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Morreu o cardeal Ortega, mediador do degelo entre Cuba e EUA

O cardeal Jaime Ortega chega à catedral de Havana, em 7 de maio de 2016 (AFP/Arquivos / Yamil LAGE)

Peça-chave na histórica reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, o cardeal cubano Jaime Ortega morreu nesta sexta-feira (26), aos 82 anos – informou a Arquidiocese de Havana.

Segundo fontes da Igreja, a saúde de Ortega, que sofria de um câncer terminal, piorou em 22 de Junho.

“O cardeal Jaime faleceu e, ao começar a sentir sua ausência física, revivem, junto com o afecto agradecido, as lembranças de sua qualidade pessoal e seu incansável zelo pastoral”, afirmou o arcebispo Juan de la Caridad García Rodríguez.

Nascido em 18 de Outubro de 1936, em Matanzas, Jaime Lucas Ortega Alamino foi considerado um homem promotor de consensos, que liderou a Igreja católica em Cuba por 35 anos.

Ingressou em 1956 no seminário diocesano San Alberto Magno dessa província do oeste da ilha, onde estudou Filosofia e Humanidades. Em 1960, foi enviado para o Canadá para estudar Teologia.

Em 1966, sua actividade sacerdotal foi interrompida por oito meses. Nesse período, foi recrutado pelas Unidades Militares de Apoio à Produção (UMAP), que funcionavam como campos de “internato” para religiosos, homossexuais e outros malvistos, em substituição ao serviço militar obrigatório.

Ao completar 75 anos em 2011, apresentou sua renúncia como arcebispo de Havana, conforme as regras estabelecidas pelo Vaticano. Seu amigo, o papa Francisco, recusou sua renúncia até um ano depois de visitar a ilha em 2015.

Ortega actuou como facilitador das longas conversas secretas com os Estados Unidos. Essas negociações levaram ao histórico degelo entre ambos os países em 2014, após mais de meio século de inimizade e de confronto político.

A esta reaproximação, acompanhada por uma troca de presos políticos entre esses dois inimigos da Guerra Fria, seguiu-se a visita à ilha do então presidente americano, o democrata Barack Obama, em 2016.

À missão que lhe foi entregue pelo papa argentino, Ortega dedicou o livro “Encontro, diálogo e acordo” (em tradução livre), publicado em 2017, mesmo ano em que Donald Trump venceu as eleições e as relações entre Cuba e Estados Unidos entraram em retrocesso.

Sobre o cardeal Ortega, o arcebispo García se lembrou “de seu amável sorriso, sua inteligência clarividente e o testemunho de um sacerdócio de entrega e muitas vezes sofrido”.

– Inédito diálogo –

“A Igreja, diante de toda realidade, não pode ser espectadora passiva”, disse este homem de sorriso permanente, tom suave e paciência infinita, que também teve um papel crucial no restabelecimento do diálogo entre a Igreja e o Estado cubano.

Durante o período de forte liderança de Fidel Castro (1959-2006), o governo e a Igreja, única instituição legal distante ideologicamente do governo comunista, mantiveram relações tensas. O início foi marcado pela expulsão de padres e pelo confisco de propriedades.

Após a histórica visita de João Paulo II em Janeiro de 1998 e sob a tutela de Ortega, a Igreja mudou a confrontação pelo diálogo e conseguiu se consolidar como único interlocutor do governo.

“Agradeço às autoridades do meu país por todas as possibilidades de superar períodos críticos e momentos difíceis e por terem sido capazes de avançar sem retrocesso por um caminho de diálogo”, disse Ortega, durante sua última missa como arcebispo de Havana, em 2016.

Ordenado padre aos 28 anos, bispo aos 34 e empossado cardeal aos 58, Ortega instalou, em 2010, um inédito diálogo com Raúl Castro, cujo resultado mais concreto foi a soltura de cerca de 130 presos políticos.

Esse diálogo “entre cubanos”, como ele o definiu, também levou à ampliação do espaço para a prática religiosa, ao trabalho social da Igreja e a alçar a voz para apoiar as reformas económicas, assim como para criticar a gestão oficial. Oficialmente, estes gestos foram vistos como uma contribuição para “a unidade da nação”.

Reconhecido no informe de 2010 do Departamento de Estado americano sobre liberdade religiosa, seu trabalho recebeu ácidas críticas de opositores radicais e do exílio anticastrista de linha dura. Foi acusado de formar uma aliança com o governo comunista e de promover o “desterro”, já que a maioria dos ex-detidos seguiu para a Espanha.

Ao expressar suas condolências pela morte de Ortega, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, tuitou que é “inegável seu aporte ao fortalecimento das relações entre a Igreja Católica Romana e o Estado cubano”.

O jornal Granma, por sua vez, do Partido Comunista (único), destacou que seu “trabalho pastoral incansável e seu amor a Cuba o levaram a fortalecer decisivamente” estes vínculos.

Dezenas de fiéis assistiram na tarde desta sexta-feira a primeira das onze missas de corpo presente que serão celebradas em homenagem a Ortega até o domingo domingo na Catedral de Havana.

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