Taxistas, Agricultores não parassem e a toda Comunicação Social Global levasse aos decisores políticos e não só, o que se passou, tem passado e vai passar-se nestes Novos Tempos e neste Paradigma de Um Novo Tempo. Nunca é demais ir à gaveta da Memória e do Silêncio para recordar o que foi bom, o que é bom e a necessidade de Muitos Abraços num tempo que a Pandemia não permite. Por isso ser tão forte a palavra Esperança e Humanidade sem esquecer a esquina da Memória e de um Saudável Silêncio.

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