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Criança maltratada por oficial da Polícia recupera depois do terror

O início do ano lectivo, em Fevereiro, foi um motivo para a inspectora chefe da Polícia Nacional, Apolónia Escolástica, falar com a lavadeira Antónia Francisco, para que deixasse a filha morar e fazer companhia aos seus dois rebentos de quatro e dois anos.

Durante quatro anos, a mulher de 40 anos deslocava-se uma vez por semana à casa de Apolónia. Ambas vivem no Zango 3, embora em extremos diferentes. “Ela é vizinha da minha irmã. Não vimos problemas, por isso aceitamos”, lembrou num tom roufenho.

Por alguns instantes, escreve o JA, Antónia estava ausente da sala onde está internada a pequena Elizângela Augusto, nove anos, em razão do outro filho que deu entrada ao Banco de Urgência do Hospital Geral de Luanda. De regresso, humedece os lábios de fadiga, antes de falar sobre o que aconteceu com a filha de nove anos.

A oficial da Polícia Nacional convenceu a lavadeira, dizendo que o sobrinho de 18 anos, com quem morava, foi embora com a mãe biológica, para uma outra província. Antónia Francisca aceitou o pedido, porque a criança devia estudar, ter brinquedos, sem ser maltratada, como lhe fora garantido.

“Prometeu pô-la na escola e não maltrataria a minha filha”, disse. Denotando cansaço e apoiando-se na única cama sem doente, a mulher lembra que, 15 dias depois, Apolónia a persuadiu de reduzir as visitas, para que Elizângela não pudesse desistir de estar em casa dela.

Conselho acatado. “Mas o coração de mãe não deixava de saltitar”, recorda. A partir desta altura, Apolónia deixou de solicitar os serviços de Antónia.

Quando cruzassem pelo caminho, a oficial da Polícia Nacional dizia que a Elizângela foi à escola e estava bem de saúde.

Ao descartar Antónia, a inspectora chefe contratou uma nova empregada de nome Mimi, que passou a ser arauto de Antónia. “Só me davam boas mensagens”.

Dias de terror
Terror em casa. Sem as visitas da mãe, Elizângela começa a viver um calvário sem precedentes. Era espancada todos os dias. Apolónia deixa de dar alimentos e, amiúde, introduz os dedos e outros objectos nos órgãos genitais da pequena.

A inspectora colocava burgau na brasa e, na companhia da nova empregada, queimava as plantas dos pés. Poucas vezes a criança bebia água. Os dentes foram quebrados com pancadas de muxarico (pau de fazer funje).

“A minha filha está agora a explicar o sofrimento todo que passou naquela casa”, acrescenta com olhar de revolta.

Hoje, livre de pancadas, Elizângela conta à mãe que só a largavam das brasas quando a pele saísse da planta do pé. “Penso que ela fazia ritual com a minha filha”, presume a mãe.

Até agora, Antónia não acredita que a filha está em vida. “O objectivo dela era matar a minha filha”, supõe.

Nem os familiares de Apolónia nem o esposo sabiam da existência de Elizângela. A pequena era escondida diante dos visitantes. O esposo de Apolónia marcava, apenas, presença à hora do al-
moço. Neste período, a me-nina era fechada num quarto sem luz e proibida de lançar gemidos de dores.

Às noites eram longas e dolorosas: passava às noites sentada no chão.
Em Maio, Apolónia convoca Antónia. A mãe de Elizângela supunha que a conversa estaria ligada à pausa pedagógica, depois do fim do primeiro trimestre. O encontro, que estava previsto para as nove horas, aconteceu às 17 horas de uma sexta-feira.

Em companhia da sua empregada Mimi, Apolónia diz que chamou Antónia para levar de volta a filha. “Ela disse-me que a criança ficou muito doente durante dois meses, Fevereiro e Março, e tinha gasto 50 mil kwanzas num Posto Médico”.

Assustada com as palavras da anterior patroa, Antónia lamentou o facto de não ter sido contactada para prestar apoio e assistência à filha. “A minha irmã é amiga dela e porque razão não nos avisou?”

A conversa decorria, mas Elizângela estava ainda encerrada no quarto. O coração de Antónia tiritava de preocupação. Mas a oficial da Polícia Nacional justificava com imagens, feitas por telefone, o estado da pequena. Mostrou as imagens da criança com infecções de pele, a boca defeituosa, os dentes quebrados, inchaço na barriga, a coluna inflamada e desviada e a planta do pé com queimaduras, sem pele.

Os furúnculos à volta do corpo apresentavam-se com vermes. Apolónia mostrou, inclusive, fotografias de Elizângela inclinada a comer cebola e feijão deteriorado no balde de lixo.

“Ela disse-me que a minha filha comia no lixo e pensava que a cebola era mandioca”, lamenta. Mal viu a filha a andar de cócoras, Antónia Francisco colocou-se em gritos e apavorada com a situação, pediu apoio dos vizinhos, do esposo e dos familiares. Ainda assim, Apolónia rogava para Antónia calar, para não despertar a vizinhança.

O tumulto tomou conta do bairro. A oficial foi levada à Esquadra Policial do Zango 2 pelos familiares da pequena Elizângela, antes de se dirigirem ao hospital.

No dia seguinte, a suposta criminosa foi mandada para casa a partir da Esquadra do Zango Zero, onde tinha sido transferida.
Foram três meses de terror da pequena Elizângela Augusto.

O que parecia sorte, transformou-se num espectro de azares. Qualquer semelhança é mera coincidência com filmes de Hollywood.

Apolónia mudou-se de casa. Os familiares de Antónia temem pela fuga e presumem que a mesma esteja a ser protegida, porque “já não foram chamados para depor”.

“Pedimos justiça”, atira Antónia Francisco em tom alto e expressão facial indignada.

Cirurgia plástica

A enfermeira chefe de cirurgia da Pediatra do Hospital Geral de Luanda, Gilda Correia, disse que a pequena Elizângela vai precisar de uma cirurgia plástica nos lábios.

As feridas estão na fase de cicatrização e já consegue caminhar aos poucos. Nesta altura, está a fazer fisioterapia à nível da coluna vertebral devido ao inchaço do espancamento protagonizado por Apolónia.

“É prematuro falar em alta, mas ela continua a ter cuidados de uma equipa multidisciplinar”, salientou a enfermeira.

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