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“O objectivo de apagar Agostinho Neto falhou”

São passados, exactamente, 97 anos do nascimento de António Agostinho Neto e, desde o dia 10 último, 40 anos do seu passamento físico. Ícone da Luta de Libertação Nacional, proclamou a independência a 11 de Novembro de 1975 e foi Presidente da República por escassos, mas intensos, 4 anos.

Na entrevista que concedeu ao Jornal de Angola, e que a seguir publicamos, Irene Alexandra Neto, filha de Agostinho Neto (AN) e PCA da Fundação Dr. António Agostinho Neto (FAAN), fala da perspectiva de comemoração do Centenário do nascimento deste Herói Nacional e do trabalho da FAAN em prol da conservação e promoção da memória do seu patrono.

“Existem ainda textos literários e documentos de António Agostinho Neto por tratar”, revela a entrevistada.

Confirma que o Centenário do Nascimento de Agostinho Neto, a assinalar-se em 2022, vai ser comemorado com muita pompa?

A Fundação Dr. António Agostinho Neto iniciou desde o ano passado a sensibilização das pessoas e instituições para o 1º Centenário de Agostinho Neto. Nestes primeiros cem anos, ainda existem pessoas que o conheceram, que comungaram com ele das mesmas convicções, que caminharam juntos ou que tomaram caminhos divergentes.

É um centenário importante por essa razão, pois seguir-se-ão outros, mas as próximas gerações não terão vivido a mesma epopeia. A organização de eventos requer sempre antecipação, preparação, financiamento e todas estas premissas realizam-se com tempo.

A FAAN considera o Centenário um marco simbólico que permitirá revisitar a figura deste singular personagem, que se destacou e marcou a história contemporânea do nosso país, na segunda metade do século XX.

Será certamente a ocasião para se relembrar Agostinho Neto no país e fora das nossas fronteiras. O Centenário é deveras importante, porque a vida do Dr. Agostinho Neto durou apenas 57 anos. Mais de 43 anos são marcados pela sua ausência, o que por si nos leva a pensar e acreditar que Angola seria diferente se o seu ciclo de vida fosse normal e mais longo do que foi.

Nesse sentido, mais do que um aniversário, o Centenário será um momento para avaliar o que foi feito e o que não foi feito, o que foi descontinuado e que redundou em perdas e recuos enormes para os angolanos. Recorde-se que, em 1978 e 1979, Agostinho Neto dedicou-se afincadamente à pacificação de Angola, tendo retirado a capacidade bélica e logística à FNLA, tendo feito as pazes com o Zaire e iniciado contactos com a África do Sul e com Jonas Savimbi, para terminar a guerra.

A verdade é que tudo isto foi descontinuado. E as consequências são as que nós conhecemos.

Concretamente, como é que está a ser desenhado o Centenário? Que tipo de actividades vão fazer parte das comemorações?

A FAAN criou a Comissão 20-22 Preparatória do Centenário de Agostinho Neto, que integra personalidades e instituições diversas, que podem sugerir e executar actividades distintas, conforme as facetas dominantes na vida e obra de Agostinho Neto. Estaremos assim a assinalar a sua contribuição política, militar, económica, literária e a sua visão para a saúde, a educação, a agricultura, a governação.

Haverá igualmente que tratar a sua estratégia para a África austral e a solidariedade com os outros povos. As actividades serão de toda a ordem, pois há ainda muito por se fazer, por se inventariar e organizar. Há muitas pessoas por ouvir. Há muitos documentos e fotografias por recolher ou digitalizar.

A memória oral e documental deve ser fixada de várias formas, em suportes digitais e em papel. Tudo isto requer um trabalho constante, minucioso, de grande dedicação, de procura de fontes, de produção de publicações. Quando surgem os lançamentos de obras, esses acontecimentos são pequenos e fugazes momentos de alegria pelo trabalho concluído e pela partilha com o público.

A FAAN deu por concluída a recolha de depoimentos orais e em vídeo de personalidades que conviveram com Agostinho Neto em vários países? Esses depoimentos serão um dia vertidos em texto escrito?

Ainda não terminamos o nosso trabalho, pois cada vez surgem mais projectos e se descobrem novas pessoas e novas informações. A sua realização depende dos meios e o tempo é crucial, já que muitas das personalidades começam a ter idades críticas que interferem na memória e que dificultam a recolha de dados credíveis. É preciso andar depressa, pois muitas pessoas já morreram ou ficaram incapacitadas.

A vida dos combatentes foi dura e a factura paga com a saúde e o encurtamento da própria existência. Todo o material da FAAN é publicado em DVD, CD ou em livros e está disponível para consulta livre de todos os interessados. A FAAN pauta-se pela publicação de investigações, documentos e testemunhos, sempre que tenha os meios financeiros para tal.

Para quando a criação de uma biblioteca ou centro de documentação especializado na obra de/e sobre Agostinho Neto?

A FAAN existe exactamente com esta finalidade e trabalha para organizar a memória do Dr. Agostinho Neto em vários suportes e formatos. A ideia de um centro de documentação é curta e insuficiente. A memória terá de ser digitalizada e acessível.

Esta tarefa exige pessoas capazes e meios para financiar acções de processamento dos arquivos existentes, para investigar novas fontes e desenvolver novas parcerias. A nova geração é digital e audiovisual, logo, a FAAN tem de investir nesse domínio, sem, contudo, deixar de incentivar os hábitos de leitura. Sem ledores, dificilmente teremos homens cultos e conhecedores da vida e obra de Dr. Agostinho Neto. Nem tudo poderá ser vertido em áudio ou ser visualizado. A leitura é indispensável e insubstituível.

Todo o espólio poético-literário de Neto está publicado? É possível que no âmbito do Centenário surja alguma novidade nesse aspecto?

Existem ainda textos literários e documentos de António Agostinho Neto por tratar. Até ao Centenário seria bom haver novidades, mas isso dependerá da família e dos herdeiros de Agostinho Neto.

A FAAN, cuja sede está no edifício da seguradora AAA, está a funcionar em instalações emprestadas? Não dispõe de instalações próprias?

Sim, desde a nossa criação, sempre estivemos em instalações que nos foram cedidas. Felizmente, nunca nos faltou um local, com dignidade, para trabalhar. No entanto, sempre pugnamos por ter instalações próprias. A FAAN precisa de uma sede adequada e em conformidade com a relevância e o valor da figura do Dr. Agostinho Neto, que foi o líder da libertação de Angola e primeiro Chefe de Estado angolano.

É hora de resolver essa pendência. Nos outros países, os antigos Chefes de Estado têm fundações e/ou bibliotecas para proteger o seu legado e disponibilizá-lo ao público e investigadores. Têm apoios do Estado para ajudá-los a preservar a sua história que é também a do país a que pertencem.

A família do Presidente Agostinho Neto criou a Fundação que tem feito um trabalho incansável e notável. Com imensa garra, sentido histórico e responsabilidade política. A primeira batalha foi vencida. O objectivo de apagar Agostinho Neto falhou.

O legado político de Agostinho Neto e da sua geração tende a ser julgado em função das condições políticas e económicas actuais e, de uma forma geral, do nível de satisfação das novas gerações. A FAAN está preocupada com a percepção de AN nas novas gerações?

A FAAN preocupa-se em divulgar a verdade dos factos e tem a responsabilidade de promover a destrinça entre o período em que Agostinho Neto governou, de 1975 a 1979, as tarefas que desenvolveu, o rumo que traçou e tudo o que se passou após a sua morte. As novas gerações podem ser muito permeáveis a sensacionalismos, pelo que é necessário um trabalho permanente de esclarecimento, educação, informação séria, pautada por princípios de elevação e nobreza de propósitos.

Agostinho Neto apenas teve um curtíssimo mandato de governação, de menos de 4 anos. Quando Angola se tornou independente, em 11 de Novembro de 1975, o Norte e o Sul estavam em guerra. A expulsão dos invasores zairenses e sul-africanos ocorreu em 1976.

Em 1977, Agostinho Neto teve de enfrentar uma tentativa de golpe de Estado. A partir de 1978, Agostinho Neto iniciou uma política de pacificação do país, começando no Norte e depois no Sul. Agostinho Neto fez tudo para terminar a guerra, negociando com o Zaire, a África do Sul e os EUA. Quando morreu, em Setembro de 1979, estavam em curso os contactos com os sul-africanos e norte-americanos. Agostinho Neto reduziu o contingente cubano em Angola, porque estava convencido de que a guerra iria terminar.

As novas gerações precisam de informação, de fontes credíveis. Elas habituaram-se a navegar pelas “fake news” e têm de exercer o seu sentido crítico e investigativo. Nem tudo o que é negativo significa que seja verdadeiro.

Hoje, há quase uma maratona de impropérios que se atiram para as redes sociais, jornais digladiam-se de uma forma quase infantil, a ver quem inventa mais ofensas; é uma leitura cansativa e pouco edificante.

Penso ser uma fase que irá esfumar-se com o tempo, quando as pessoas respeitarem mais a sua liberdade e a dos outros e assumirem a sua responsabilidade individual na criação do mundo que pretendemos. Os líderes sempre chamam a atenção para este assumir de responsabilidades, sejam elas pessoais ou colectivas.

Agostinho Neto escreveu “eu já não espero, sou aquele por quem se espera”. Claramente, disse que é ele “a esperança somos nós os teus filhos” (cito um verso do poema “Adeus à hora da largada”), somos todos nós quem devemos fazer o necessário, não esperar, eterna e confortavelmente ou com medo e preguiça, por um salvador para vir fazer o trabalho difícil. John Kennedy lançou a célebre frase “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta-te o que tu podes fazer pelo teu país”. A tal audácia da coragem que Barack Obama também referiu.

“O Dr. Agostinho Neto nunca se considerou divino”

Qual é o mais desejável destino definitivo para os restos mortais de AN, para a FAAN e a família: o actual mausoléu no Memorial, um panteão nacional ou outro?

Como em todo o mundo, a preservação da memória e o reconhecimento de personalidades tem-se feito através de monumentos, mausoléus, memoriais. Relembramos as pirâmides dos faraós, no Egipto, a Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, que acolhe a tumba de Jesus Cristo; o Palácio Nacional dos Inválidos, em Paris, onde se encontra o imperador Napoleão Bonaparte; o memorial a Mustafa Kemal Atatürk, em Ankara, na Turquia; em Hanói, o mausoléu de Ho Chi Min e tantos outros.

Veja-se o cuidado em esconder o local da sepultura do grande guerreiro mongol Gengis Khan e de outros mais recentes, para que não permaneça a sua influência política e o seu exemplo após a sua morte.

Agostinho Neto faleceu em 1979. O Memorial foi inaugurado em 2012. Foram 33 anos suspensos, peregrinando da Cidade Alta, em 1991, para o estaleiro do Mausoléu. Tendo conseguido terminar e inaugurar o Memorial, após árduos anos de batalhas constantes, acredito que a família e a FAAN estejam satisfeitas com este destino final.

É um lugar revestido de solenidade pela presença do Fundador da Nação. Se Agostinho Neto saísse do Memorial, esvaziar-se-ia o seu significado profundo e o foco da memória. Colocamos no Memorial outras representações simbólicas, como a estátua no jardim içando a bandeira, que reproduzirão para todo o sempre aquele instante primordial da génese da primeira República. É um valor a acarinhar, a preservar e a legar às outras gerações que não viveram aqueles magníficos e aterradores instantes da conquista da independência nacional.

Depois de uma primeira fase em que era visto quase como um ser divino, AN tende cada vez mais a ser encarado na dimensão humana, certamente como enorme figura da história de Angola, de África e do Mundo, mas que também tinha as suas contradições e fragilidades. A FAAN e a família sentem-se confortáveis com essa nova visão sobre AN?

O Dr. Agostinho Neto nunca se considerou divino. As outras pessoas é que tendem a mitificar os líderes. Era um ser humano, um homem. Mas era um homem culto. Um intelectual. Um líder. Um estratega. Entre os seus talentos, avulta a sua capacidade de mobilização, de organização e de diplomacia.

Tanto foi assim que se viu o que aconteceu após a sua morte. Os que tanto se bateram contra ele não o conseguiram substituir e deixaram o país resvalar para o caos e para a deriva. Foram precisos mais de 23 anos, de 1979 a 2002, para pacificar o país. Várias gerações foram sacrificadas.

Ainda hoje se está a pagar a factura desses anos. Não nos sentimos confortáveis com mentiras, insultos, obras asquerosas encomendadas, a falta de pudor e de ética de pessoas que disseminam veneno, falsidades, sem contribuir em nada para a edificação do país. A FAAN luta pela verdade histórica, porque a vida e a obra de Agostinho Neto é exemplar em rectidão, honestidade, probidade e seriedade. Os angolanos sentem orgulho de terem tido um Presidente sério, que não desgraçou nem arruinou o país, e sentem uma profunda saudade por ter apenas governado por pouco tempo.

Conversámos com jovens intelectuais nascidos depois da morte de AN, que, na generalidade, mostraram conhecer e admirar AN e a sua obra. Quer comentar?

Ficamos felizes por constatar que, apesar da enorme tentativa de apagar Agostinho Neto da história de Angola, as novas gerações, ainda que com parcos recursos culturais e educativos, conseguem ter um juízo crítico bastante e distinguir entre a verdade e a mentira fabricada, misturada com desinformação (geralmente muito ruidosa, em parangonas vermelhas e com uma adjectivação a raiar o criminal).

Estamos cientes de que o nosso trabalho sistemático, permanente, persistente, de proximidade com as populações e os estudantes, tem surtido o efeito desejado de colmatar a falta de informação e de educação patriótica, imprescindível para que o amor à pátria não se venda por qualquer niquice.

Angola só ganha com o reencontro com Agostinho Neto, que amava a vida e a verdade e que lutou pela liberdade e pelo bem-estar de todos os angolanos, sem distinção de raça, língua ou religião. Precisamos de cultivar e preservar as nossas referências históricas, sentir orgulho de quem somos e do nosso país.

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