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O Jazz do Gégé Belo

Por Gabriel Baguet Jr *

As cidades são assim. Um constante vai e vem de pessoas. Com pontos de chegadas e de partidas. Mas todas elas encerram a palavra Memória ou recordação de um tempo vivido e fixado num lugar. O Jazz da Cidade de Luanda magistralmente estudado pelo GéGé Belo dá-nos a necessidade dessa beleza quando o caos abunda e não há beleza para olhar e apenas o céu para contemplar. Mas Jerónimo Belo na página nove da ” Geometria variável ” acrescenta que o poeta ” traz-nos à memória recordações que ignorávamos possuir”. Ser o ” Crespúsculo em Nova Iorque é ouvir Jazz: esta música acaba com a perspectiva única e aspira em primeiro lugar todos os seus elementos perspectivas múltiplas “, como refere o autor. À época, quando publica o livro, GéGé Belo insere esta reflexão e belo pensamento na gaveta da cidade que habita e a desenha nos seus escritos e nas suas percepções. “A palavra não se invade da cidade. A frase não oculta o sentido da página “, diz este filho luandense que brinca e cresce na Rua da Índia, num tempo de muitos sonhos e de outros afectos. Mas quando GéGé Belo diz que ” a palavra não se evade da frase e a frase não oculta o sentido da página “, este estudioso ímpar do Jazz em Angola e Embaixador pela UNESCO nesta categoria musical, acaba por ser uma afirmação sábia e questiona. Questiona por exemplo e invertendo a lógica de reflexão como se poderiam invadir das frases as palavras que as integram e compõem a nossa narrativa? Como evadir a frase da palavra ? Como o sentido da páginas podia não ocultar a frase ? Há páginas em branco mas no silêncio e na abstração há palavras para reter e letras para juntar e formam palavras que construem e demonstram pensamentos. As palavras e as letras juntam-se numa unidade que transpõe a lógica de pensar, de reflectir e de escrever. As palavras e as letras são caminhos de libertação de um tempo, de uma época, de um lugar, de sentimentos vários tal como cada um de nós sente e vive a cidade. Há entre GéGé Belo e o Jazz uma relação íntima e de cumplicidade. A mesma cumplicidade e intimidade que tem com Luanda nos seus recantos e encantos e também nos desencantos que teve. Mas é célebre a frase , ” é possível amar uma cidade, como se ama uma mulher “. Esta frase e singular pensamento de amor é da autoria de Jerónimo Belo. Esta frase poderia muito bem estar inscrita em vários painéis da cidade de Luanda e os seus gestores provinciais e municipais podiam inspirar-se na mesma para se poder amar mais Luanda e fazer-se mais Cidade no sentido mais lato do tempo acabando com o lado mais menos urbanizado da Cidade e socializar num quadro de Política Públicas adequadas o que pode ser a gestão da Cidade de Luanda. Hoje, talvez fosse um dia para que milhares de Trompetes e Saxofones e alguns Pianos estivessem espalhados pela cidade, para que novas sonoridades invadissem a Cidade que já se chamou Loanda e depois pela transposição de tempos que agora não me apetece descrever, passou a chamar-se Luanda. Há belíssimas frases ditas e escritas sobre Luanda. Como por exemplo a que o histórico Escritor e Etnógrafo angolano Óscar Ribas escreveu sobre Luanda e que cito : ” Luanda é a luz dos meus olhos que a minha cegueira nunca apagará “. É profundo este pensamento que deriva de um sentir próprio de quem ama o seu habitat. E Jerónimo Belo ama Luanda de modo próprio entre outros homens, mulheres e jovens que nos seus percursos quotidianos amam Luanda no anonimato e percorrer diário de uma cidade cheia de flutuações. No Dia Mundial do Jazz, Luanda abriu-se aos Ciclos dos Caminhos do Jazz.

O jazz dá voz às lutas e às aspirações de milhões de pessoas e é um incrível símbolo da livre expressão e da dignidade humana. É uma língua universal da paz, em uma época de discórdia e divisão crescentes. O Jazz une e congrega vontades. Cria laços de amor tão necessárias à Humanidade. Gostaria que este ano e nos próximos anos, o Jazz descesse às Províncias de Angola e fosse descentralizado. Seria importante o Jazz ir ao centro e ao litoral do País para que. as populações pudessem escutar as sonoridades dos Jazz. Os mais cépticos e os defensores de políticas centralistas, apenas conseguem olhar para um prisma da questão. Mas levar o Jazz às Províncias é levar conhecimento e experiências universais aos mais jovens e aos mais velhos que habitam em lugares longínquos de uma terra bela como Angola. O conhecimento não tem que ficar na gavetas dos e das burocratas. Tem que sair para a rua dos saberes e das avenidas do conhecimento e de quem quer aprender e formar-se. Não haverá em Benguela, no Uíge, no Luena, no Bengo, no Lubango, em Malange e demais cidades do interior de Angola que teriam a curiosidade e a oportunidade de conhecer o que é o Jazz? De que como surgiu o Jazz? E mais. Descentralizar as políticas culturais e dar a conhecer o que é o universal é uma forma aberta e genuína de levar Conhecimento e Saber às populações. Sabemos e eu próprio tenho consciência que é necessário levar outras valências e urge criar outras estruturas públicas e privadas no domínio escolar, no domínio da saúde pública e da ciência e dar cada vez mais Dignidade a estas populações. É uma verdade. Levar o Desenvolvimento Humano efectivo e concreto a estas populações é crucial para Angola. Diminuir substantivamente as assimetrias entre o campo e a cidade é determinante para o Desenvolvimento Sustentável de Angola. Não basta erguer grandes edifícios na capital política e económica que é Luanda.É preciso ir mais longe. É preciso humanizar todos os dias a construção da Nação. Perguntará o leitor: Mas para falar do Jazz é necessário falar de Desenvolvimento Humano e das Províncias do interior do País? É. É preciso e fundamental. É necessário olhar de modo transversal para uma Sociedade e sobretudo quando o território tem a extensão terrestre e marítima que tem. É preciso fomentar esse sentir. E o Jazz e o seu sentir abrem lugar ao pensamento e ao exercício mental que é necessário fazer à sua volta para perceber e entender os seus objectivos e porque existe um Dia Mundial do Jazz.

Com suas fortes ligações com o gênero, a Austrália foi a anfitriã do Dia Internacional do Jazz deste ano, com o All-Star Global Concert, que se realizou como disse anteriormente na cidade de Melbourne e transmitido ao vivo para milhões de pessoas em todo o mundo.

O Embaixador da Boa Vontade da UNESCO, o icônico pianista norte-americano Herbie Hancock, que primeiro defendeu um Dia Internacional do Jazz e conduziu à sua proclamação em 2011, esteve no evento. Ele foi acompanhado por vários artistas internacionais, que incluem a aclamada cantora norte-americana Dee Dee Bridgewater e o trompetista australiano James Morrison. Igualmente impressionantes são os amplos programas educacionais e de extensão que serão realizados em toda a Austrália, de Sydney até Perth, que darão especialmente aos jovens a oportunidade de descobrir o jazz e até mesmo começar a tocar um instrumento.

Milhares de celebrações também ocorrerão em todo o mundo – de apresentações e jam sessions a filmes, palestras e debates sobre jazz. Eu defendo a criação do Museu do Jazz em Luanda e que todos a participem em experimentar a rica história, bem como os ritmos e as formas em constante evolução do Jazz.

O aparecimento e a criação de uma estrutura museológca ligada ao Jazz quer no plano museológico, quer no plano do ensino, terá a UNESCO como parceira e o orgulho de colaborar com o Herbie Hancock Institute of Jazz, para promover esse magnífico meio de diálogo por intermédio da música, no Dia Mundial do Jazz. Reler a ” Geometria Variável ” ou a ” Feijoada ” do Embaixador do Jazz em Angola Jerónimo Belo permite-nos sermos orientados pelos valores e pela visão do Jazz como uma força unificadora e uma voz de esperança para tantas pessoas. Urge ter esperança. Urge dar esperança às pessoas. A Cidade de Luanda não tem que ficar confinada ao Jazz. Mas o Jazz tem que ser parte da Cidade de Luanda. O Jazz tem que ser a namorada mais amada de Luanda, tal como o Semba e a Cultura em geral. No dia em que publico esta palavras soltas que para alguns poderão não ter sentido ( mas não me importa que assim pensem ), recordo o cidadão histórico e exemplar que foi Carlos Aniceto Vieira Dias e todos os membros dos N´Gola Ritmos. Tive a honra de os conhecer pessoalmente e privar através dos meus queridos pais. A Cidade de Luanda tem muitos símbolos que não podem, nem devem ser esquecidos. Uma Cidade em construção que é Luanda, não pode esquecer a Memória de muitos dos seus filhos. Eles e elas, são parte integrante da história da Cidade de Luanda e o Jazz saberá homenagear isso, como a beleza do Semba cantar e dançar as suas Memórias. Talvez e deixo como sugestão ao Governador Provincial de Luanda que na toponímia de Luanda, não deixe de incluir a Rua Liceu Vieira Dias, a Avenida dos N’ Gola Ritmos, a Avenida ou Rua do Jazz, como também a Avenida ou a Rua do Semba.São humildes sugestões de um filho luandense que observa e sente a Cidade de Luanda de vários ângulos. O tempo irá fazer-nos compreender como a abertura à Cultura têm várias geometrias variáveis, mas que são úteis ao pulsar da Cidade. Escrever e falar é hesitar constantemente. Mas o impulso do coração é mais forte que a razão. Porque amar Luanda e Angola é ir ao encontro da Memória e ir ao encontro da belíssima frase de Jerónimo Belo que diz e pensa ” é possível amar uma Cidade, como se ama uma Mulher “. Pensamento que subscrevo porque amo imenso o meu amor de vida que é MS, como amo Carry-Le-Rouet, Luanda e os meus progenitores, ambos filhos de Luanda e que eles próprios sempre tiveram com Luanda uma relação de Amor. É preciso Amar Luanda e oferecer-lhe todos os dias, Rosas de Porcelana e Poemas de Amor sem esquecer a Poesia do Jerónimo Belo, a sua ” Geometria Variável ” e as improvisações de muitas das suas paixões, que entre elas, está o Jazz no seu relógio de vida. O Jazz é um rio que corre e que observamos e sentimos. Luanda é uma cidade eternamente amada nos seus percursos e histórias. Seria importante ser mais amada, compreendida e acarinhada. Todos e de diferentes Gerações seriam mais felizes. E nunca é tarde para embarcar para esse porto de chegada. Basta sentir e olhar. E a classe política tem essa dupla responsabilidade num constante diálogo aberto e justo com toda a Sociedade Civil. Talvez ao som do Jazz se consiga esse milagre porque é sempre tempo de construir, unir e parar um pouco para reflectir sobre Luanda e Angola. Dar voz a esta estratégia é um modo de plantarmos rosas nas Avenidas.

* Escritor/Investigador e jornalista

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