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Ayrton Senna, o “mago” da Fórmula 1 morreu há 25 anos

(PAUL-HENRI CAHIER)

Expresso

Há 25 anos, Ayrton Senna morreu como viveu: na frente de um GP, a testar os limites. Para muitos, inclusive para o atual campeão do Mundo Lewis Hamilton, o brasileiro foi o melhor piloto de todos os tempos.

As voltas-canhão nos últimos minutos das qualificações e a capacidade quase sobre-humana para correr debaixo de chuva eram duas das principais imagens de marca. Mas, mais relevante do que isso, Senna é uma das mais contraditórias e fascinantes personagens da história do desporto, como se tenta justificar nesta pouco concisa e assumidamente nostálgica biografia

Para muitos portugueses que nasceram até ao início dos anos 1980, como o jornalista que assina este artigo, o dia 1 de maio de 1994 e os que se seguiram foram marcados pela chocante notícia da morte de Ayrton Senna e pelo brutal mediatismo que se seguiu. Ainda não estávamos na era da Internet, pelo que não havia uma tão grande dispersão de assuntos na ordem do dia, mas as televisões já tinham capacidade para diretos de várias horas consecutivas.

A SIC percebeu a popularidade do piloto em Portugal e, com recurso à parceria com a Rede Globo, dedicou muitas horas de emissão ao assunto, incluindo a transmissão do funeral. Ainda hoje se ouve a pergunta “onde estavas quando o Senna morreu?”.

Tal como era tradição à época, o autor destas linhas acompanhava a corrida à mesa do típico almoço familiar de domingo e, depois do embate do carro do brasileiro na curva Tamburello do circuito de Ímola, em Itália, o resto da comida ficou no prato. O então adolescente de 13 anos ficou petrificado perante o espetáculo da morte em direto, transmitido até ao momento em que o helicóptero que transportava Senna para o hospital desaparecer no céu.

Na véspera, uma notícia de rodapé passara na televisão: falecera Roland Ratzenberger, piloto da obscura Simtek-Ford, na qualificação do Grande Prémio de San Marino. Já não morria um piloto em prova há quase 12 anos, mas a Fórmula 1 estava perigosa por aqueles dias. Porém, nada podia acontecer ao ídolo Senna, a correr pela equipa tecnologicamente mais avançada do desporto, certo? Errado.

O acidente que vitimou Senna ainda é debatido até à exaustão, 25 anos depois, mas o tema deste texto não é a morte, mas sim a vida de um dos melhores pilotos de todos os tempos, para muitos o melhor de sempre – se ler até ao fim dizemos-lhe os nomes de vários colegas de profissão que pensam isso mesmo.

A última época de Senna começou como um sonho – o piloto número um na equipa número um dos anos 1990 – e transformou-se num pesadelo, mas mais relevante do que isso são os números da carreira: três títulos mundiais (1988, 1990 e 1991), 41 vitórias (quinta melhor marca de sempre) e 65 ‘pole positions’ (só Schumacher e Lewis Hamilton ultrapassaram esse número).

O CORTA-RELVA
Senna nasceu a 21 de março de 1960, numa família abastada, que vivia em Santana, no norte de São Paulo. Curiosamente, ‘Beco’, como era chamado pela família, revelava problemas de coordenação motora na infância. Porém, rapidamente mostrou interesse por automóveis e, quando fez quatro anos, recebeu um kart construído pelo pai, com o motor de um corta-relvas.

Até aos 20 anos somou títulos brasileiros e sul-americanos de karting, até que em novembro de 1980 chegou à fria Inglaterra, recém casado com Liliane Souza, para participar na Fórmula Ford 1600. Venceu a categoria, mas no final do ano regressou ao Brasil e chegou a pensar que o melhor era esquecer o automobilismo e ajudar o pai nos negócios.

O casamento com Liliane terminaria em 1982, porque Senna resistiu às pressões da família e da mulher e decidiu voltar a Inglaterra para chegar depressa ao topo, sem hesitações. Ganhou a Fórmula Ford 2000 e, em 1983, a Fórmula 3. Estava pronto para a Fórmula 1, mas ainda era muito jovem para os padrões da época.

Três das grandes equipas de então, a McLaren, a Lotus e a Brabham, tentaram contratá-lo para piloto de testes com a promessa de um lugar no pelotão em 1985, mas Senna não queria esperar mais um ano e, ainda mais importante, queria ser ele a escolher a melhor equipa para poder lutar por vitórias quando chegasse esse momento. Aceitou dois anos de contrato com a modesta Toleman, mas é evidente que só fazia intenção de cumprir um ano – e seria até castigado por assinar pela Lotus para 1985 sem rescindir o acordo anterior.

Foi pela Toleman – que seria comprada pela Benetton em 1985 – que Senna teve a sua primeira tarde de glória, com um segundo lugar no circuito fétiche do Mónaco. A corrida foi marcada pela chuva – começou aqui a ser construída uma das suas imagens de marca – e interrompida na 31.ª volta, quando o futuro tricampeão se aproximava a olhos vistos do líder Alain Prost, que gesticulava para os comissários interromperem a corrida. Foi o primeiro ‘round’ da maior rivalidade de sempre da Fórmula 1 e, ironia das ironias, o francês perdeu nesse ano o campeonato por meio ponto para Niki Lauda.

Se o Grande Prémio tivesse ido até ao fim e atribuída a totalidade dos pontos, teria provavelmente sido campeão do mundo. No final, Senna pensava que tinha ganho a corrida e terá chorado quando lhe informaram que a classificação que contava era a da volta anterior à amostragem da bandeira vermelha.

A primeira vitória demoraria mais um ano e chegaria no Estoril, a 21 de abril de 1985, em dia de chuva, pois claro. Senna pensou que a Lotus lhe poderia permitir lutar pelo título mundial, mas a falta de fiabilidade retirou-lhe essa hipótese nos três anos ao serviço da equipa.

Conseguiu apenas seis vitórias, mas 16 ‘poles’, um número impressionante que fez levantar suspeitas de batota no ‘paddock’. Gérard Ducarouge, engenheiro e designer da Lotus, recorda-se de ter desafiado os responsáveis da FISA a uma inspeção rigorosa: “Ninguém percebia que não estávamos a conseguir essas performances por causa do carro, mas sim por causa do piloto”.

O dom de conseguir voltas perfeitas nos últimos minutos das qualificações era inigualável. “Ninguém queria estragar a volta dele. Quando víamos o brilho do McLaren e do seu capacete literalmente abríamos caminho. Não queríamos ser o piloto que estragava a volta que toda o Grande Prémio queria ver”, recorda Martin Brundle, que fora rival do brasileiro na Fórmula 3, numa entrevista ao programa “Top Gear”, em 2010.

Em 1988, com a mudança para a McLaren-Honda, Senna estava finalmente em condições de lutar pelo título. O problema é que tinha como companheiro de equipa Alain Prost, então bicampeão do mundo, naquela que foi possivelmente a melhor dupla de pilotos de sempre, servida por um dos melhores carros de sempre, o MP4/4.

AQUELA RIVALIDADE
Era o último ano da era turbo, com motores que chegavam aos 1200 cavalos em qualificação, mudanças manuais e uma aerodinâmica ainda na Idade da Pedra. Os temerosos não tinham lugar nestes carros.

A rivalidade com Prost deu origem a uma das mais fascinantes histórias de sempre do desporto precisamente porque se tratavam de personalidades opostas: Senna, apesar de também ter um lado perfecionista, era emocional, extremamente agressivo em pista e fervorosamente católico – leitor dedicado da Bíblia, acreditava que Deus lhe tinha dado o dom de vencer. Prost, por seu lado, era calculista, odiava pilotar na chuva e correr riscos desnecessários, mas era melhor a encontrar os equilíbrios certos no carro. Este choque de personalidades tinha tudo para gerar faísca.

Em 1988, o confronto ainda foi gerido com elegância e Senna garantiu o primeiro título na penúltima corrida do ano, no Japão, para alegria dos engenheiros da Honda. A corrida foi uma demonstração de classe do brasileiro, que falhou a largada e caiu para o 14.º lugar. Porém, a superioridade dos McLaren – a equipa ganhou 15 das 16 corridas neste ano – e uma chuvada providencial permitiram-lhe recuperar até junto de Prost e depois ultrapassá-lo para chegar ao triunfo. O francês não ofereceu resistência.

A época ficou ainda marcada por uma volta que é um dos maiores mitos da Fórmula 1, até porque não ficou registada em vídeo. No Mónaco, Senna conseguiu a ‘pole position’ com um tempo quase um segundo e meio mais rápido do que Prost, o que é uma eternidade no desporto. Recordando esse momento, disse que se sentiu numa experiência extrassensorial, que estava para lá do estado de consciência e que foi como se estivesse a guiar num túnel em que só queria ir mais e mais rápido.

A guerra sem quartel só chegou em 1989 e, durante a época, os dois colegas de equipa deixaram de falar-se. Prost, que se movimentava melhor no intrincado xadrez político da Fórmula 1, acusou mesmo os engenheiros da Honda de favorecer Senna.

A MÍTICA CORRIDA

Tudo se decidiu mais uma vez no Japão, numa das corridas mais polémicas de sempre: Prost afinou melhor o carro e liderava a corrida quando Senna tentou uma manobra arriscada na chicane antes da reta da meta. O francês fechou a porta, os carros chocaram e o campeonato ficava assim decidido a seu favor, pensou. Puro engano, porque Senna conseguiu pôr o motor de novo a funcionar, foi às boxes mudar o nariz do McLaren e ainda conseguiu ultrapassar Larini e ganhar o Grande Prémio.

Mal reparou que Senna tinha conseguido prosseguir, Prost correu para a zona dos comissários e não é segredo que tinha uma grande amizade com o então presidente da FIA, Jean-Marie Balestre. Senna foi desqualificado por ter cortado caminho pela escapatória da chicane após o acidente e perdeu a hipótese de lutar pelo título. Os comissários garantem que a decisão foi tomada sem Balestre entrar sequer na sala. Prost rumou à Ferrari e a luta entre os dois continuou em 1990.

Nessa temporada, o jogo de palavras foi mais uma vez uma constante. “O Ayrton tem um pequeno problema, ele pensa que não se pode matar porque acredita em Deus, e julgo que isso é muito perigoso para os outros pilotos”, acusou Prost. Jackie Stewart, outro tricampeão do mundo (1969, 1971 e 1973), encostou Senna à parede numa célebre entrevista em 1990, em que sua a inabalável vontade de vencer foi finalmente transposta em palavras.

“Quando há um espaço para ultrapassar, ou nos comprometemos a usá-lo como um piloto profissional que trabalha para vencer ou terminamos em segundo, terceiro ou quinto. E eu não trabalho para terminar em terceiro ou quinto, eu corro para ganhar. Se não se ataca um espaço que existe para ultrapassar, já não se é um piloto profissional.”

A entrevista decorreu depois de, pelo terceiro ano consecutivo, em 1990, o título mundial ter sido decidido entre Prost, agora na Ferrari, e Senna, que tinha conquistado a ‘pole position’ mas estava no lado sujo da pista. O pedido para que trocassem a ‘pole’ para o lado contrário foi recusado e Senna admitiu mais tarde que decidiu nesse momento que Prost não passaria da primeira curva, caso passasse para a frente. Assim sucedeu e o segundo título mundial do piloto de São Paulo ficou entregue.

Stewart recorda que ficou chocado com a manobra e com a resposta na entrevista, após a qual Senna garantiu que não falaria mais com o escocês. Mas, passado um ano, Senna ligou-lhe para anunciar que ia assumir publicamente a premeditação do acidente.

O HOMEM COMPLEXO

A personalidade de Senna era contraditória em várias facetas e o comportamento em pista era uma delas. Por um lado, era capaz de pôr em risco a sua vida e a de terceiros para vencer; por outro, era um dos pilotos mais ativos na defesa da segurança das corridas. Em 1990, numa das inspeções que gostava de fazer aos autódromos, teve a oportunidade de evitar a próprio morte, quando inspecionou com o então companheiro de equipa Gerhard Berger a perigosa curva Tamburello.

Concluíram que não havia nada a fazer, porque um riacho impedia que a escapatória fosse aumentada – mas muito poderia ter sido feito, como a construção de uma chicane, obra efetuada após o acidente de 1994, ou a mera colocação de uma barreira com pneus.

Outro episódio: em 1992, Érik Comas, da Ligier, despistou-se na qualificação para o Grande Prémio da Bélgica e ficou inconsciente. Senna foi o primeiro a passar e, num ato raríssimo no desporto automóvel, parou o carro em plena pista e correu para socorrer o francês. Percebera que Comas estava inconsciente e que o acelerador do Ligier tinha ficado preso com o motor ainda a funcionar, pelo que havia risco de explosão. Senna desligou o motor e pode ter-lhe salvo a vida.

O TRI

Em 1991, conquistou o terceiro título mundial, novamente pela McLaren, numa temporada de transição para o acentuado domínio que a Williams-Renault exerceria em 1992 e 1993, em que Nigel Mansell e Alain Prost se sagraram campeões. No final da época de 1992 chegou a oferecer-se para correr de graça pela Williams, mas o contrato do francês para 1993 tinha uma cláusula anti-Senna: o companheiro de equipa podia ser qualquer pessoa menos ele.

Contrariado, passou grande parte da época assinando múltiplos contratos de apenas uma corrida pela McLaren, cada uma a troco de um milhão de dólares. Terminou como vice-campeão, mas a temporada de 1993 foi uma das mais divertidas e brilhantes da carreira.

Com um carro muito inferior, especialmente a nível de motor – a Ford fornecia uma versão de segunda à McLaren porque o compromisso oficial era com a rival Benetton –, venceu cinco corridas, incluindo o inesquecível Grande Prémio da Europa em Donington, Inglaterra. Foi nesta corrida – à chuva, claro – que Senna fez aquela que é unanimemente considerada a melhor volta de sempre na Fórmula 1. Partiu em quarto lugar da grelha e desceu para quinto lugar após a primeira curva, mas no final dessa primeira volta já estava em primeiro, após passar como faca quente em manteiga por Michael Schumacher, Karl Wendlinger, Damon Hill e Alain Prost.

Para se perceber a genialidade desta volta, atente-se no facto do circuito – nunca mais utilizado na categoria máxima do desporto automóvel – ter sido criticado por ter falta de pontos de ultrapassagem e repare-se nas trajetórias completamente diferentes em relação aos outros pilotos. “Ele tinha um sexto sentido para perceber onde podia encontrar aderência. Se quiser saber o que era o Ayrton Senna como piloto aqui está ele, em síntese”, analisou o ex-piloto Martin Brundle.

Na última corrida de 1993, na Austrália, Senna vence e Prost, que tinha anunciado a sua retirada, fica em segundo. O brasileiro chama Prost para o lugar mais alto do pódio e começa aí um rápido processo de reatamento da relação entre os dois.

Numa entrevista ao ‘podcast’ “Beyond the Grid”, o francês conta que passaram a falar telefonicamente com muita regularidade, para espanto do próprio, que se tornaram amigos e que há confissões que o brasileiro fez que irão com Prost para a cova.

ADRIANE E MORTE
Os meses antes da morte foram um período de muitas mudanças para Senna: para além de uma nova equipa – em que terá sentido um ambiente algo frio para as suas expetativas –, tinha uma nova namorada: após quatro anos de um relacionamento intermitente com a apresentadora Xuxa, estava agora apaixonado pela modelo Adriane Galisteu, 13 anos mais nova – pessoas próximas do casal garantem que o casamento estava nos planos.

Há um facto que corrobora esta tese: pela primeira vez na carreira, Senna iria passar a temporada europeia da Fórmula 1, entre abril e outubro, na sua casa na Quinta do Lago, no Algarve, precisamente com Galisteu. Era lá que a modelo estava no fatídico dia 1 de maio de 1994, esperando que Senna regressasse ao final da tarde para iniciarem uma vida em comum.

Uma das poucas certezas que existem sobre o trágico fim de semana de Imola é que Senna estava extremamente pressionado: pela temporada que tinha começado com dois abandonos nos dois primeiros Grandes Prémios, pelo desconforto que sentia a conduzir o Williams – agora despido das inovações tecnológicas que lhe tinham permitido dominar nos dois anos anteriores, devido a mudanças regulamentares –, pela pressão familiar em relação à namorada – no funeral, Xuxa foi tratada como “viúva oficial” pela família e Adriane Galisteu mantida afastada – e pelos negócios que estava a montar para quando abandonasse a Fórmula 1.

No funeral em São Paulo, com honras de estado, ter-se-ão reunido cerca de três milhões de pessoas nas ruas e estradas entre o aeroporto de Guarulhos e o cemitério de Morumbi, naquele que é considerado o mais concorrido cortejo fúnebre de sempre.

Senna, implacável nas pistas e amante das coisas boas da vida fora deles, era também um herói nacional e um filantropo, que doava milhões para causas sociais, a maior parte das vezes sob anonimato.

O MELHOR DE SEMPRE?

Ainda se lembra da pergunta do primeiro parágrafo do texto? um tributo do programa “Top Gear”, o atual campeão do mundo Lewis Hamilton conta onde estava há 25 anos e os pilotos Fernando Alonso, Felipe Massa, Rubens Barrichello, David Coulthard, Mika Hakkinen e Michael Schumacher dizem que consideram Senna o maior piloto de todos os tempos. O documentário homónimo, realizado em 2010 por Asif Kapadia, fez com que gerações que nunca viram Senna correr sejam fãs do brasileiro, mas não escapa a uma tendência demasiado apologética – afinal de contas, foi aprovado pela família.

Na opinião deste jornalista, os meros 16 minutos desta reportagem do “Top Gear” concentram muito melhor a genialidade e complexidade da personalidade de Ayrton Senna da Silva, que deixou o mundo como viveu: na frente de um Grande Prémio, a testar os limites. No meio de todas as dúvidas sobre as causas do despiste em Ímola, a telemetria mostra que Senna pode muito bem ter morrido porque, antes de travar para evitar bater contra o muro, procurou manter o carro em pista até ao último momento. O insaciável desejo pela vitória terá sido fatal – quando iniciou a travagem, já era tarde demais.

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