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Regresso à pátria: a ansiedade dos refugiados no Lóvua

REFUGIADOS CONGOLESES NO CAMPO DO LÓVUA (FOTO: HÉLDER DIAS)

Angop|Hélder Dias

Derivado da violência extrema e generalizada causada por tensões políticas e étnicas na República Democrática do Congo (RDC) em 2017, mais de 30 mil cidadãos daquele país atravessaram, em desespero, a fronteira do Lóvua, Lunda Norte, em busca de segurança.

A travessia da vedação fronteiriça transformou os cidadãos congoleses em seres apátridas, vulneráveis e dependentes, tornando-os refugiados.

Diante deste cenário, Angola comoveu-se e recebeu-os, numa acção conjunta com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), criando condições para que as pessoas pudessem ter o mínimo de dignidade, com acesso à água, saneamento e higiene, alimentação e itens não alimentares, bem como a serviços de saúde.

No Lóvua, a realidade dos congoleses encaixa-se com perfeição no retrato geral da vida em campos de refugiados, vivendo em tendas, à mercê da quantidade de comida disponibilizada mensalmente pelo Programa Alimentar Mundial (PAM).

A região conta com duas escolas, dois hospitais, igual número de centros de distribuição de alimentos, mais de cinco furos de água, todos sob gerência do ACNUR.

O dia no Lóvua começa às 5h00, com os adultos a se dirigirem às lavras e os mais novos à escola, enquanto algumas mulheres fazem filas nos centros de distribuição de alimentos para receberem arroz, feijão, farinha de milho e óleo alimentar.

A partir do meio-dia, as famílias reúnem-se para o almoço e depois das 15 horas, um aglomerado de pessoas caminha em direcção à Igreja, em busca de paz de espírito e com isso, procura também preencher o dia.

A agricultura é das principais actividades dos refugiados, pois é dela que conseguem renda (dinheiro) para tentar refazer suas vidas, enquanto aguardam pelo repatriamento.

A mandioca, o tomate e a batata são, em pequena escala, os produtos mais produzidos que, além de serem escoados para o mercado local, servem para o reforço da cesta básica das famílias assentadas.

Comércio informal ganha espaço

Fruto da comercialização dos produtos agrícolas, algumas famílias conseguiram montar seus negócios no campo, construindo cantinas, pequenos restaurantes e salões de beleza.

Foi criado um mercado para comercialização de alimentos, roupa usada, carne, ervas e raízes para medicina tradicional e utensílios, cujos preços registam ligeiros aumentos em comparação com o que é praticado no Dundo.

Um cartão de saldo da Unitel de 500 kwanzas, por exemplo, é comercializado a 600 kwanzas, o litro de gasolina a 300, o pacote de sumo a 750, contra os refrigerantes a 250.

Uma moagem, criada a base de motor de uma viatura, por um jovem de aproximadamente 25 anos de idade, encarrega-se de transformar o bombo em farinha, cobrando 500 kwanzas o balde de 20 litros.

Mukalo Kyebe empregou três jovens que, por dia, atendem mais de 20 pessoas. Para este trabalho, a máquina consome cinco litros de gasóleo.

O desespero em regressar à pátria

Os refugiados assentados no Lóvua manifestaram à Angop o desejo de regressar à RDC, por acharem que as causas do abandono da sua pátria já não existem. Não vêem motivo para a permaneça em Angola.

Sentem-se inúteis e temem que seus filhos, os mais pequenos, não aprendam o Francês e o Lingala, pois nas escolas construídas no Lóvua, o ensino é em língua portuguesa, o que será um constrangimento quando forem repatriados.

Querem voltar para recuperar as suas residências e tentar refazer a vida, procurando empregos, uma vez que o seu país já começa a registar estabilidade política.

ACNUR

De acordo com o chefe do escritório do ACNUR na Lunda Norte, Abdallahi El Bah, da pesquisa feita recentemente, dos 20 mil refugiados assentados no Lóvua, 85 por cento manifestaram interesse em regressar para a República Democrática do Congo (RDC).

Para o efeito, aguarda-se pela reunião tripartida entre os governos de Angola e da RDC e o ACNUR, para o repatriamento voluntário.

Disse que a situação de conflito que motivou a deslocação destes cidadãos já normalizou, daí a intenção do ACNUR de repatriá-los.

Enquanto isso, os refugiados estão a ser treinados no campo agro-pecuário, para que quando forem repatriados consigam reintegrar-se na sociedade e empreender.

Sobre o Dia do Refugiado

O Dia Mundial do Refugiado foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), no ano de 2000, com o objectivo de consciencializar os governos e as populações para o problema grave dos refugiados a nível mundial.

Uma pessoa refugiada é quem se encontra fora do seu País e sofre perseguição por causa da sua etnia, naturalidade, religião, grupo social ou opinião política, sem possibilidade de retornar ao País de origem.

Actualmente, existem mais de 70 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo que foram forçadas a encontrar um novo local para viver. As regiões mundiais com mais refugiados são o Médio Oriente, o Sudeste Asiático, a África Oriental e o Corno de África.

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