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RDC: O impacto silencioso da exploração de cobalto

DW África

Veículos movidos à energia eléctrica são anunciados como sustentáveis. Mas a principal matéria-prima para produção das baterias de electricidade vem de áreas negativamente impactadas pela exploração do metal.

Christophe Kabwita atravessa o solo argiloso da sua propriedade. O congolês de 59 anos vive com a sua mulher e os seus oito filhos. Ninguém é rico em Ruashi, um distrito à beira da metrópole Lubumbashi, no sul da República Democrática do Congo. Aqui, fica uma mina de cobalto a céu aberto. A matéria-prima é usada em baterias comuns de carros eléctricos, smartphones e laptops.

Kabwita trabalha num centro comunitário e se considera um activista. Em seu tempo livre, documenta as queixas da população sobre a mina. “As empresas de mineração e as montadoras cometem sérias violações de direitos humanos com as quais não se importam. Eu gostaria de enfrentá-las e mostrar o que essas empresas estão a fazer”, diz.

A reputação sustentável do transporte movido à electricidade foi abalada com a publicação de relatórios sobre o trabalho infantil na mineração de cobalto na RDC. As montadoras alegam que nada têm a ver com isso, pois obrigam os fornecedores a comprar cobalto apenas de minas industriais movidas a máquinas.

De facto, não existe trabalho infantil em grandes minas, como Ruashi, mas ainda assim a população é afectada. Práticas imprudentes de detonação de rochas chegam a ter consequências mortais aos moradores. “Aqui ao redor da minha casa, há um total de 12 rachaduras devido às detonações. É muito visível, estamos a pelo menos 400 metros da mina. Basta observar cada propriedade”, sublinha Christophe Kabwita.

Mortes

Stéphanie Kayambi perdeu a filha de 11 anos em 2017, quando a rapariga voltava da escola para casa. Como de costume, uma sirene soou antes da detonação, mas a mãe suspeita que, quando o barulho parou, a menina provavelmente continuou no caminho de casa.

“No momento em que ela estava prestes a chegar em casa, a sirene recomeçou silenciosamente, mas a minha filha não teve tempo de ir para um local seguro. Quando a sirene tocou pela segunda vez, ela foi atingida por uma rocha”, conta. A empresa que administra a mina não se responsabilizou pelo incidente e pagou uma pequena quantia de indemnização para a família.

Outro problema é a exploração ilegal de cobalto por cidadãos que depois vendem o metal no mercado negro. Eles escavam poços profundos que podem provocar colapsos na mina. Remi Tshanda, de 19 anos, é um deles. “Nós não roubamos. Nós só tomamos o que é nosso por direito. Então, os seguranças atiram contra nós”, afirma.

O rio Lwano, que abastece Ruashi, está poluído devido à mineração. Os peixes morrem e a colheita nos campos é miserável. Para Christophe Kabwita, Ruashi caminha, assim, para a morte. “O rio Lwano é a fonte da vida, porque há aldeias ao longo dele, e essas aldeias dependem da água potável do rio. Então, Ruashi está semeando a morte”, afirma.

A maioria dos cerca de 230.000 habitantes de Ruashi vive sem água corrente, faz bicos ou está desempregada. Em 2018, mais de 4 mil toneladas do metal foram extraídas neste local. A República Democrática do Congo concentra 58% da produção mundial de cobalto.

Solução?

Centenas de milhares de pessoas buscam a sorte em grandes minas ou escavam o solo no próprio quintal, segundo um relatório da Amnistia Internacional de 2016. A referência às minas industriais supostamente limpas tornou-se uma estratégia de defesa para as montadoras.

Em Março, a BMW anunciou que abandonaria completamente o cobalto do Congo a partir de 2020/21. Entretanto, Matthias Buchert, chefe de Recursos e Mobilidade do Ökoinstitut em Freiburg, na Alemanha, diz que essa não é uma solução sustentável. “Se o exemplo faz escola e nenhum quilograma de cobalto fosse originário do Congo, não tenho certeza se a oferta ainda estaria garantida”, sublinha.

De acordo com um estudo do instituto, a demanda de cobalto, que foi de 20.000 toneladas em 2016, poderia aumentar vinte vezes até 2030. Um embargo completo, portanto, só levaria ao contrabando em massa, teme Buchert. Em vez disso, o analista pede a implementação de padrões mínimos. “Os maiores compradores da indústria automotiva terão que unir forças o máximo possível”, diz.

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