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De libertador a tirano: a longa tragédia do Zimbabué

DN|Paulo Pena

Morreu Robert Mugabe. Tinha 95 anos. Foi o professor que liderou a transição democrática no Zimbabué, e se tornou num ditador – que almejava o poder ilimitado

Restavam poucas horas à velha colónia britânica da Rodésia. O jovem príncipe Carlos, com 32 anos, preparava-se para um gesto protocolar pesado: recolher a bandeira da Union Jack em Harare, a última que restava hasteada em África, o gesto que ditaria o fim de uma era inteira e o início de um Zimbabué mítico.

A ocasião era tão importante que levou uma das maiores estrelas musicais do mundo a atravessar o Atlântico, de Kingston, na Jamaica, até uma nova terra em África que já aparecia no refrão de uma das suas canções.

Bob Marley aterrou em Harare num Boeing 707 fretado em Londres, cheio de feeling e com um equipamento sonoro que se duvidava que pudesse ser ligado a uma tomada elétrica suficientemente forte. Marley era Marley e passou a véspera da independência que celebrava em Mutoko, a 143 quilómetros de Harare, numa plantação de marijuana.

No dia seguinte, 18 de abril de 1980, um homem abstémio, licenciado várias vezes, com 56 anos tornar-se-ia no primeiro líder negro do novo país. Chamava-se Robert Gabriel Mugabe. Era filho de um carpinteiro e de uma professora primária. E tinha uma história que o colocava a par dos heróis da libertação africana, como Mandela.

O novo primeiro-ministro nasceu a 21 de fevereiro de 1924, no que era então a antiga colónia britânica da Rodésia – uma terra sem mar, entre os rios Limpopo e Zambeze, governada por um regime ditatorial da minoria branca.

Ganhou uma bolsa de estudo para a Universidade de Fort Hare, na África do Sul, onde concluiu a primeira das suas sete licenciaturas. Viveu os seus primeiros anos de professor no Gana, onde conheceu as teorias pan-africanas de Kwame Nkrumah, o líder do movimento independentista local.

Mugabe só regressou à Rodésia quando tinha 36 anos, já casado com a primeira mulher, a ganesa Sally. Pouco depois de chegar funda a União Nacional Africana do Zimbabué, o partido ZANU, que liderou durante mais de 40 anos.

Em 1964, num comício, chamou “cowboys” aos membros do governo liderado por Ian Smith. Foi preso, sem qualquer processo judicial, durante 10 anos. O regime de Smith impediu-o de assistir ao funeral do seu primeiro filho, que morreu quando estava detido. É também no seu último ano de prisão, em 1973, que é eleito presidente da ZANU.

Quando sai da cadeia, aproveitando a independência no pós-25 de Abril de 1974, refugia-se em Moçambique, onde organiza, com o outro partido independentista, a ZAPU de Joshua Nkomo, uma guerrilha contra a ditadura de Ian Smith.

Em 1979, depois de muitas negociações, sanções internacionais, e vitórias do movimento negro, há um acordo para realizar eleições e terminar com o apartheid na Rodésia. É assim que nasce o Zimbabué. E uma música de Bob Marley com esse título.

Há dois versos na letra da canção que deviam ter sido ouvidos, naquele concerto tão irreal em Harare: “To divide and rule could only tear us apart/ In everyman chest, there beats a heart.” (Dividir e reinar só nos pode separar/no peito de cada um, bate um coração).

A batida da música não permaneceu muito tempo na vida pública do Zimbabué. Ainda que, em 1994, já com 14 anos de poder, Mugabe tenha sido tornado cavaleiro pela rainha Isabel II.

Será esse o segundo capítulo da história. Robert Mugabe, um preso político, como Mandela e tantos outros líderes dos movimentos de libertação africanos, ajuda a conquistar a independência do seu país. É um intelectual, que nos anos que passou na prisão concluiu quatro licenciaturas, a mais relevante em Direito, por correspondência em universidades sul-africanas e britânicas.

Nos primeiros tempos, a sua chegada ao poder é temida. Mugabe assume-se como marxista. No país há 4500 grandes propriedades agrícolas que produzem cerca de metade das colheitas. São todas detidas por brancos, e exportam milho e carne para todos os países vizinhos.

Com a população branca da antiga Rodésia em alerta, e preparada para fugir do país, Mugabe anuncia uma estratégia de “reconciliação nacional”. Anuncia que não vai nacionalizar as propriedades agrícolas, nem levar a cabo qualquer retaliação.

Mas essa “paz racial” não significa uma trégua com os adversários da luta independentista. A ZAPU de Joshua Nkomo, passa a ser vista como o inimigo interno.

Para lidar com a “contra-insurgência” do partido de Nkomo, Mugabe criou uma divisão especial do exército que foi treinada na Coreia do Norte e lançada numa perseguição política.

Terão morrido mais de 20 mil pessoas. Isso foi o suficiente para que Nkomo aceitasse “conversações de paz” com Mugabe. Depois de conseguir absorver o partido rival, a ZANU de Mugabe (que passa a ter mais duas letras no acrónimo, PF) torna-se na força dominante no país. Mugabe é eleito “presidente executivo” da república em 1987 e 1996. Ou seja: é ao mesmo tempo presidente, primeiro-ministro e chefe das forças militares. Quando morreu, em 1999, Kkomo foi descrito por Mugabe como um “herói nacional”.

É já em meados dos anos 90, depois da morte da sua primeira mulher, Sally, em 1992, que casa com Grace Marufu, 40 anos mais nova, com quem já tinha dois filhos. O último dos filhos de Mugabe nasceu em 1997, quando o presidente tinha 73 anos.

O tirano vitalício

O ponto de viragem acontece então. O respeitado Mugabe, um grande negociador, que conseguiu manter a paz no barril de pólvora da transição do país, passa a ser visto como um déspota.

Não só porque permanece no poder, que concentra à sua volta – enquanto instiga batalhas entre o seu séquito de seguidores – durante muitos anos.

Em 2000, pressionado pelos maus resultados económicos e pela pobreza da maioria dos 16 milhões de cidadãos, Mugabe convoca um referendo para receber o poder de confiscar terras e distribui-las. Isso não só o torna num alvo de sanções internacionais como aumenta a força de um novo partido, criado em 1999, o MDC.

É de novo na forma como lidou com a ameaça de um partido rival, o MDC, de Morgan Tsvangirai, que Mugabe radicalizará o problema político e a situação se tornará insustentável.

O MDC passa a ser considerado, por Mugabe, o partido-sombra dos agricultores brancos, e a ocupação de terras torna-se violenta. A produção agrícola cai. E a população passa a sentir os efeitos da carência de alimentos.

Nas eleições de 2000 o MDC ganha o voto popular, mas a ZANU mantém-se no poder graças a um sistema de inerências que lhe garante a maioria no parlamento. Mugabe ganha, por pouco, as presidencias a Morgan Tsvangirai, com acusações de fraude eleitoral. A União Europeia e os Estados Unidos não reconheceram os resultados.

E Mugabe continuou a dividir o Zimbabué. Em 2005 lançou uma operação policial contra os vendedores ambulantes. Demoliu bairros inteiros, deixando cerca de 700 mil pessoas sem casa.

Em guerra aberta com os EUA e a União Europeia (sobretudo o Reino Unido), Mugabe vira-se para a China na sua nova estratégia “olhar para Leste”.

Em 2008, Tsvangirai venceu a primeira volta das presidenciais, batendo Mugabe. Mas não aceitou participar na segunda volta, denunciando a fraude eleitoral.

A rainha Isabel II retirou-lhe o título honorífico. E, talvez mais significativo, Nelson Mandela condenou-o com uma frase certeira: “o falhanço trágico da liderança no vizinho Zimbabué.”

Mugabe permaneceu no poder. Mas foi obrigado, em 2009, a estabelecer um acordo com a oposição – quando país se debatia com uma crise de cólera e uma inflação gigantesca, que chegou a atingir os 30 000.000%.

Em 2013, com 89 anos, Mugabe venceu a sua última eleição presidencial. 80% da população estava no desemprego. Mais de dois milhões dependiam da ajuda alimentar externa para sobreviver. 20% estavam infetados com HIV. A esperança de vida era de 44 anos para os homens e de 43 anos para as mulheres.

A sua promessa de se manter no poder vitaliciamente originou um golpe interno dentro do seu partido.

Em 15 de novembro de 2017, o exército colocou-o em prisão domiciliária. Mugabe demorou seis dias a aceitar a situação e a renunciar ao cargo, a favor do seu número dois, Emmerson Mnangagwa. Foi a sua última grande negociação: conseguiu manter-se com estatuto oficial, imune a qualquer processo judicial ou político, e salvaguardar os seus bens e regalias.

Mas o fim estava muito próximo, para este professor, que liderou a transição democrática no Zimbabué e se tornou num ditador – que almejava o poder ilimitado.

Robert Mugabe morreu aos 95 anos, a 6 de setembro de 2019, depois de ter estado internado, desde abril, num hospital, em Singapura.

Há quase 40 anos, quando Bob Marley se preparava para entrar em cena, a confusão à volta do palco improvisado em Harare levou a polícia a lançar gás lacrimogéneo, que atordoou alguns dos membros da banda. Marley terá dito qualquer coisa sobre quem seriam os “verdadeiros revolucionários”. Mas para a história fica um facto: o músico pagou tudo do seu bolso, viagem e aluguer do equipamento. Não ficou em dívida com nenhuma tragédia.

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