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Stéphanie e o absurdo do futebol, essa coisa de homem, e da boneca, aquela coisa de mulher

Pela primeira vez na história, uma mulher vai dirigir um jogo de futebol masculino (organizado pela UEFA) e que entrega um título. Trata-se da francesa Stéphanie Frappart, de apenas 38 anos mas com valioso currículo (© NurPhoto)

Duarte Gomes escreve sobre a árbitra que vai apitar a final da Supertaça Europeia desta noite, disputada entre o Chelsea e o Liverpool

Já muito se tem dito sobre o feito que está em vias de acontecer hoje, no futebol mundial.

Pela primeira vez na história, escreve o Tribuna Expresso, citado pelo MSN, uma mulher vai dirigir um jogo de futebol masculino (organizado pela UEFA) e que entrega um título. O primeiro título oficial da época.

A francesa Stéphanie Frappart, de apenas 38 anos mas já dona de valioso currículo, será a árbitra do “Liverpool/Chelsea”, encontro que define quem levará para casa a Supertaça Europeia.

As qualidades técnicas, competência e experiência da juíza francesa, nascida em Herblay-sur-Seine, são inatacáveis: ela dirigiu, recentemente, a Final do Campeonato do Mundo de Futebol Feminino (entre EUA e Holanda), pertence ao quadro principal de árbitros da primeira categoria francesa (também aí é pioneira) e, já antes, tornara-se na primeira mulher a arbitrar encontros da League 2 (em 2014).

Se há coisa que salta à vista, no meio de tão extenso percurso, é a sua valia técnica. Impossível alguém atingir tudo isso sem que muito gente à sua volta não lhe reconhecesse capacidade para isso.

A questão de termos ou não árbitras/mulheres a dirigir jogos ao mais alto nível não é nova. Não é de hoje.

Há muito que se questiona porque motivo não existem (em Portugal e não só) mais senhoras nos quadros principais de árbitros do futebol masculino.

Uma das razões é regulamentar mas essa contorna-se bem: porque (ainda) não podem.

Pois bem. Mude-se. Corrija-se. Adapte-se. Passam a poder.

Mas, antes disso, há algo que deve começar a pensar-se: a possibilidade real de darmos às nossas árbitras – que têm vontade, ambição e qualidade – meios para evoluírem.

Para que atinjam o patamar máximo, o nível de exigência que hoje lhes é solicitado tem que ser ainda maior.

Elas precisam treinar mais vezes e horas por semana (física e tecnicamente), dirigir mais jogos masculinos, frequentar os mesmos cursos que os seus colegas árbitros, enfim… precisam de aperfeiçoar ainda mais a forma como se preparam.

Na arbitragem como em quase tudo na vida, a qualidade técnica só evolui com experiência. Com mais treino, mais minutos nas pernas, mais situações analisadas, mais e mais decisões tomadas. Repetidamente. Exaustivamente.

Isso requer empenho, disponibilidade e atitude de vencedor.

As árbitras precisam de mais exigência para responderem com (ainda) mais qualidade.

O futebol feminino – que tanto tem evoluído em Portugal, tendo já atletas de eleição e jogos de qualidade – não está, física e tecnicamente, ao nível daquele que é disputado, há muito mais tempo e com outro tipo de meios, apoios e profissionalismo, pelos homens.

É normal. Isso não acontece apenas cá ou na França de Stéphanie. É uma verdade universal, que acontece em todo o lado.

E acontece porque o modelo instituído está desenhado para o homem. Foi moldado em função do género. Historicamente. Erradamente.

Por força dessa premissa, dessa ideia hoje cada vez mais absurda que “futebol é coisa de homem, boneca é coisa de mulher”, as coisas só agora estão, verdadeiramente, a começar.

Eis-nos em 2019, a celebrar euforicamente o facto de uma “final europeia masculina” ser dirigida… por uma mulher, como se isso fosse a notícia mais fabulosa do ano.

Celebramos a normalidade como se ela fosse um feito histórico, porque não soubemos acompanhar os tempos. Os tempos que nos dizem, há que tempos, que essa coisa da diferença do género há muito que deixou de fazer sentido.

Bem, mas o rumo está traçado e a solução é avançar.

Avançar sabendo que no futebol masculino há um maior número de passes, remates e defesas, há mais infracções, conflitos e protestos, há mais velocidade, mais público, maior interesse comercial, mais dinheiro envolvido e maior acompanhamento mediático.

As “senhoras” têm que ser preparadas para esse salto (sobretudo a nível emocional), para que no momento certo possam responder às enormes e desgastadoras exigências que o futebol profissional masculino lhes apresentará.

A Stéphanie provou que, estando no sítio certo e com as apostas certas, isso é possível.

As nossas árbitras também têm atitude e competência para atingirem o topo. Que venha daí a estrada para que percorram esse caminho.

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