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Desmatamento da Amazónia afecta ciclo das águas e toda biosfera

Vista aérea do campo informal de mineração de ouro Esperanca IV, próximo ao território indígena Menkragnoti, em Altamira, Pará, na bacia Amazónica (AFP / João LAET)

O desmatamento da floresta amazónica afecta tanto a mata, quanto o rio Amazonas, com efeitos em “toda biosfera”: este é o alerta de um colóquio internacional sobre o monitoramento do rio, que acontece esta semana em Toulouse, no sudoeste da França.

“Em relação aos incêndios que castigam a Amazónia há semanas, as consequências ainda não são mensuráveis, mas, no longo prazo, o que se vê é uma desestabilização progressiva do ciclo das águas”, diz à AFP Jean-Michel Martinez, director do Serviço Nacional de Observação Hybam, uma estrutura de cooperação internacional de monitoramento científico da Amazónia.

“O principal papel da Amazónia no nível global é a manutenção do ciclo das águas”, afirma ele, explicando que suas águas, alimentadas pela evaporação,representam 20% de todo volume vertido nos oceanos.

“Se cortamos a floresta progressivamente, retiramos o motor de evaporação” que alimenta o rio, e “vamos desestabilizar o ecossistema completamente”, aponta o pesquisador, destacando uma “forte aceleração” do desmatamento nos últimos meses, após anos de estabilização do fenómeno.

A modificação do ciclo da água – completa ele – “cria um risco de perda da floresta tropical” e intensifica os “eventos extremos”, como inundações e seca, afectando o rio.

Dos seis principais registos de inundações na Amazónia nos últimos 115 anos, quatro aconteceram nesta última década, relatou Martinez.

As medidas recolhidas há 15 anos pelo Hybam (acrónimo em francês para Hidrologia da Bacia Amazónica) também mostram uma contaminação do rio, sobretudo por cloro, “que não existia antes, na sequência da extracção de petróleo e de gás em sua bacia, assim como do garimpo de ouro”.

Segundo especialistas do Hybam, essa contaminação e a mudança de qualidade das águas amazónicas induzidas pelo desmatamento “podem ser responsáveis, em parte, pelo aquecimento do Oceano Atlântico e influenciar o nascimento de ciclones tropicais”, adverte Martinez.

Cerca de 150 pesquisadores do Hybam estão reunidos esta semana em Toulouse.

“Mas não precisa se focalizar unicamente no Brasil”, porque todos os países da bacia estão sendo afectados pelo aumento do desmatamento, acrescenta Martinez.

Uma cúpula emergencial para discutir a questão da Amazónia deve reunir, nesta sexta-feira (6), seis países sul-americanos na Colômbia. O objectivo do encontro é lançar um apelo à comunidade internacional pela conservação e protecção desse ecossistema.

O encerramento do colóquio do Hybam está previsto para amanhã. É a primeira vez, desde a criação do organismo, que o evento acontece na França.

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