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Football Leaks. Cristiano Ronaldo ouvido na Judiciária

(AFP / Fabrice COFFRINI)

DN

Cristiano Ronaldo foi ouvido na PJ, como testemunha, no âmbito do processo que investiga o hacker Rui Pinto, em prisão preventiva desde março. Nesta sexta-feira, o tribunal negou ao Ministério Público um pedido para alargar por mais seis meses o prazo da investigação complexa.

“O Ronaldo é o meu jogador preferido, penso que é o jogador mais completo da história do futebol. Contudo, o seu comportamento fora do campo tem de ser julgado de modo diferente”, declarou Rui Pinto – hacker, para as autoridades judiciais, whistleblower (denunciante) para outros, como a ex-eurodeputada Ana Gomes – numa entrevista, em fevereiro deste ano.

Com este desabafo, Rui Pinto acabaria por denunciar as suas intenções quando, de acordo com o que a investigação judicial já apurou, invadiu as caixas de e-mail da estrela mundial de futebol e dos seus advogados, e terá estado na origem das notícias sobre o caso da alegada violação nos EUA e da milionária fuga ao fisco em Espanha.

Como vítima e como testemunha, Cristiano Ronaldo esteve na sede da Polícia Judiciária (PJ) no início de junho a ser ouvido no âmbito da investigação a Rui Pinto, detido desde março sob suspeita de crimes de tentativa de extorsão, acesso ilegítimo, violação de segredo, ofensa à pessoa coletiva – estes relacionados apenas com o Fundo de Investimentos Doyen Sports.

A Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T) da PJ, que tem esta investigação em mãos, aproveitou a presença do melhor jogador do mundo em Portugal, por ocasião do torneio da Liga das Nações, e Ronaldo desceu do Porto a Lisboa, sendo recebido com absoluta discrição.

Um dos documentos a que Rui Pinto terá acedido e, depois, revelado através da plataforma Football Leaks foi o acordo celebrado entre Cristiano Ronaldo e Kathryn Mayorga, em que a norte-americana (que acusa o jogador português de violação) estava obrigada a manter-se em silêncio sobre os alegados acontecimentos em Las Vegas, a troco de quase 325 mil euros.

“O hacker tentou vender a informação, e um meio de comunicação acabou irresponsavelmente por publicar alguns dos documentos roubados, partes significativas dos quais foram alteradas e/ou completamente fabricadas”, lamentou um dos advogados de Ronaldo.

Outros documentos relacionados com a atividade do atual jogador da Juventus foram também divulgados pela revista alemã Der Spiegel, que integra o consórcio de jornalismo EIC (European Investigative Collaborations), o qual investiga as denúncias da Football Leak.

É o caso da famosa fuga ao fisco espanhol, que obrigou Ronaldo a ter de pagar 18,8 milhões de euros, além de ficar sujeito a uma pena suspensa de dois anos de prisão, antes de trocar o Real de Madrid pelo clube italiano.

Tribunal recusa especial complexidade
De acordo com o que a UNC3T já conseguiu apurar da análise ao material (discos rígidos, discos externos e pen drives) apreendido a Rui Pinto, além da Doyen, o hacker entrou em dezenas de outros correios eletrónicos, alguns dos quais ao mais alto nível do sistema de segurança e da Justiça. Magistrados do Ministério Público, elementos da Administração Interna, PSP, escritórios de advogados, FIFA, FC Porto e Confederação Sul-Americana de Futebol são alguns exemplos, além dos já conhecidos Benfica e Sporting.

Além de Cristiano Ronaldo, soube o DN junto de fonte judicial, a PJ tem estado a ouvir ou vai ouvir diversos outros “ofendidos”, entre os quais responsáveis do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP), de escritórios de advogados estrangeiros e nacionais, como a sociedade PLMJ (defendeu o Benfica no caso e-Toupeira), da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna ou da divisão de investigação criminal da PSP – todos atacados pelo hacker.

Pacientemente, os peritos informáticos têm conseguido quebrar os códigos e desencriptar os ficheiros que Rui Pinto organizava com toda a informação que copiava dos computadores das suas vítimas. “Estão em causa centenas, senão milhares, de crimes de acesso ilegítimo”, sublinha uma fonte que está a acompanhar o processo.

A dimensão de todo o material já decifrado é de tal forma, que o processo está a crescer de dia para dia, tendo mesmo levado a procuradora do MP, titular do inquérito, Patrícia Barão, a requerer ao tribunal de instrução um alargamento do prazo de investigação por mais seis meses (até março de 2020), através da declaração da especial complexidade do processo.

No entanto, soube o DN, nesta sexta-feira a decisão do juiz foi negar esta pretensão do MP, obrigando assim os investigadores a acelerar a recolha de provas para sustentar uma acusação que pode assim ir muito mais além do que os factos relacionados com a Doyen.

O MP sustentava que “o sucesso da presente investigação depende do alargamento do respetivo prazo de inquérito, pois só assim é possível o cabal esclarecimento dos factos, com o apuramento da total dimensão da atuação do arguido Rui Pinto, a qual, demonstradamente, não se cingiu ao Sporting e à Doyen, nem tão-pouco a entidades desportivas”. A procuradora argumentava ainda que foi possível determinar que “o arguido se encontrava habilitado a usar software e ferramentas ofensivas destinadas a explorar acessos remotos ao sistema das vítimas que entendia poderem conter elementos que considerasse de interesse”, designadamente “com o possível intuito de os utilizar para venda a órgãos de comunicação social ou concretização de outras atividades de extorsão”, como foi a tentativa com a Doyen.

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