Portal de Angola
Informação ao minuto

Viúvo da “zungueira” morta pela Polícia Nacional consolado com três empregos

(Foto: O País)

Assinala-se hoje, 15 de Março, o Dia Internacional Contra a Violência Policial, numa altura em que a sociedade angolana foi surpreendida com o assassinado bárbaro de uma vendedeira ambulante, justamente por quem a devia proteger.

Consolar a família da vendedeira ambulante Juliana Cafrique, de 28 anos, assassinada friamente por um efectivo da Polícia Nacional (PN) em pleno exercício das suas funções, na Terça-feira, 12, na Avenida 21 de Janeiro, no Rocha Pinto, tornou- se um desafio para a corporação. No entanto, a verdade é que nenhum dos apoios materiais e financeiros que tanto Polícia como o Governo Provincial de Luanda (GPL) prometeram prestar à família será suficiente para preencher o vazio que a ausência dela está a criar aos filhos de seis meses, 2 e 7 anos de idade, bem como ao viúvo.

De acordo com OPAÍS, até ao final da tarde de ontem, Banguila Manuel Augusto, o viúvo que está há dois anos desempregado, foi “consolado” com três propostas de emprego feitas pelas duas instituições públicas acima mencionadas e pela UNITA, o maior partido político na Oposição. No período da manhã, a nossa reportagem encontrou uma equipa de efectivos da PN, liderada por um intendente, em casa do óbito, a concertar com a família os apoios que seriam prestados durante as exéquias fúnebres e não só.

“Eles também prometeram ajudar nas despesas do óbito com valores monetários e alimentos”. O esposo da malograda, sem avançar detalhes, disse que ficou a promessa por parte da corporação de responsabilizar-se pelos três filhos e garantir um emprego para si. Nesse período, receberam a visita de Helga Eduardo dos Santos, ministra do Ambiente no Governo Sombra da UNITA, que descreveu a ocorrência de revoltante e prometeu abordar o assunto com o Ministro do Interior, Ângelo da Veiga Tavares.

Além de manifestar o sentimento de pesar à família enlutada, prometeu, em nome do seu partido, auxiliar na alimentação e educação dos filhos, bem como emprego para o marido da malograda. Já no período da tarde, uma delegação do GPL, encabeçada pelo governador Sérgio Luther Rescova, compareceu na casa do óbito para prestar solidariedade à família enlutada e prometeu contribuir no sustento das três crianças órfãs.

O pedreiro e ladrilhador Banguila Manuel Augusto está há dois anos desempregado. Durante esse período, o sustento da sua família era garantido pela malograda Juliana Cafrique, com os parcos recursos financeiros que arrecadava com a venda de produtos diversos no mercado paralelo da Padaria, localizado no Rocha Pinto.

Um percurso sem regresso

No fatídico dia de Terça-feira, a vítima chegou à sua bancada num horário diferente do habitual, pois passara quase todo o dia lavando a roupa do esposo e dos seus três filhos. Juliana Cafrique perdeu a vida nos braços de Rosa Manuel, a cunhada com quem partilhava a bancada da Praça da Padaria nos últimos oito anos, vendendo tomate, cebola, batata-doce e rena, entre outros hortícolas. Entretanto, no dia da sua morte, depois de lhe ser disparada uma bala na cabeça, por volta das 17h, não lucrou sequer 100 Kz, pois no mesmo instante arrumava a sua bancada, como explicou a sua cunhada. Para além de assegurar a alimentação da família, era de Juliana a responsabilidade de pagar a renda de casa.

Autores do disparo alegadamente embriagados

Rosa Manuel, que trabalha neste mercado há mais de 15 anos, conta que tanto o autor da morte da sua cunhada, como os outros dois agentes, que faziam a patrulha no local, estavam embriagados e aparentemente determinados a matar quem ousasse contrariar as suas ordens. Este facto foi afirmando por outras vendedeiras. “Quando chegaram, o chefe da patrulha, Manuel Implacável, disse ao seu colega que pode matar. É ordem do chefe. Essas senhoras são muito teimosas.

O primeiro tiro roçou no braço de uma colega e quando tentamos fugir o segundo atingiu na cabeça da Juliana”, descreveu, com os olhos em banho de lágrimas. Recordou que, ao vê-la estendida ao chão, os agentes subiram na viatura e meteram-se em fuga o que terá motivado a revolta das vendedoras que esperavam que a sua colega fosse socorrida de imediato pelos agentes da Ordem Pública. Rosa Manuel prestou estas declarações a OPAÍS, sob o olhar atento de outros familiares e das colegas (vendedeiras) que não deixavam escapar nenhum detalhe, enfatizando que “era recorrente os mesmos agentes fazem patrulhamento na praça embriagados”.

Uma praça com mais de 20 anos O local do tumulto do Rocha Pinto, conhecido como Praça da Padaria, existe há mais de 20 anos, aliás, a nossa interlocutora disse que já trabalhava neste espaço quando um dos seus filhos, que conta agora com 16 anos de idade, veio ao mundo. As comerciantes alegam que a Administração do Rocha tem conhecimento da existência da praça e as terá orientado a tratarem cartões de contribuinte e a anexarem uma fotocópia do Bilhete de Identidade para lhes serem passados os cartões de vendedoras.

Feridos inspiram cuidados

Os familiares das outras vítimas dos disparos efectuados por polícias no mesmo dia lamentam a forma como a corporação está conduzir o processo e dizem estarem entregues à sua sorte. Um dos tiros, que atingiu Domingos Kiala, 19 anos, perfurou- lhe o fígado e o diafragma. Até ao final da tarde de ontem já havia sofrido duas operações cirúrgicas no Hospital do Prenda, onde se encontra, na Unidade de Tratamento Intensivos (UTI ).

Em entrevista a OPAÍ S, Elíades Yavanua, o pai da vítima, descreveu o estado do seu filho como sendo crítico, por se encontrar inconsciente até ao fecho desta edição. “A Polícia deu tiro da barriga do meu filho e abandou-o aqui no hospital. Até hoje não fez nada. Quem vai assumir a responsabilidade?” Questiona Elíades Yavanua. Em conferência de imprensa realizada Quarta-feira, 13, o intendente Mateus Rodrigues, porta-voz da corporação em Luanda, admitiu a existência de outros cinco cidadãos atingidos por disparos de armas de fogo na sequência do tumulto e que se encontram gravemente feridos.

Associação responsabiliza GPL pelas mortes de zungueiras

A Associação dos Vendedores Ambulantes de Luanda (AVAL ) disse que os casos reiterados de mortes de zungueiras tendem a continuar, pelo facto de não existir responsabilização dos infractores. O presidente da AVAL , José Cassoma, disse não notar o interesse da Procuradoria- Geral da República (PGR ) e do Ministério da Justiça e dos Direitos nos casos que envolvem violação dos direitos das zungueiras. Cassoma, que coordena mais de 4 mil zungueiras, disse que a AVAL vai solicitar o patrocínio judicial da Associação Mãos Livres na constituição um advogado para os familiares de Juliana.

“Vamos exigir uma indeminização do Estado para apoiar os filhos da vítima”, realçou. Por fim, José Cassoma responsabilizou o GPL pelas mortes das zungueiras, por, alegadamente, se recusar a dialogar com a associação, a fim de encontrarem soluções da ‘zunga’ na capital.

Também pode gostar

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está bem com isso, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar Leia mais

Translate »