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Angola, 27 de Maio 1977

João Pessoa (DR)

João Pessoa

Eram 4 horas da Manhã, ouvi a primeira rajada.
O som era de A47, conhecia-lhe bem.
Depois, foi a loucura!

Passados tantos anos, acordo sempre neste dia, ao som de rajadas de metralhadora. Não consigo esquecer. Meu cérebro sofre e não esquece. Todos os anos é o mesmo.

Deixei de poder abraçar, como tantas vezes fizera, muitos amigos do coração.

Elisiário Vieira Lopes, tinha acabado o seu curso de Medicina, e estava ansioso de exercer junto do seu povo.
Tantas coisas fizemos juntos!

Paulo Pires Cadavez, meu vizinho da Vila Alice, meu colega de carteira na escola, meu amigo de adolescência, grande desportista e não se metia em política.

Garcia Neto, amigo de adolescência, consciente de que a política era ajudar o seu povo a viver com dignidade.

José Van Dunem, juntamente com o seu irmão mais novo, o João, nos reuníamos na esquina da Eugénio de Castro, com alguns outros amigos, a contar as “novas” vindas da mata. Éramos miúdos, de 16, 17, 18 anos, com sonhos.

Dia 27 de Maio de 1977

As rajadas não paravam, eu entrava de serviço às 13 horas, na redacção da Rádio Nacional de Angola.

Não sabia como lá chegar mas cheguei. Meu livre-trânsito de jornalista ajudou.

Fui barrado várias vezes.
Na entrada da estação também.
Na primeira vez, quando saí do carro, me perguntaram o que ia ali fazer…
Depois de passar a porta, já lá dentro, perguntaram para onde ia…
Quando abri a porta da redacção…

Os meus colegas me olharam incrédulos, “porque vieste?”
Todos quietos, olhares de medo e interrogação, pareciam paralisados. Todos sentados, com as máquinas de escrever, levantadas. Ainda não havia computadores. Pareciam Zombies.

Sentei-me na minha mesa, passei a mão pela minha máquina, como que a pedir que me ajudasse um dia a contar a história daquele dia…

Na mesa ao lado, o mais jovem jornalista redacção, Rui Malaquias, olhou-me de lado, disfarçadamente, como se se estivesse a despedir.
Talvez, um pouco mais de uma hora, três militares, com kalashnicov empunhadas, levaram-no. O Rui trabalhava ali mesmo ao meu lado, e perguntava-me algumas coisas. Era o miúdo, o meu miúdo, como eu dizia. Irmão de um dos responsáveis do famoso programa “KUDIBANGUELA”. Nunca mais o vi…

Tantos que nunca mais vi!

Foi no dia 27 de Maio de 1977 (tantas histórias para contar, umas com fim, outras sem fim. mas esta data, só acaba no meu caixão…)

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