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O regresso dos Srs. “Não me cites”…

Gustavo Costa (DR)

Nováfrica / por Gustavo Costa / Novo Jornal

Vindo Aldemiro do Tarrafal, onde passara alguns anos encarcerado pela PIDE, com a geração daquela época, na Rádio Nacional de Angola e no “Jornal de Angola”, cultivei, no plano pessoal, grandes amizades e um manto de cumplicidades irrepreensível.

Com o “curriculum vitae” descodificado, a identidade de Aldemiro estava expressa num rosto sem véu. Na sua inocência jornalística, não se vislumbrava maldade alguma. Com a sua ida para a Presidência da República, nos primórdios da década de oitenta, continuou a não se lhe observar qualquer sinal de cirurgia plástica na imagem, mesmo sabendo que as relações entre os porta-vozes e os jornalistas estão sempre sujeitas a altos e baixos. Com o tempo, assim passaria, no entanto, a ser também com o Aldemiro.

Embora pessoalmente não tivesse quaisquer razões de queixa, houve quem já então começasse a denotar nele indícios de uma lenta metamorfose. Com o tempo, esses indícios acabaram por dar lugar a evidências. À medida que se foi entranhando nos interstícios do poder, com malabarismos à mistura que chegaram a ameaçar o meu futuro como jornalista, a minha relação profissional com Aldemiro, aqui e ali, também passou a ser salpicada com alguns desencontros que foram geridos por mim sempre sem dramas.

E, em matéria de desencontros, a uma outra escala, o mesmo foi sucedendo também com os adidos de imprensa que, no estrangeiro, passaram a comportar-se mais como empregados dos ministros da tutela ou criados dos embaixadores para que trabalhavam do que propriamente como jornalistas.

Com mais medo do que respeito, os jornalistas passaram a ver em Aldemiro mais um velho burocrata da máquina de propaganda do regime do que propriamente um oficial do mesmo ofício. O mesmo, no plano doméstico, voltaria a suceder ainda com muitas das suas “réplicas” nos Ministérios e nas empresas públicas.

Neles passámos a ter porta-vozes que se distinguiam pela sua mudez e opacidade da sua identidade. Perante a necessidade de os jornalistas obterem uma informação, na maior parte dos casos, passou a surgir uma “burka” no rosto de quem a veiculava com seriedade aparentemente insuspeita. Neles havia, afinal, sempre uma parte da história por contar. Neles havia, afinal, sempre um outro lado do rosto por destapar…

Aldemiro Vaz da Conceição (DR)

Em muitos casos, agiam e insistem em continuar a agir como se fossem “agentes secretos”, que podem debitar os seus palpites mas sem nunca poderem ser identificados como fontes com nome e endereço próprios. Cada dado que fornecesse, notícia que confirmasse ou informação que desmentisse, Aldemiro, por exemplo, acrescentava invariavelmente a sua fórmula mágica de autodefesa: “Não me cites”!

Quando lhe convinha, saía do armário e largava a notícia, mas, ao baixarmos o vidro do carro, percebíamos logo que estávamos diante de uma “mão-de-vaca” em matéria de informação. Tudo era e continua a ser gerido a conta-gotas, à medida da estrutura securitária do regime. Tudo era e continua a ser dado à medida das conveniências da correlação de forças dos grupos de influência.

Tudo era e continua a ser dado ao sabor do lado para onde sopra o vento. A fórmula fez escola. E hoje a maioria dos governantes continua a resvalar para uma “abusiva recusa” em dar à imprensa “informação relevante de interesse público”, como se tudo pudesse representar uma ameaça à segurança do Estado.

E, quando dão uma informação, tratam logo de impor a velha fórmula “aldemiriana”, como se estivéssemos em presença de um regresso activo do “Sr. não me cites”. A maioria dos governantes continua, por outro lado, a não ter noção do papel dos assessores de imprensa.

Estes são arregimentados, afinal, para fazerem propaganda da sua imagem em vez de serem tidos como profissionais de uma comunicação de serviço público, eficaz e presente. Não se compreende, por exemplo, que participem em missões tão importantes como as “Reuniões da Primavera” em Washington, com o FMI, e não se façam acompanhar por um assessor de imprensa.

Um jornalista a exercer essa função deveria lá estar para preparar os “briefings” com os mais importantes meios de comunicação social estrangeiros ali acreditados e não actuar, à distância, como “bombeiro” pago para, à última hora, apagar os “incêndios” a partir de Luanda… Anda-se por ali ainda de mãos dadas com muito amadorismo.

Anda-se por lá com um gosto mórbido para não querer aprender a comunicar, afinal, um dos eternos “Calcanhares de Aquiles” deste regime… Impondo uma espécie de autocensura, com essa atitude, os governantes tendem a pôr em xeque as competências do jornalismo no escrutínio dos seus poderes ao mesmo tempo que ficam a salvo da prestação do serviço público que lhes é exigido pelos cidadãos.

Esquecem-se de que esse e outros anacronismos, que colocam as fontes oficiais permanentemente sob anonimato, descredibilizam o trabalho dos jornalistas. Em presença de tempos que não mudaram, hoje por hoje, permanece de pé um tapume opaco sobre determinadas informações, persistindo em vários círculos do poder a ideia de que “segredos do Governo são segredos do Estado”.

Mas pior do que bloquear o acesso da informação aos jornalistas é a forma ardilosa como alguns porta-vozes utilizam a mentira e recorrem à manipulação. O “Sr. não me cites” reproduziu-se em série e os seus estragos transportam três vírus que andam a contaminar o debate livre e informado feito com base num “jornalismo plural, cosmopolita e defensor dos valores democráticos”: a falsa notícia, a contra-informação e a manipulação.

Do lado do governo e da oposição, distinguem-se alguns dos seus especialistas nesta arte, que, nas hostes propagandísticas das respectivas agremiações, ao gerarem discípulos, não se cansam de provocar danos irreparáveis à tribo jornalística.

Porque recordar é viver, vítima do espírito maligno da manipulação e da mentira, ainda me lembro do dia em que, aqui há coisa de vinte anos, numa das suas rasteiras, Aldemiro me garantia, a pés juntos, que “Savimbi telefonou ontem a José Eduardo dos Santos”. Então a colaborar, sob pseudónimo, num diário português já extinto, fiz da revelação uma manchete, resvalando, sorridente, para uma armadilha imperdoável.

Que ingenuidade a minha! Esquecera-me de que o antigo Presidente, que nem com Mandela anos mais tarde aceitaria falar ao telefone, jamais dera o seu contacto ao antigo líder da UNITA… Confiara em Aldemiro quando, na verdade, não estava, afinal, senão perante uma mentira tão grave, que só por um triz não pôs fim à minha actual condição de decano dos correspondentes da imprensa estrangeira em Angola, com 30 anos de carreira ao serviço do Expresso. Estava, afinal, perante o outro lado do rosto de Aldemiro.

Ao lançar partículas de nevoeiro sobre as notícias, os especialistas na arte da mentira fazem da manipulação um vício, e Aldemiro manteve esse vício aceso mesmo quando, relegado para um plano secundário, foi despachado para o GAPI — Gabinete de Acção Psicológica —, substituído, enciumado e com indisfarçável amuo por José Patrício…

Passíveis de serem utilizados como produtos descartáveis, os jornalistas — hoje mais do que ontem — têm a obrigação de estar atentos à acidez do fel de informações enganadoras que jorram sobre as redacções sem que os seus transmissores se preocupem em olhar para a escala das mazelas.

Os efeitos destes danos servem de lição para um jornalismo que se exige dotado de capacidade para atrair o respeito e o galanteio da opinião pública.

Para isso, em vez de subserviente, propagandístico e manipulável, o nosso jornalismo precisa de ser profissional, isento e permanentemente comprometido com a verdade, resistindo à mercantilização material, à instrumentalização política e à sabujice partidária, para não ser alvo de escoriações irreversíveis para a sua imagem.

E quanto à chantagem que virou moda na conduta indecorosa de pseudo-jornalistas especializados na arte de extorquir dinheiro a figuras públicas, é hora de as vítimas deixarem de bocejar. Mesmo sabendo que há muita gente com rabos-de-palha, é hora de muitas dessas figuras agirem com recurso ao poder judicial. É hora de saírem da caserna. É hora de tocarem a corneta. Quem não deve não teme! Ou não será assim?…■ (Novo Jornal)

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