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Valete: O rapper, a adúltera, a caçadeira e a “pide feminista”

Um homem, arma em punho, surpreende a mulher na cama com o melhor amigo. É o enredo da última música do rapper Valete. (DR)

DN

“Revolta macabra, ele quer ver a cabra morta (…). O esforço que fiz para teres a vida acautelada / Trabalho como um escravo para que não te falte nada (…) Forreta era o que ouvia das tuas bocas / quando fui eu que comprei as tuas joias, as tuas roupas / Puta, cona alargada (…) / Agora vais sentir a sequela / Com a caçadeira enfiada na tua goela / a bala a perfurar a tua traqueia / e o corpo como plateia enquanto a morte fraseia.”

Esta letra de BFF, a música que o rapper Valete, ou Keidje Torres Lima (Damaia, 1981), lançou no início de setembro em vídeo, está a suscitar reações de choque e indignação. No clip, que segue fielmente a narrativa da música, um homem surpreende a mulher na cama com o melhor amigo e, de caçadeira em punho, insulta-a, acusa-a de viver à custa dele e enfia-lhe o cano da caçadeira na boca, apontando-a de seguida ao amigo que acusa também de traição. Quando vai disparar acorda na cama ao lado da mulher: estava a ter um pesadelo. “Estás todo suado”, diz ela. “Vai tomar um banho.” Enquanto ele o faz, o amigo sai do armário onde estava escondido e foge.

“Do Valete espero rimas pesadas e mensagens fortes que nos ajudem a sermos melhores seres humanos. Não é o caso.”

“Esperei impacientemente pelo fim do vídeo para ver qual a emancipação mental que a música podia trazer… Zero. A nível técnico de construção fonética e lírica, impecável claro, agora de substância e contributo para a construção social e humana nadinha”, lê-se no Facebook do músico em comentário a um post com o vídeo. “Pelo contrário, o relato de uma história tipo igual a 1000 assassinatos de mulheres em Portugal. O juiz Neto de Moura é que argumenta que traição pode dar morte legítima, ou que é normal bater numa mulher com uma moca com pregos. Podem dizer que é um sonho, não interessa… por alguns comentários aqui se percebe que isso é irrelevante. Tinhas aqui uma bela hipótese de nos trazer uma música na linha da “Não te adaptes” [música de Valete sobre o papel da mulher] mas não… Profundamente desiludido… Nota, não há uma única mulher aqui a comentar…” Outro fã, no mesmo local, corrobora: “do Valete espero rimas pesadas e mensagens fortes que nos ajudem a sermos melhores seres humanos. Não é o caso.”

A maioria dos comentários – de facto, todos masculinos quando o DN os consultou, no início desta semana – são de elogio e êxtase, porém. E há mesmo quem refute as críticas certificando que não fazem sentido e que vêm de quem não conhece o trabalho do rapper.

“Foda-se o politicamente correto”
É o que se passa também no Instagram: “Vê-se mesmo que não entenderam a mensagem, vão ouvir Agir e David Carreiras”; “Vocês realmente não conhecem Valete nem a sua obra. Valete é um rapper feminista antes só de isso ser moda. (…) Nesta música ele somente faz um story telling [conta uma história], e aproveita uma história para fazer uma música. Foda-se o politicamente correto”; “Ainda bem que o Valete lançou esta música, para ver a cambada de malta ofendida nesta geração de merda de florzinhas de estufa que pensam que a racionalidade, sentido crítico e artístico acaba onde começam os sentimentos delas.”

Mas nesta plataforma os comentários desiludidos e indignados são mais numerosos que no FB. “Num país como Portugal, onde os casos de violência doméstica têm vindo a aumentar de ano para ano, é vergonhoso ver o tema abordado de forma tão leviana…”, diz alguém em resposta ao músico Dino de Santiago, que elogia e diz que vai pôr a canção de Valete “em repeat toda a noite”.

“Vocês não conhecem Valete nem a sua obra. Valete é um rapper feminista antes só de isso ser moda. Nesta música ele somente faz um story telling. Foda-se o politicamente correto”

Há quem manifeste perplexidade — “Não entendi a letra, quer dizer entendi, só não entendi a apologia à violência e à humilhação da mulher patente na letra!” – e quem seja mais veemente na crítica: “Estamos em 2019, ano em que 20 mulheres já morreram vítimas de violência doméstica. (…) Ele devia aproveitar a projeção que tem para passar outras mensagens. Este vídeo demonstra um completo desrespeito pela mulher.”; “Se isto tinha um propósito, passou completamente ao lado. É lamentável ver as músicas serem produzidas para os putos decorarem as letras. É lamentável ver a representação do que acontece com tantas mulheres tão banalizado num vídeo. Que adaptação a um público rasca.”

“Não entendi a letra, quer dizer entendi, só não entendi a apologia à violência e à humilhação da mulher patente na letra!”

Há mesmo quem considere que se pode estar na fronteira da ilegalidade: “O incentivo à violência não se desculpa como criação de um enredo ficcional. O incentivo à violência não se desculpa como obra ou ganha-pão. O incentivo à violência não só não se desculpa como não se devia tolerar. Pensei-te maior.” E quem pergunte: “Quantos e quantos miúdos se vão sentir moralizados com este tipo de mentalidade, sem qualquer tipo de reflexão, depois de visualizarem esta caçadeira apontada a uma gaja?”

E se aparece quem contraponha com “isto não incentiva a violência, incentiva a lealdade”, a resposta é brutal: “Isso parece saído da boca de um dos homens que mataram a mulher durante o início deste ano: isto não foi um incentivo à violência, foi um incentivo à lealdade. Assim garanto que a próxima já não me trai (…). A única coisa que venho deixar clara com este comentário é que o Valete, enquanto influenciador de pessoas, devia ter pensado nisto duas vezes. No entanto, tendo em conta a idade e o perfil de quem comentou isto a dizer “grande cena”, é normal que ele o faça para continuar a ganhar uns guitos. Condenável, mas nada surpreendente.”

“Não confundas luta feminista com PIDE”
Sónia Tavares, a vocalista dos The Gift, surpreendeu-se. E fez questão de o dizer a Valete, em público, no Instagram: “Anda aqui uma mulher a fazer campanhas contra a violência doméstica e tu baralhas-me isto tudo. És um tipo tão inteligente, escreves tão bem, fazes tão boa música, mas este vídeo não dá. As crianças também gostam de ti e não vão perceber que este vídeo pode ser um abre-olhos. Uma voz ativa como a tua era essencial na campanha contra a violência.”

Valete não gostou: “Cuidado com a condescendência, Sónia. Não confundas luta feminista com PIDE. Onde é que está decretado que não se pode fazer ficção com violência? Não faças da obra uma coisa que ela não é. Como fiz em toda a minha vida contei uma boa história, consegui levar para um registo cinematográfico e chegámos a este resultado. É uma boa história e bom cinema. Nada mais. Dissertações sobre homicídio passional, violência doméstica cabem-te a ti. A Sónia e a sua gang da PIDE decretaram agora que não se pode fazer filmes com violência e que não se pode fazer arte sem mensagem. Já agora manda também mensagens ao Scorcese [realizador americano, autor de Taxi Driver, Goddfellas e Casino] quando ele põe maridos traídos a matar esposas nos filmes dele. Esta mensagem é surreal vinda de uma artista como tu.”

“É só a obra de um contador de histórias a querer contar uma boa história. Associar aquela obra a violência doméstica ou humilhação a mulher é super rebuscado.”

Ela ameniza: “Não, querido Valete, era só uma opinião, eu não decreto nada. O meu sobrinho adora-te, tem 11 anos e não percebeu nada. Era só isso. (…) Acima de tudo o meu comentário elogia o teu trabalho. É só o meu ponto de vista. (…) Eu luto contra todo o tipo de Pides, e não o contrário.”

O rapper volta à carga: “É uma curta-metragem igual a muitos filmes que ele vê todos os dias. Entendes que sou artista e tenho de me expressar da maneira que me apetece expressar. Ainda bem que o teu sobrinho gosta, mas eu não faço música infantil, nunca fiz. Bem pelo contrário. Como te disse é só a obra de um contador de histórias a querer contar uma boa história. Associar aquela obra a violência doméstica ou humilhação da mulher é super rebuscado.”

Sónia reforça a pedagogia: “Sei que não fazes música para crianças, eu também não, mas invariavelmente elas chegam até nós. (…) Crianças à parte, digo-te do coração e só te escrevo porque trabalho diretamente com mulheres vítimas de violência. Parece que vi a cara de todas no teu vídeo e gostava tanto que alguém pudesse contar a história ao contrário. Do ponto de vista delas. E como amante de arte, sem qualquer tipo de preconceito, queria que soubesses que a tua voz ativa chega efetivamente às pessoas.”

“Criei uma personagem machista de propósito”
Em 2009, Valete parecia partilhar a opinião e sentido de responsabilidade de Sónia no que respeita à influência do que faz nos mais jovens. “Os músicos têm de ter noção que a faixa etária entre os 13 e os 18 anos é muito suscetível de ser influenciada. Os músicos podem influenciar esses jovens, influenciar para tornarem o mundo melhor. Podem criar um novo movimento. Vi e senti isso com o primeiro álbum. (…) Quero mudar o status quo. (…) Para mim, é sempre uma vitória se uma em cada cem pessoas captar a verdadeira mensagem. Se uma delas travar maus comportamentos depois de ouvir aquele som.”

Em causa estava, nesta entrevista, Roleta Russa , uma canção em que falava de sexo e do uso de preservativo. “Acho que a forma como alertei para o problema foi a melhor. Tem muito mais eficácia do que 50 cartazes a dizer “Usa o preservativo”. As campanhas de sensibilização são moralistas, muito corny [forçadas, pirosas], e os miúdos não gostam de ouvir. Não lhes fica no ouvido. Acho que a minha mensagem é facilmente captada.”

“Sabendo que os miúdos aprendem hoje muito através do hip-hop, se nós tivéssemos mais mulheres a fazer rap provavelmente até já estávamos mais avançados nesta questão do feminismo.”

Invocando a sua formação “em Comunicação e especialização em Marketing”, certificava: “Não gosto de chocar gratuitamente. Mas acho que tudo o que digo tem de ter impacto, eficácia. Tento transmitir algo que as pessoas sintam. As pessoas têm de estar atentas ao que estão a ouvir. Preocupo-me em rimar coisas explosivas. Em chocar para captar a atenção.”

Em entrevista bem mais recente, ao Correio da Manhã , voltava a frisar a sua consciência da responsabilidade pedagógica do hip-hop – e a propósito, precisamente, de sexismo. “Acho que um dos grandes problemas que nós temos na música em Portugal em 2017 é a escassez de mulheres a fazer hip-hop. E isso às vezes é capaz de nos levar a ter um discurso sexista. (…) Acho que é importante que as mulheres ensinem o feminismo aos homens. Sabendo que os miúdos aprendem hoje muito através do hip-hop, se nós tivéssemos mais mulheres a fazer rap provavelmente até já estávamos mais avançados nesta questão do feminismo.”

“O que viste ali é um cineasta e um novelista a contar uma história – não há mensagem. Quando faço uma obra há sempre um grupo que não entende. Acho que é um grupo minoritário e geralmente de pessoas preconceituosas em relação ao rap.”

Propósitos e preocupações que o Valete que fala ao DN parece simultaneamente renegar e assumir.

Questionado sobre qual a “verdadeira mensagem” de BFF, nega que exista. “Que mensagem? O que viste ali é um cineasta e um novelista a contar uma história – não há mensagem. Quando faço uma obra há sempre um grupo que não entende. Acho que é um grupo minoritário e geralmente de pessoas preconceituosas em relação ao rap. O preconceito vem dessa coisa de as pessoas quererem perceber o objetivo. A minha arte não é unidimensional, nunca foi. Tenho um fascínio incrível pelo comportamento humano, a psicologia humana. Criei uma personagem machista de propósito.”

“Não dou muita importância a minorias”
Porquê? “Porque é mais fascinante para o escritor. Porque criei uma obra mais violenta”. Não o preocupa o reiterar dos estereótipos – a mulher que vive à conta, falsa e dissimulada, a quem o marido ofereceu tudo e o engana – e o banalizar da violência verbal sexista e da violência física, inclusive do homicídio “justificado” pelo adultério? “Não estou a reiterar estereótipos. A história é aquela. O Valete nunca disse que não há machismo, que não há homicídio passional… A história aconteceu perto de mim. 90% do que estou a narrar ali é verídico. Não há ali juízo de valor.”

Há quem diga, precisamente, que Valete fala de um amigo seu, que está preso – prefere não esclarecer se é realmente assim. Mas também corre uma acusação de plágio: o rapper moçambicano Allan lançou este ano uma música, Ninguém sai vivo , com um enredo igual, no qual um homem recebe uma chamada de alguém a avisá-lo de que a mulher está com outro, e de arma em punho surpreende os dois, ameaça matá-los e quando vai disparar acorda na cama ao lado da mulher. “Isso é patético”, reage Valete, que garante não ter ouvido a música de Allan antes de criar a sua. “Há um milhão de sons de rap com histórias semelhantes à minha. Ouve Trapped in a closet do R. Kelly ou Fifth story do Common. Isso são dicas de quem não ouve rap.”

Seja como for, a história de BFF é contada do ponto de vista do agressor, do homem “traído”. E esse ponto de vista é assumido por muitos dos que a elogiam.

“O Valete nunca disse que não há machismo, que não há homicídio passional… A história aconteceu perto de mim. 90% do que estou a narrar ali é verídico. Não há ali juízo de valor.”

No Instagram do músico, uma jovem que comenta “só dá fortes aqui. Espero que algum gajo fale assim para a vossa irmã ou a vossa filha” recebe como resposta “se a minha irmã for uma puta como essa do clip ao foder na cama do marido com o melhor amigo dele… eu próprio vou falar com ela assim.” Outro diz: “Isto não é violência doméstica, violência doméstica é agredir de forma gratuita e sem justificação” – considerando assim que a violência do vídeo e da canção é justificada. E outro ainda: “Que eu saiba, o vídeo só mostra uma revolta de uma traição, ninguém maltratou ninguém nem magoou ninguém. Teve o cano da arma na boca para apanhar um cagaço? Epá sabes também me apeteceu fazer isso à minha ex LOL para apanhar um susto e aprender a ser uma mulher de valores.”

“Ninguém maltratou nem magoou ninguém”. Ao contrário do que se passou com os comentários de Sónia Tavares, Valete não sentiu necessidade de responder a estes seus fãs, mesmo se assevera ao DN ter lido o que escreveram.

“Houve um grupo pequeno de feministas que não gostou – feministas de classe média alta, que não ouvem rap. E um grupo de machistas ignorantes que também não entendeu.”

“Não é a primeira vez que há má interpretação de músicas. Daí que eu tenha decidido deixar de me preocupar com essas más interpretações. Não posso estar a despender esforço para justificar à esquerda e à direita. Fiz a obra, a maior parte das pessoas entendeu. E houve um grupo pequeno de feministas que não gostou – feministas de classe média alta, que não ouvem rap. E um grupo de machistas ignorantes que também não entendeu.”

Não o preocupa que haja quem veja o que fez como uma banalização e justificação da violência? “Eu por hábito não dou muita importância a minorias – se fosse a maioria das pessoas ficava preocupado.”

“O machismo é uma doença social”
Disse numa entrevista em 2017 que as mulheres têm de ensinar o feminismo aos homens, e que pode acontecer ter um discurso sexista. Não põe a hipótese de lhe ter acontecido aqui ter esse discurso? “Já tive frases machistas nas letras e fui alertado por amigas feministas – muitas vezes nós homens estamos a ter comportamentos machistas sem nos darmos conta. Aliás não acredito em homens não machistas.”

Não será que o machismo é algo que existe em toda a gente, porque fomos criados numa sociedade machista? “Sim. É difícil as nossas sociedades não produzirem homens e mulheres machistas. É muito difícil produzir a cura para esta doença social. Mas os homens num estágio de machismo muito mais atrasado nem se preocupam com isso, nem se preocupam com a cura.”

“Muitas vezes nós homens estamos a ter comportamentos machistas sem nos darmos conta. Aliás não acredito em homens não machistas.”

Sabendo disso, de que forma é que a violência e o discurso da canção, o usar expressões como “puta” e “cona alargada”, não é dizer que isso é tudo OK? “Não. Fazem parte da personagem machista que retratei. E isto que viste foi o pedaço de algo que vai ter continuação – vai haver um desenvolvimento das personagens, vai ser uma série. Sei que ao terceiro ou quarto episódio quem criticou vai perceber que estou a construir uma série e se calhar vai pedir desculpas. Vai perceber o registo que nunca viu na vida – um rapper a contar uma novela. As pessoas estão a ter dificuldade em lidar com a coisa nova.”

Mas qual é afinal a ideia daquele vídeo, pergunta Sónia Tavares, falando ao DN. “Temos de ler um manual de psicanálise para perceber? Está extremamente bem feito a nível técnico e por isso é credível, tanto que revi o medo de muitas histórias de mulheres que conheço. Percebo que o Valete queira defender o seu trabalho e tenho a certeza de que ele não o fez com esse sentido da violência de género — nem deve ter pensado nas repercussões que ia ter.” Suspira. “E ele diz que é muito rebuscado falar de violência doméstica a propósito daquilo? Se fosse rebuscada a associação à violência doméstica jamais teria tido uma intervenção daquelas no perfil público de um artista, de um colega. Quando me falaram daquilo e fui ver, nem queria acreditar. O Youtube censurou um mamilo num clip meu e pelos vistos o cano da espingarda na boca de uma mulher não incomoda. Um miúdo de 11 anos vê aquilo e acha que é espetacular pôr um cano de caçadeira na boca de uma mulher.”

“O Youtube censurou um mamilo num clip meu e pelos vistos o cano da espingarda na boca de uma mulher não incomoda. Um miúdo de 11 anos vê aquilo e acha que é espetacular pôr um cano de caçadeira na boca de uma mulher.”

Mas é crível que nesta altura dos acontecimentos, na era do Me too, e num país com um problema tão grave de violência de género, Valete não tivesse antecipado as reações? A cara dos The Gift tem um sorriso na voz: “Numa altura em que estamos todos abertos a essa consciencialização é de facto estranho. Mas a verdade é que o vídeo está aí há duas semanas e mais ninguém na área musical disse nada. Pelos vistos acham super normal. Ou ninguém se quer meter.”

Contactada pelo DN, a cantora e compositora Blaya hesita. “O Valete sempre foi um rapper que a definição dele é falar sobre as coisas que ocorrem no mundo.” Mas que pensou quando viu o vídeo? “Claro que o primeiro impacto é OK, está a abusar um bocado das mulheres e os homens vão achar que isto é uma coisa normal. Mas ele é um story teller. Só que vai haver pessoas a dizer que ela, a mulher do vídeo, merece. A glorificar aquela violência. O primeiro impacto quando vi o vídeo foi mesmo esse: está a incentivar os homens a tratar mal as mulheres só por um motivo passional. Não era aquele vídeo que faltava de certeza num país em que já foram mortas 20 mulheres este ano.”

Exatamente o ponto do humorista Diogo Faro, que no Twitter escreveu: “A nova música do Valete está excelente. É importante em 2019 continuar a retratar a mulher como propriedade do homem e o homem como um atrasado mental. Fazia falta isto, de facto. (…) Não consigo ver nada no vídeo que seja uma crítica àquilo que está representado nas imagens e nas palavras. E sendo do Valete, obviamente esperava muito mais que uma representação da mulher mercadoria e do homem irracional.”

Também Rita Ferro Rodrigues, da associação feminista Capazes, esperava outra coisa de Valete. E quis dizer-lho. “Tive o cuidado de entrar em contacto com ele porque acompanho a sua obra e carreira e fiquei estarrecida com este vídeo e com a letra da música que, para ser franca, me parece fora da linha de histórias que conta e até das causas que defende publicamente. Conversámos longamente sobre o vídeo e sobre a letra e eu transmiti-lhe a minha opinião: sendo um exercício artístico livre (ninguém questiona isso) é extremamente perigoso. Coloca a mulher como dano colateral fútil de uma rixa entre machos e banaliza de forma inadmissível a violência e a misoginia. Tivemos uma conversa cordial e franca e aquilo que o Valete me disse não vou divulgar porque foi uma conversa privada. Mas posso divulgar parte daquilo que eu lhe disse. Aconselhei-o a explicar-se publicamente e a falar de forma clara sobre o que pensa sobre o tema da violência doméstica, da misoginia e da importância do trabalho de artistas que chegam de forma impactante às novas gerações de um país onde de três em três semanas morre uma mulher vítima de femicídio. O meu apelo para que o faça mantém-se.”

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