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Como nasceu a Lua? Megacolisão entre a Terra e Teia é a teoria favorita, mas o mistério persiste

Está lá sempre, no céu, na sua dança de luz e sombra, a marcar a passagem dos dias e a iluminar as nossas noites, sempre certas a cada novo mês, como um calendário cósmico. (© NASA/JPL-Caltech)

DN | Filomena Naves

Senhora dos eclipses, rainha das marés, inspiradora de sortilégios, de romances e de poesia, a Lua, tão familiar, ainda esconde mistérios. Um deles é o da sua origem, mas os cientistas têm algumas pistas

Está lá sempre, no céu, na sua dança de luz e sombra, a marcar a passagem dos dias e a iluminar as nossas noites, sempre certas a cada novo mês, como um calendário cósmico. Senhora dos eclipses, rainha das marés, inspiradora de sortilégios, de romances e de poesia, a Lua, tão familiar, ainda esconde mistérios. Apesar de todas as missões espaciais, de todas as sondas e astronautas, e de todos os estudos, persistem ainda enigmas, e um dos maiores está ligado à sua origem.

Há teorias, claro, e uma delas, a da colisão da Terra com um astro de dimensão mais ou menos idêntica (Teia), há cerca de 4,5 mil milhões de anos, é a que reúne hoje maior popularidade entre os cientistas, por traçar o quadro que melhor explica as suas características geológicas. Mas, nem essa consegue explicar tudo e, por isso, as missões espaciais para recolher mais dados e observações sobre o satélite natural da Terra e as simulações computacionais para tentar encaixar todas as peças continuam.

Decisivas para ancorar o conhecimento sobre a Lua em terra firme foram as missões Apollo, que entre 1969 e 1972 levaram 12 homens a pisar o chão lunar – comemora-se este sábado meio século sobre a primeira alunagem.

Nesses três anos, os astronautas da NASA trouxeram para a Terra 382 quilos de rochas lunares, de diferentes tamanhos e qualidades, incluindo rochas, pedras grandes e pequenas, e até poeira do solo, que continuam a ser estudadas em diferentes laboratórios do mundo e que ainda hoje são fonte de novidades sobre a geologia da Lua e do próprio sistema solar.

Apesar de todas as missões espaciais, de todas as sondas e astronautas, e de todos os estudos, persistem os enigmas sobre a Lua

Foram essas rochas da Lua trazidas pelos astronautas que forneceram, por exemplo, as primeiras pistas para existência de água na Lua – hoje sabe-se que há crateras junto aos polos onde existe gelo permanente, porque não recebem radiação solar direta, e foram elas também que mostraram a grande similaridade geológica entre a Terra e o seu fascinante satélite.

As coisas não hão de ficar por aqui. É de esperar que os avanços tecnológicos e a criação de ferramentas de análise cada vez mais sensíveis e sofisticadas possam ajudar a novas revelações a partir dessas rochas, até porque muitas delas ainda não foram sequer estudadas.

Neste sábado, 20 de julho, dia em que se cumprem os 50 anos da primeira alunagem, a NASA abre, aliás, pela primeira vez uma caixa com algumas das pedras trazidas pelas missões Apollo que permaneceram até hoje intocadas. Esse será um dos aguardados momentos das comemorações preparadas pela agência espacial dos Estados Unidos para assinalar o dia.

Uma colisão, ou muitas, e peças que não encaixam (ainda)
No século XX surgiram várias teorias científicas para tentar explicar a origem e a formação da Lua, mas até hoje nenhuma o conseguiu completamente – mesmo a da colisão, hoje a mais consensual, deixa algumas pontas de fora.

Uma das primeiras teses, muito popular até aos anos de 1970, propunha que a Lua seria uma espécie de corpo irmão da Terra, que se teria formado autonomamente na mesma altura. Outra igualmente em voga pela mesma época propunha que a Terra inicial, numa altura em que o sistema solar ainda estava em formação, teria capturado na sua órbita um astro de passagem pela sua vizinhança.

Face aos resultados das análises das amostras de rochas trazidas pelas missões Apollo, estas duas teses, porém, não conseguiam explicar, por exemplo, a inexistência de ferro nas rochas lunares (para a primeira teoria) ou, para a segunda, a similaridade entre a composição geológica da Lua e da Terra, que as pedras lunares revelaram.

Por essa altura, em 1975, dois astrónomos americanos William Hartmann e Donald Davis publicaram na revista científica Icarus, dedicada aos estudos sobre o sistema solar, um artigo sugerindo a possibilidade de uma megacolisão para explicar a origem da Lua.

De acordo com a ideia, há cerca de 4,5 mil milhões de anos, um outro planeta de dimensão idêntica à da Terra, entretanto batizado como Teia, numa alusão à deusa grega que era a mãe de Selene, a divindade da Lua, teria colidido com o nosso planeta, arrancando-lhe uma porção generosa que acabou por ficar presa na sua órbita.

Esta tese, hoje a mais consensual, tem o mérito de explicar a grande similaridade geológica entre a terra e a Lua. Por exemplo, a assinatura química dos isótopos (núcleos atómicos) de oxigénio é exatamente a mesma.

As rochas lunares trazidas pelos astronautas das missões Apollo deram as primeiras pistas sobre a possibilidade de haver água na Lua

Para explicar, entretanto, a inexistência de ferro nas amostras da Lua, a teoria propõe que no momento em que a colisão ocorreu, o ferro, por ser um elemento pesado, já teria migrado quase todo para o interior da Terra. Mas há outras questões às quais esta tese não dá resposta. A mais substancial é a da inexistência aparente de materiais do tal astro Teia nas rochas lunares. Os modelos sugerem que pelo menos 60% da geologia lunar deveria ser idêntica à de Teia, mas esses materiais, aparentemente, não existirão ali, pelo menos em quantidade suficiente.

Para contornar essa dificuldade, alguns cientistas sugeriram que Teia e a Terra seriam corpos planetários muito idênticos entre si, dada a sua proximidade no contexto do sistema solar em formação, há 4,5 mil milhões de anos. E isso, claro, é uma possibilidade, mas a questão não está fechada. Inclusivamente, variantes desta teoria, como a possibilidade de ter havido, não uma, mas de muitas colisões entre inúmeras luas na origem da única que hoje conhecemos na órbita da Terra, têm sido publicadas na literatura científica nos últimos anos.

Os estudos, certamente, vão continuar. Há novas missões em curso, como a da sonda chinesa Chang-4, que em janeiro aterrou no lado oculto da lua, sendo a primeira de sempre a fazê-lo, e outros países, incluindo os Estados Unidos, a Europa, a Rússia e a Índia, estão a preparar também as suas próprias “pegadas” no satélite da Terra. Haverá muito na Lua para nos surpreender no futuro.

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