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Guaidó não foi preso porquê?

Juan Guaidó proclamou-se presidente interino da Venezuela a 23 de janeiro, dias depois de Nicolás Maduro começar um novo mandato como presidente do país (DR)

Sol

Guaidó tornou a desafiar Maduro, desta vez com apoio de alguns militares, mas o impasse político permanece. Maduro já o podia ter mandado deter? Analistas falam de medo, tática e do papel dos russos.

Ninguém sabe como é que o autoproclamado Presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, não foi detido pelo Governo de Nicolás Maduro após o golpe de Estado falhado que levou a cabo esta semana. «O momento é agora», disse Guaidó na madrugada de terça-feira. As horas passaram, mas Maduro continua no poder. E Guaidó continua em liberdade e a aparecer em público, apelando à mobilização da população.

Os especialistas ouvidos pelo SOL avançam com várias explicações para o Governo não o prender, apesar de considerarem que não é fácil encontrar uma resposta. «Há bastante desinformação e manipulação de ambos os lados», diz Marcelo Moriconi, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE.

A explicação mais recorrente é que, apesar de «não faltarem meios a Maduro» – que aparenta ter pleno controlo das estruturas do exército – o Governo terá receio do «impacto internacional da sua detenção», que «poderá intensificar a pressão, sobretudo após o reconhecimento de Guaidó por mais de 50 Estados», observa José Pedro Teixeira Fernandes. Para o investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, a prisão de Guaidó «abriria caminho a medidas mais duras», incluindo até «uma intervenção militar» norte-americana – um cenário temido na Venezuela desde a presidência de Hugo Chávez.

Já Moriconi coloca possibilidade de que a contínua presença pública de Guaidó seja um cálculo deliberado do Governo venezuelano – cujas forças não hesitaram em atropelar manifestantes da oposição com veículos blindados.

O analista relembra que «a oposição internacional a Maduro acusa-o de liderar uma ditadura», notando que «Guaidó livre significa um setor na oposição na rua – algo que acontece em democracia», reforçando a retórica do Presidente. Uma estratégia que Moriconi diz «produzir desgaste» na oposição. «Guaidó tem de estar na rua, discursar, fazer promessas» que não consegue cumprir, explica o analista.

Segundo Moriconi, o autoproclamado Presidente interino tem tentado contrapor a esta tendência «pequenos triunfos» – como a libertação do seu mentor político, Leopoldo López, esta terça-feira. O fundador do Vontade Popular cumpria uma pena de quase 14 anos, em prisão domiciliária, condenado por incentivo à violência nas manifestações de 2014, que causaram vários mortos.

A oposição garante que o processo judicial serviu para reprimir a oposição, considerando López um prisioneiro político e saudando a sua libertação, graças à intervenção de militares apoiantes de Guaidó – incluindo Cristopher Figuera, então diretor da Sebin, as secretas militares.

Nos bastidores

A mudança de lado do todo-poderoso líder das secretas levantou questões sobre o grau de fratura entre as chefias militares – outra possível explicação para a hesitação em deter Guaidó. O Español avançou que o Kremlin terá entrado em negociações com a oposição e os seus aliados dos EUA, aceitando a saída de Maduro, a troco de que um futuro Governo de Guaidó pagasse integralmente as dívidas venezuelanas à Rússia.

Estas movimentações terão resultado numa autorização tácita de altas patentes militares para que Guaidó levasse a cabo o golpe de Estado, apoio em que parecem ter recuado à última hora. Mas a manobra já tinha sido lançada pelo autoproclamado Presidente interino. Segundo o jornal espanhol, os planos foram antecipados devido à oposição de Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte.

«A Rússia não tem interesse numa escalada da violência», assegura Raquel Freire, especialista em política externa russa do Centro de Estudos Sociais de Coimbra. Apesar do Governo de Vladimir Putin ter «muito a perder com a mudança de regime» – nomeadamente a nível de petróleo e armas – Moscovo teme que a crise política «venha a ser desfavorável a médio e longo prazo», diz a especialista. Já está marcado um encontro entre Putin e o Presidente dos EUA, Donald Trump, onde poderão ser aprovadas medidas de «estabilização», bem como uma «eventual transição».

Os pesos pesados por trás do suposto acordo para a saída de Maduro seriam o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Maikel Moreno, bem como o comandante da guarda presidencial, Iván Rafael Hernández e o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, segundo o secretário de Segurança Nacional dos EUA. John Bolton acusou os dirigentes de terem recuado no último minuto.

Por agora, «é impossível confirmar esta informação», considera Teixeira Fernandes, que explica que toda a trama poderá não ser mais que uma cortina de fumo, parte de uma «guerra psicológica» para «desmobilizar o regime», tentando provocar deserções de última hora. Verificar a veracidade destes supostos acordos será «crucial para saber quão próximo se esteve de uma viragem» com a tentativa de golpe, conclui.

Enquanto Guaidó mobiliza os seus apoiantes nas ruas, apelando a uma greve-geral, os militares de alta patente têm-se desdobrado em marchas e conferências de imprensa, jurando lealdade a Maduro. Mas neste momento, «nem o Governo parece ter peso para desarmar a oposição e pacificar o país», assinala Teixeira Fernandes. E o avanço da oposição depende de conseguir apoio do exército, cujos oficiais defendem o Governo «quer por calculismo quer por ideologia (…) Os dois funcionam», remata.

Padrino é «a chave deste processo», assegura o investigador, dado «o poder que tem sobre a hierarquia militar», que «controla boa parte da economia do país», incluindo «parte dos rendimentos do petróleo». O ministro da Defesa mobilizou-se desde a primeira hora, antes ainda da reação de Maduro­, que esteve mais de cinco horas sem dar notícias após o apelo à rebelião de Guaidó. Padrino acusou de imediato a oposição de «usar tropas e polícias com armas de guerra numa via pública», com o objetivo de «criar confusão e terror», garantido que a maioria dos efetivos ficaram nos quartéis.

Contudo, as alegações sobre o seu apoio ao golpe, seguido de um recuo, foram solidificadas com os apelos da sua família, que gravou um vídeo apelando à deserção do ministro. «Sabemos que deve ser difícil estar no teu lugar», disse Carmen Padrino, mãe do ministro, que lhe pediu que se «colocasse do lado do povo» para «conseguir uma Venezuela livre». Além de que este apoio da família de Padrino à oposição «mostra o grau de divisão na própria sociedade», assegura Teixeira Fernandes.

Face a «uma estratégia geral de criar dúvidas», Moriconi acrescenta que qualquer tentativa de avaliar as forças da oposição ou do Governo, seja entre o exército ou nas ruas, «é mais uma questão de desejo do que de certeza». O analista afirma que «é óbvio que Guaidó conseguiu um certo apoio popular», mas também que «o apoio de Maduro não é só entre o exército».

Como mostram as largas manifestações frente ao Palácio de Miraflores, em resposta ao apelo de Cabello para defender o Presidente. «Aqui encontrarão um povo unido», proclamou o presidente da Assembleia Constituinte, durante a tentativa de golpe de Estado, face a um cordão humano em Miraflores. Entre os presentes encontravam-se muitos membros das milícias, civis armados pelo Governo para defender a revolução – estimando-se que os seus efetivos estejam entre os dois e os três milhões de cidadãos.

Intervenção militar

Tanto Moriconi como Teixeira Fernandes concordam que uma intervenção militar na Venezuela teria «grandes impactos na região», em particular na Colômbia e o Brasil – cujos executivos apoiam Guaidó. Moriconi assegura que qualquer conflito armado «teria de certeza outros atores» – como as várias guerrilhas operacionais na Colômbia, as FARC e a ELN. Uma guerra na Venezuela arriscaria provocar um «super conflito» no país vizinho – que neste momento está num processo de paz muito tenso com as FARC e em guerra aberta com a ELN.

Tudo isto num contexto geograficamente favorável a estes conflitos, com extensas florestas através das quais as guerrilhas «andam à vontade de um país para outro». Nem o Governo colombiano nem o brasileiro «querem pagar o custo político» de engalfinhar a região em guerra – algo que retira apoio às ânsias intervencionistas do executivo de Donald Trump, que já ameaçou várias vezes invadir a Venezuela.

Já Teixeira Fernandes menciona que a questão fundamental por de trás das ameaças de Washington tem pouco de humanitário, sendo sobretudo motivadas pelo seu confronto geopolítico com o Kremlin. O analista aponta ainda o facto de o Governo Trump ter um «perfil nacionalista», falando abertamente em ressuscitar a doutrina Monroe – que considera a América Latina uma espécie de «quintal» dos norte-americanos.

A «costumeira arrogância das grandes potências» põe em risco a Venezuela, considera Teixeira Fernandes. No final do que acabou por ser mais uma semana de confronto e impasse, o desfecho não parece claro. Miguel Angel Martin, presidente do Supremo Tribunal no exílio, apelou à intervenção por parte dos EUA, mas Brasil e Colômbia reforçaram a sua indisponibilidade para apoiar uma solução militar para a crise política na Venezuela.

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