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Revivalismo e memória da Música Popular Angolana

Jornal de Angola

Legalize é um intérprete profissional com passagem pela Europa (Fotografia: Edições Novembro)

Legalize mantém viva a memória da Música Popular Angolana da época colonial, um dos seus mais notáveis méritos, revisitando a intemporalidade das canções de David Zé, Artur Nunes, Kinito e Teta Lando, as suas principais referências musicais.

Legalize, nome atribuído ao cantor por uma amiga durante o período de legalização dos angolanos em Portugal, recordou, visivelmente nostálgico, as memórias da infância e os primeiros contactos com a música.

“Sempre cantei e julgo ter sido um impulso natural. Recordo-me que, quando era criança, os mais velhos gostavam de me ouvir cantar. No entanto, nunca pensei que seria um cantor a sério. O profissionalismo surgiu depois em Portugal, quando me juntei a um grupo de angolanos, com propensão para a música. Nessa época, cantar era também uma forma de esquecer os maus momentos da vida e matar saudades de quem estava muito longe da sua terra”.

Do bairro Rangel, onde nasceu em 7 de Setembro de 1975, Legalize guardou as recordações de um ambiente que fervilhava de música, um contacto primário que veio depois a marcar o início de uma carreira que se concretizou, de forma profissional, muito mais tarde. Aos 5 anos de idade, Legalize deixou o bairro que o viu nascer e foi viver para o bairro Mártires de Kifangondo.

Frequentou a instrução primária nas escolas Bom Saber, Santa Teresinha e depois concluiu a 5ª classe na escola Ngola Kanini, em Luanda. É filho de Manuel Neto e de Domingas Baltazar, António dos Santos Neto.

As contingências do conflito armado no país levaram-no a emigrar para Portugal, em 1991, onde viveu 14 anos, e fez tudo para sobreviver: “Fui ajudante de pedreiro, estive nos navios, lavei pratos nos restaurantes, fiz de tudo um pouco para comer”, recordou Legalize.

Em 2000, Legalize integrou a banda “Sembaregaae” fundada por Ney Corte Real, percussão e voz, Zé Mueleputo, viola solo, João Cabeleira, viola ritmo, Sérgio Bolota, bateria, Caly, viola baixo, e Mestre Capitão, percussão e voz.

Com a saída de Ney Corte Real, da banda “Sembaregaae”, a formação mudou de nome e passou a designar-se “Tropical Roots”, banda com a qual Legalize conheceu várias zonas de Portugal, incluindo Porto e Algarve.

Depois associou-se, em 2000, ao movimento “Fã kamba reggae”, como MC e trabalhou com os DJ Lopes Cortês, Príncipe Wadada e Bad Spirit: “Naquela altura estava muito presente a minha intenção de cantar. Sempre gostei das coisas da terra e sou claramente influenciado por David Zé, Urbano de Castro, Artur Nunes e Sofia Rosa. No entanto, o reggae e as canções de Bob Marley sempre me tocaram. Fui muito motivado pelo “Fã kambareggae”, um movimento rasta que existiu em Portugal nos meus tempos de exílio, que veio a descobrir muitos talentos”.

Em 2002, ainda a viver em Portugal, Legalize apresentou-se em França e Espanha, com a Banda “Kussundolola”, de Janelo Costa.
Legalize já dividiu o palco com o histórico conjunto Jovens do Prenda, grupo “Os Tuneza”, Zeca Torres, voz e teclado, Calili, baixo, Elisa Barros, voz, Chiley, viola ritmo, na banda “Mizangala DT”, e na Banda Yetu, de Fiel Didi, voz, Luís Lau, voz, Zé Mueleputo, viola solo, França, viola ritmo, Matias, viola baixo, Hugo Macedo, teclas, Chalita, bateria, Graça e Chikilson, congas, e Lito Braga, nas teclas.

Preconceito

Actualmente há muitos artistas que cantam em línguas nacionais e são muito bem recebidos pelo público, mas, segundo Legalize, nem sempre foi assim.

“Quando comecei a cantar a recepção foi muito diferente da actual. Havia o preconceito de que cantar em inglês era sinónimo de modernidade. Julgo ter sido um dos primeiros, sobretudo dos jovens da minha geração, a interpretar canções referenciais da história da Música Popular Angolana. Hoje o panorama artístico mudou e muitos enveredaram pela valorização do património musical, um comportamento que julgo muito positivo”.

Carnaval

O Carnaval, enquanto festa popular, tem despertado o interesse de Legalize que se revelou como compositor do Carnaval, em 2011, com a canção “O trabalho dignifica o homem”, género semba, do grupo infantil União Cassules do Fogo Negro, do município da Maianga, que tem como comandante Augusto Correia, grupo de Carnaval fundado no dia 1 de Janeiro de 1996.

Na edição 2014, do Carnaval de Luanda, Legalize foi convidado por António de Oliveira, um dos responsáveis da Aprocal, Associação Provincial do Carnaval de Luanda, a interpretar a canção “Dimba Dya Ngola”, do grupo União Dimba Dya Ngola. Na edição seguinte interpretou a canção “O kwanza agora é novo”, da autoria de José Luís Martins, “Xabanu”, integrante do referido grupo.

Discografia

Em 2003, Legalize gravou em Portugal o CD “Deus vive”, que inclui as canções “Ndengue da banda”, “Dreadlock na city”, com participação especial de Prince Wadada, “Mbora bailar”, “Tambi”, “Genesis”, “Origens do mundo”, “Reggae Negro”, “Mãe Angola”, “Reggae rasta”, “Angolamente dub” e “Mbora dançar dub”. “Deus vive 2” foi regravado em Angola, em 2006, pelo INALD, Instituto Nacional do Livro e do Disco.

Legalize gravou depois, em 2011, o CD “Mulundu” que inclui os temas “Rumba mulundo”, “Angola”, “Bilingueiro”, com participação especial de Calabeto, “Kalumbayo”, “Gajageira”, “Luimbi”, “Planké”, “Arroz doce”, “Da blusa”, e “Naomi”, uma edição conjunta entre a BMAX, LS produções, Kriativa e Chicote Produções.

O disco teve a participação de Joãozinho Morgado, tumbas, Carlitos Tchiemba, viola baixo, Chalita, bateria, Gabi Moi e Calabeto, vozes, Livongue, teclas, Boto Trindade, viola solo, Zé Mueleputo, viola solo, Kintino, viola ritmo, Mias Galheta, viola baixo, e Carlitos Tchiemba, viola baixo.

O tema “Gajageira”, de Urbano de Castro, fez parte do projecto “Picante 2” do DJ Dias Rodrigues.

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