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The Roots no EDP Cool Jazz. A mais bela e divertida aula de história da música negra

(Blitz)

Blitz

Ahmir Questlove e os seus rapazes partiram a loiça toda no Hipódromo Manuel Possolo em Cascais, nesta noite de terça-feira. Só para quem sabe aprender

Há um momento ainda na primeira parte do concerto dos Roots, no dia de arranque da programação 2019 do EDP Cool Jazz, em que se escuta uma versão de “Lookin’ at the Front Door”, um clássico de 1991 dos obscuros Main Source.

Para se compreender a magnitude do gesto, teríamos que pensar como seria se em 1973 pudéssemos escutar os Rolling Stones a atirarem-se, por exemplo, a “Love in Vain” de Robert Johnson: uma grande banda de rock a homenagear uma das sementes do que viria a revelar-se como a cultura rock?

Bem, na verdade isso aconteceu e Mick, Keith e restante rapaziada não só aproveitou o topo da fama à entrada dos anos 70 para rever um dos tesouros dos blues, como ainda deixou a quem os viu e ouviu em 1973 a sua visão do clássico “Little Queenie” de Chuck Berry, entre várias outras pérolas.

Ora bem, Questlove, Black Thought e restante armada de Filadélfia também têm uma missão em 2019. Os Roots, aproveitando a visibilidade conquistada a pulso, incluindo, pois claro, o foco gigante que é o gig que têm no show de Jimmy Fallon, não esquecem a cultura que os projectou, que os formou e que ainda hoje os enquadra.

E assim se justifica a já habitual vénia gigante à cultura que os viu nascer através de um intenso medley hip hop que passa por clássicos tão intemporais quanto “I left my wallet in El Segundo” dos A Tribe Called Quest, “A Milli” de Lil Wayne, “So Fresh So Clean” dos Outkast, “CREAM” dos Wu-Tang Clan, “Mass Appeal” dos Gang Starr, “Shook Ones” dos Mobb Deep, “Runnin’” dos Pharcyde ou “Shimmy Shimmy Ya” de Ol’ Dirty Bastard”.

E se a ideia de ver a elite social de Cascais, eventualmente levada até ao Hipódromo Manuel Possolo por razões extra musicais, a abanar a cabeça com clássicos de mestres renegados de Shaolin vos coloca um sorriso sarcástico no rosto, saibam que é perfeitamente justificado.

O concerto dos Roots começou com algum atraso causado por severos problemas técnicos que impediram até a realização do espectáculo dos portugueses HMB que deveriam ter assegurado a primeira parte mas que após três falsas partidas acabaram mesmo por desistir da “corrida”.

Uma representante da organização pediu desculpas ao público, mas nenhuma justificação mais concreta foi comunicada. Como é claro, há-de ter sido um motivo de força maior que forçou a anulação da apresentação do concerto da banda portuguesa e o atraso dos americanos, já que, como de resto a reportagem BLITZ conseguiu perceber, os soundchecks das bandas correram sobre rodas durante a tarde.

Os Roots acabaram por assumir o fardo e assinaram um espectáculo sem mácula, fazendo a considerável assistência esquecer o arranque em falso da noite com a verdadeira injecção de energia que trouxeram ao Hipódromo Manuel Possolo.

Black Thought é de facto um MC de elite. Não serão muitos os rappers capazes de aguentar o fardo orgânico proporcionado por uma banda com bateria, tuba, trompete, saxofone, baixo, teclas, guitarra, samplers e gira-discos, com tudo encaixado como legos multicoloridos num edifício sólido e funcional, sério e lúdico, moderno e clássico. Tudo, assim de uma só vez.

E o que se escuta parte do hip hop, mas viaja pelo lado mais progressivo do jazz, com direito a piscadelas de olho a “My Favourite Things” tocado como se John Coltrane se tivesse um dia encontrado com Jimi Hendrix, com lições de funk resgatado à melhor memória de James Brown e com laivos rock que parecem injectados nesta equação para não nos deixar esquecer que este foi um som criado também por eléctricos exploradores afro-americanos.

No alinhamento dos Roots há muito material clássico. Escuta-se uma versão vitaminada de “Change” de Donald Byrd, com o trompetista original bem duplicado pelo trompetista de serviço que, à distância a que nos encontrávamos, pareceu ser David Guy.

Ouve-se – e dança-se! – “Dance Girl” dos Rimshots, esta com direito a intenso solo de saxofone, “Rock Creek Park” dos Blackbyrds, “In the Jungle Groove” de James Brown e até laivos de “Old Town Road” de Lil’ Nas X, com os mestres a deixarem claro que um groove é um groove e que as pistas de dança, em 1970 ou em 2019 respondem a um mesmo impulso rítmico que os Roots entendem como ninguém. Músculo americano afinado até à perfeição, sem a menor sombra de dúvida.

E o concerto que passa pela enorme “You Got Me” que no original tinha Erykah Badu (que há alguns anos teve neste mesmo espaço a sua própria noite memorável) não esquece, como é compreensível, a eterna “The Seed 2.0”, a reinvenção da pérola de Cody ChesnuTT que aqui mereceu releitura acelerada, com um balanço quase latino, perfeitamente enquadrado com o espírito da noite de perfeita “overdose” rítmica.

Feitas as contas, pode dizer-se que os Roots salvaram uma noite que começou ameaçada por inexplicados problemas técnicos, agarrando o público desde o início e prendando-o com uma autêntica lição de história da grande música negra que só terminou com “Move on Up”, o tema eleva-espíritos de Curtis Mayfield, e “Apache”, versão Incredible Bongo Band, que viu o gigante da bateria Questlove e o percussionista/DJ/Hendrix-da-MPC, Stro Elliott de seu nome, a colocarem o que parecia ser o ponto de exclamação final num autêntico manifesto de elevação rítmica, quando a noite já ia muito mais longa do que se poderia pensar.

Só que não, que esta é uma banda-duracel que parece viver de uma inesgotável energia que dá sempre para mais uma bomba funky. E essa é a magia dos mestres: fazerem o tempo voar quando nos estamos a divertir! E de onde vem essa energia? Black Thought faz a revelação final quando pede ao público que o acompanhe no cântico “soul power, more power to the people”. Está tudo explicado!

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