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Campanhas: Partidos põem o pé no travão para evitar cansaço extremo

Os candidatos às europeias também percorrem estradas pouco movimentadas (Foto TIAGO PETINGA/LUSA)

Diário de Notícias | Paula Sá

“Cansaço”. Pedro Santana Lopes e Paulo Sande despistaram-se na A1. As campanhas continuam a ser demasiado exageradas? Ou há um esforço para as tornar racionais e evitar a exaustão dos candidatos, staff e jornalistas?

Andava-se em caravana, a transgredir muitas vezes, 180 à hora, percorriam-se milhares de quilómetros, em estradas rudimentares, os dias pareciam ter mais de 24 horas, e nalguns deles apenas três ou quatro horas de sono. No final de 15 dias de campanha, que encolheram para 12 dias, as olheiras tomavam conta dos candidatos e dos jornalistas. Havia lapsos de memória e até doenças súbitas. Apanhavam-se sustos na estrada e houve acidentes memoráveis, alguns com vítimas. Os partidos puseram o pé no travão e já não se fazem loucuras como estas nas actuais campanhas eleitorais, mas a agenda ainda é pesada para esquadrinhar todo o país à procura de eleitores. Estas europeias já provaram, com o aparatoso acidente de Pedro Santana Lopes e Paulo Sande, da Aliança, que se calhar é preciso ainda moderar a velocidade e aligeirar a agenda. Mas como organizam os partidos a rota dos seus candidatos?

Todos os grandes partidos garantem que já não entram em campanhas loucas, aquelas que tinham uma mão cheia de iniciativas, desde o raiar do sol até de madrugada. Dizem que evitam demasiados quilómetros, mas admitem que às vezes ainda não há como escapar, quando iniciativas inesperadas entram na agenda. É o caso de entrevistas e debates, que podem mudar a rota dos candidatos. Ou ainda os esticões às regiões autónomas, com ‘bilhete’ de regresso ao continente no próprio dia, como foi o que aconteceu na quarta-feira, dia do acidente na A1, com Santana Lopes e Paulo Sande.

“Campanha após campanha as agendas estão menos preenchidas”, garante ao DN Pedro Esteves, membro da direcção de campanha do candidato do PSD às europeias, Paulo Rangel. Admite que a média de três iniciativas por dia são pensadas para fazer passar a mensagem na comunicação social e atendendo aos meios que dispõem. “Os recursos são cada vez menos e temos de ter isso em atenção”, diz.

Ainda são milhares de quilómetros, mas mais pausados e pensados. “As campanhas deram-nos a experiência para as desenhar com a menor quilometragem possível, até porque cada hora no carro é menos tempo que se perde em acções”, afirma Pedro Esteves.

30 mil quilómetros já percorridos
José Pedro Pinto, que também é responsável pela campanha do cabeça de lista do PS, Pedro Marques, garante: “Tentamos na equação da campanha precaver os excessos de deslocações para minimizar, na medida do possível, o extenuar das pessoas todas”. E em “todas” inclui os candidatos, o staff de campanha e os jornalistas, que os acompanham nos 12 dias de estrada.

Há um “compromisso” , sublinha o responsável socialista, entre a deslocação a todos os distritos e regiões autónomas e o “justo equilíbrio” das acções de campanha. José Pedro Pinto, que foi jornalista de rádio, frisa que há hoje mais “facilidade de fazer chegar às redacções as mensagens de campanha. “O que melhora a qualidade de vida das pessoas”.

Ainda assim, o cansaço é um acumulado. Desde que Pedro Marques foi anunciado como cabeça de lista, em Fevereiro, que a soma na soma da pré-campanha e primeiros dias de campanha o conta quilómetros já aponta os 30 mil.

Do PCP, partido liderante da CDU, vem igualmente a garantia de que a campanha é hoje pensada com outro perfil. João Lopes, que trabalha na direcção de campanha da coligação, diz que tanto em relação ao primeiro da lista, João Ferreira, como em relação aos restantes membros que compõem, houve a preocupação de organizar as iniciativas tendo em atenção o tempo necessário para as deslocações, o contacto com os eleitores e o descanso dos envolvidos.

Pelo programa de campanha, que é mais concentrado a sul, afirma João Lopes, percebe-se que “não há saltos”, havendo algumas excepções. “Temos tudo encadeado por regra”.

Dormir em casa
A mesma regra mantém o Bloco de Esquerda, mas com um “segredo” para o conforto dos seus candidatos, como da cabeça de lista Marisa Matias. “Tentamos ter uma agenda de deslocações que seja racional, com alguma contiguidade de território. Fazer as deslocações o mais curtas possíveis e arranjar maneira de as pessoas puderem ir dormir a casa para descansar”. E porquê? “Transforma a campanha em modo mais suave”. Mas há ainda outra razão para o BE reduzir os quilómetros, um compromisso ecológico.

Jorge Costa reconhece que o que perturba este processo são iniciativas que não estavam previstas. Mas garante que as campanhas já não são tão intensas como eram. Lembra, a propósito, que Miguel Portas teve um acidente “grave”, em que se magoou numa campanha eleitoral. “A experiência e termos outra estrutura fez-nos mudar as coisas”, remata o director de campanha do BE.

O programa de campanha do CDS também mostra que as iniciativas do cabeça de lista do partido, Nuno Melo, foram pensadas com peso conta e medida.

Maior esforço do partido a nascer
A situação da Aliança é muito particular. O partido recém nascido tem a primeira campanha eleitoral pela frente e o esforço é maior para se dar a conhecer ao país eleitoral, embora o líder, Pedro Santana Lopes, tenha muita rodagem de estrada. “A campanha coincide com a implementação do partido em todo o país”, frisa Luís Neves, da direcção de campanha do cabeça de lista do partido às europeias. Paulo Sande.

Ora o perfil do candidato também obrigou a uma maior permanência na estrada. “Paulo Sande era pouco conhecido fora da elite urbana”, admite Luís Neves. Daí que o candidato tenha percorrido o país várias vezes em pré-campanha, também para conhecer as estruturas locais da Aliança. “Quando se chega à campanha já há um acumulado de muitos quilómetros”, afirma e, no caso do partido recém nascido, “há que atender a muitas solicitações e tentar ir a muitos sítios”. Até porque, afirma Luís Neves, há a consciência que nestes 12 dias de campanha “é preciso aproveitar a disponibilidade dos meios de comunicação para fazer a cobertura das acções do partido”. Foi talvez isso que foi o motivo do acidente de Santana Lopes e Paulo Sande na A1, virem directos dos Açores para Cascais para mais uma iniciativa de campanha e o cansaço da deslocação.

Santana Lopes ia ao volante, coisa que nos garantiram as outras direcções de campanha não acontece com os seus candidatos e líderes. “É uma questão de segurança”.

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