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Moçambique: “FRELIMO leva saco de gatos às costas para o comité central”

Filipe Nyusi, Presidente de Moçambique e líder da FRELIMO (DR)

Um comité central decisivo para o partido no poder é o que se prevê na próxima semana. Jogadas astutas já estão em curso nalguns casos, e outros assuntos “cabeludos” não deverão passar de conversa de corredor.

É com um “saco de gatos” às costas que a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO, no poder) entra para o seu comité central que decorre de 22 a 24 de março na Matola, entende o jurista e analista António Frangoulis citado pela DW África.

As dívidas ocultas, a divulgação de conversas comprometedoras entre o ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, e a ex-secretária particular do ex-Presidente Armando Guebuza, Inês Moiane, e o caso Samito são apenas os temas mais problemáticos que estarão em cima da mesa.

Relativamente ao filho do ex-Presidente Samora Machel, Samito, Frangoulis entende que alguma sagacidade pode estar subjacente a resolução do caso: “Uns dizem que seria mau expulsar o Samito, porque isso havia de lhe dar um capital político maior do que o que tem até agora. Outros que dizem que não, que os estatutos do partido devem ser devidamente observados. E alguns dos que defendem essa posição devem querer um resultado perverso, quer dizer, ser expulso, para que ele saia com maior capital político.”

O analista lembra que é preciso “olhar para muitos casos que, do anonimato, aparecem de repente a pontuarem extraordinariamente mais dos que já estavam a muito tempo a jogar na mesma política. Os políticos sabem disso, que a vitimização dá um capital político a vítima ou ao vitimado.”

Estratégia de “minimização” da imagem de Samito

Samito, membro da FRELIMO, tentou concorrer às autárquicas com o apoio de uma organização da sociedade civil. Mas a lei foi estrategicamente aplicada na reta final para o travar.

O partido no poder terá aberto um processo interno contra ele e advinhava-se a sua expulsão neste comité. Mas uma reviravolta aconteceu e Samito já foi ouvido esta semana por uma comissão da FRELIMO, o que deverá diminuir a relevância do seu dossier no comité central.

Determinados setores falam num esforço em aproximar Samito ao Presidente Filipe Nyusi, pessoas que teriam ligações muito próximas. Os dois foram colegas de escola primária da FRELIMO em Tunduro, Tanzânia. E se estrategicamente se reduz a intensidade do furacão Samito, por outro lado há sinais que são entendidos como de risco para a continuidade de Filipe Nyusi como Presidente, apesar de formalmente ele ser o candidato confirmado há bastante tempo.

Impactos do caso das dívidas ocultas para Nyusi?

Frangoulis lembra que “por aí fora, a boca miúda, [diz-se que] está em cima da mesa a hipótese de se candidatarem mais militantes lá dentro ao lugar de Presidente, esse vai ser um dos temas de agenda. Isso não se põe de lado, está todo o mundo a falar, está-se a falar de muita coisa.”

Ditam estas suspeitas essencialmente o caso das dívidas ocultas: primeiro, a maneira aparentemente pouco empenhada como o Governo de Nyusi assumiu o processo e, segundo, o facto de supostamente ter tido alguma participação enquanto ministro da Defesa na altura da contratação da dívida.

Mais recentemente, o seu nome foi citado no escândalo ligado às dívidas num áudio que terá sido vasado ao público. Na conversa se terá mencionado o facto de Filipe Nyusi ter adquirido propriedades com parte do dinheiro destinado a MAM, Proíndicus e EMATUM, empresas criadas com o dinheiro das dívidas.

FRELIMO firme no apoio a Nyusi?

Mas, ao que tudo indica, o partido no poder segue firme nas suas escolhas e não há vacilo quanto a continidade de Nyusi. Calton Cadeado, analista do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, afirma que “neste momento há um posicionamento dos órgãos da FRELIMO, que indicam que Filipe Nyusi vai continuar candidato do partido nas próximas eleições. É só ver o discurso da secretária da OMM, está a fazer um périplo pelo país, e o discurso é este da continuidade. Os discursos do dirigente da ACLIN também indicam isso e também da OJM.”

Mas o analista assume que outros interesses podem ditar outras direções: “Agora, provavelmente outras pessoas dentro do partido possam ter essa ideia, de contestar a liderança do Presidente. Se isso é meritório ou não, é outra discussão. Claro que isso pode acontecer, porque a FRELIMO é um partido com essa abertura.”

E os impactos dos áudios do ministro Celso Correia?

Com certeza, um momento oportuno para derrubar um Nyusi meio fragilizado. E, numa ação que é entendida como o patrocínio final dessa fragilização, o Presidente de Moçambique vê o seu nome mencionado em conversas vasadas entre o ministro da Terra, Ambiente e, Celso Correia e a secretária particular de Armando Guebuza, Inês Moiane, agora detida em conexão com o caso das dívidas. Que impacto terá o novo escândalo no comité central?

“Isso cria um certo desconforto na FRELIMO, sobretudo quando já se fala de alas puritanas e alas não puritanas dentro da FRELIMO, ou pessoas com um certo protagonimso no discurso público com ar de puritanismo e outros alegadamente responsáveis pela desmoralização da alma do partido. Então, isto vai colocar o debate a volta destas duas alas, mas não estou a ver o assunto a ir na agenda do partido para se discutir isso. Vai ser mais no corredor, ao nível do debate informal”, responde Cadeado.

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