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Doentes renais relatam drama do dia-a-dia

Centro de Hemodiálise do Hospital Américo Boavida atende 350 pacientes e tem 30 máquinas (Fotografia: Maria Augusta | Edições Novembro)

Muitos doentes acometidos por insuficiência renal crónica, em tratamento de hemodiálise nos hospitais Josina Machel e Américo Boavida, queixam-se da falta de medicação regular, alimentação e transporte para as sessões, o que tem comprometido a sua qualidade de vida.

Numa visita realizada no dia 29 de Maio, membros da ADIRA (Associação de Defesa de Direitos dos Insuficientes Renais de Angola) e do Instituto Angolano da Juventude (IAJ) que estiveram nos centros de hemodiálise dos hospitais Américo Boavida e Josina Machel registaram as preocupações de pacientes que manifestaram desagrado face às condições de tratamento.

Fernando Alexandre, 41 anos, está sem medicação há dois meses e por vezes tem de recorrer a um tratamento caseiro para melhorar a hemoglobina, numa altura em que já vive da hemodiálise há dez anos.

Com muitas dificuldades, diz ser preciso “grande força e sacrifício para aguentar, pois precisa de viver”, porque nem sempre consegue as quatro ampolas de Aranesco, que custam 11 mil kwanzas cada, administradas de três em três meses.

João Manuel Domingos, 39 anos, também faz hemodiálise no Hospital Américo Boavida, há dez anos, e precisa de cálcio e está, há três meses, sem medicação. “Tenho uma vida precária, falta-me de tudo um pouco, principalmente um emprego.”

João Manuel Domingos teve um acidente de trabalho que resultou na doença renal. Depois de levar a empresa a tribunal, recebeu uma indemnização, cujo valor não referiu, e que empregou na formação dos dois filhos, e está desempregado.

De acordo com a médica Maura Alfredo, do Hospital Américo Boavida, os pacientes de hemodiálise têm de tomar regularmente vários compostos, de acordo com as necessidades de cada paciente, entre os quais a Eritropoetina, importante para o tratamento da anemia resultante de doença renal crónica.

Maura Alfredo disse que os pacientes têm de fazer a medicação para evitar transfusões de sangue, o que resulta numa outra preocupação, porque nem sempre se encontram dadores.

O Jornal de Angola apurou que a ausência de medicação regular ocorre devido à falta de medicamentos nos centros de hemodiálise e à impossibilidade de os doentes os adquirem por conta própria, pois são muito caros e na sua maioria eles estão desempregados.

Mário Rosa, coordenador do Centro de Hemodiálise do Hospital Américo Boavida, realçou que a doença não escolhe idades nem estratos sociais e fez saber que o principal grupo etário dos doentes é inferior a 50 anos.

O Centro de Hemodiálise do Hospital Américo Boavida, que atende 350 pacientes, tem disponíveis 30 máquinas para três pacientes, divididos em três turnos, atendidos por uma equipa composta por médicos, psicólogos e assistentes sociais.

A falta de transporte tem impossibilitado muitos doentes de realizarem sessões de hemodiálise, como é o caso da paciente Celmira João, 25 anos, que faz o tratamento no Hospital Josina Machel, há quatro anos,

Moradora no bairro do Grafanil, em Viana, apanha dois táxis para chegar ao hospital, numa altura que não tem apoio da família que, mesmo sabendo que a doença não tem cura, “limpa as mãos” e deixa-a entregue à sua própria sorte”.

O centro de hemodiálise do Hospital Américo Boavida possui três viaturas, enquanto o do Josina Machel tem apenas duas, o que tem limitado a recolha dos pacientes.

No entanto, alguns pacientes queixam-se do acesso às paragens de recolha por serem distantes de casa e também por causa do mau estado das vias de acesso aos bairros.

Por causa desta situação, há pacientes que são obrigados a passar a noite no centro, como é o caso de Paulino Francisco, que faz hemodiálise há sete anos no Hospital Josina Machel.

“Faço hemodiálise no terceiro turno, das 16h00 às 22h00 e como não tenho meios para regressar a casa, durmo na sala de espera, no chão, com mosquitos, sujeito a apanhar outras doenças.” Quando não tem dinheiro para apanhar táxi, fica semanas “sem tratamento”.

Pascoal Miranda, 19 anos, deixou de estudar na 9ª classe, há três anos, para fazer hemodiálise. O médico que o acompanha disse ele pode levar uma vida normal, por não ter uma condição crónica.

ADIRA pede apoios

A secretária-geral da Associação de Defesa dos Direitos dos Insuficientes Renais de Angola (ADIRA) pediu às autoridades um maior acompanhamento aos pacientes de hemodiálise, bem como uma maior fiscalização às unidades de tratamento existentes.

Palmira da Silva, 28 anos, também doente dos rins, há sete anos, lamenta a discriminação que sofre no seio da família e da sociedade, revelando que enfrenta muitas dificuldades para a sua subsistência.

Segundo ela, a insuficiência renal desestrutura não só a pessoa afectada mas também a família, pelo que defende a protecção legal dos pacientes.

Josina Machel

O Centro de Hemodiálise do Hospital Josina Machel tem sob sua tutela 329 doentes, atendidos em três turnos, com três sessões por máquina. Tem 50 máquinas, mas neste momento funciona com 42,
devido a avaria das outras.

Com a avalancha de casos de doenças renais, muitos pacientes aguardam vaga para o tratamento. Segundo a directora de Recursos Humanos do Centro de Hemodiálise do Hospital Josina Machel, 27 doentes internados, há um ano, estão à espera de iniciar sessões de diálise.

“Montámos uma estratégia de internamento para fácil contacto dos pacientes, assim que haja uma vaga”, disse Maria Emília Fernandes.

O assessor do Centro de Hemodiálise do Hospital Josina Machel, Ruben Buco, disse que a maior preocupação é manter uma máquina para crianças que precisam de realizar diálise no Hospital Pediátrico David Bernardino, que controla dez crianças, uma delas em fase aguda.

A hipertensão, diabetes, medicação mal administrada e malária mal tratada, são as principais causas associadas à insuficiência renal, disse o também médico de clínica geral Ruben Buco.

IAJ oferece cursos

Jofre dos Santos, director do Instituto Angolano da Juventude (IAJ), advoga uma maior atenção por parte de estruturas do Estado no sentido de apoiar os pacientes de hemodiálise, na sua maioria jovens em idade produtiva.

Além de géneros alimentares de primeira necessidade, o director do IAJ ofereceu material de escritório para a ADIRA e providenciou cerca de 50 cursos profissionais para os seus membros.

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