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Argélia: Pressão continua após concessão parcial de Abdelaziz Bouteflika

(DR)

Após a retirada da candidatura a um quinto mandato do Presidente da Argélia Abdelaziz Bouteflika, anunciada nesta segunda-feira (11.3), e o adiamento das presidenciais de 18 de abril, analista considera que o fato não marca um recuo do campo presidencial, nem uma vitória da contestação.

Segundo a professora de Ciências Políticas na Universidade Argel 3, Louisa Dris-Aït Hamadouche, em declarações à agência de notícias AFP citada pela DW África, a mobilização da próxima sexta-feira (15.3) – a quarta consecutiva de manifestações -, dirá se as propostas de Bouteflika conseguiram, de facto, acalmar os protestos. “Se a mobilização continuar forte a nível nacional a resposta a estas propostas será evidente”, disse.

Nesta quarta-feira (13.3), professores começaram a se manifestar no centro da capital, Argel, pela manhã, antes de serem gradualmente acompanhados por muitos estudantes, privados de aulas. Cerca de mil pessoas estavam no local para protestar contra a extensão “sine die” [sem data fixa] do quarto mandato do Presidente Abdelaziz Bouteflika e por “um futuro melhor”, relatou um jornalista da AFP.

“Concessão inédita”

Face a uma contestação inédita desde à sua chegada à presidência, há 20 anos, o chefe de Estado argelino anunciou nesta segunda-feira que não disputará um quinto mandato e que as eleições de 18 de abril serão adiadas até que uma nova data seja marcada por uma “Conferência Nacional”. Esta deverá elaborar uma nova constituição, a aprovar em referendo.

Para a analista argelina Louisa Dris-Aït Hamadouche, as propostas apresentadas na segunda-feira por Bouteflika são “uma reprodução das propostas da carta de 3 de março, na qual anunciava a sua candidatura”, disse. “Estamos na mesma lógica e filosofia, o que explica as reações globalmente hostis”, acrescentou.

Na apresentação da sua candidatura ao Conselho Constitucional, Bouteflika comprometia-se a, caso fosse eleito, não cumprir a totalidade do mandato e retirar-se após presidenciais antecipadas, marcadas após uma “conferência nacional” para “debater, elaborar e adotar reformas políticas, institucionais, económicas e sociais”.

Com isso, o Presidente argelino empenhava-se na “elaboração e adoção, por referendo popular, de uma nova Constituição”. Entretanto, segundo explicou a referida analista, “a utilização da noção de retirada [da candidatura presidencial] visava criar o sentimento de uma vitória”, mas o Presidente prolonga o seu mandato e “autoproclama-se garante do processo” de transição.

A professora universitária assinala ainda que “não há retirada porque não há presidenciais” e quanto à data do próximo escrutínio para escolher o chefe de Estado, diz que “o prazo de um ano que foi mencionado” parece-lhe “muito curto”. “É preciso organizar a Conferência Nacional, elaborar e redigir uma nova Constituição, fazê-la aprovar por referendo e organizar presidenciais. E tudo isto leva tempo”, argumentou.

Transição política

Após os recentes protestos em massa, o veterano diplomata Lakhdar Brahimi é o esperado para orientar a transição política da Argélia. É visto como um possível candidato presidencial, e está próximo de Bouteflika.

O diplomata ganhou respeito de líderes estrangeiros e da elite política de seu país durante sua longa carreira. Brahimi foi ministro das Relações Exteriores e é um peso-pesado do establishment político argelino.

Em declarações à televisão estatal, após o anúncio de Bouteflika de que não se candidataria a um novo mandato, afirmou que “a voz do povo foi ouvida”. “Os jovens que tomaram as ruas agiram com responsabilidade, transmitindo uma boa imagem do país. Nós devemos transformar esta crise num processo construtivo”, acrescentou o veterano diplomata.

Entretanto, sua nomeação pode não funcionar bem com manifestantes exigindo mudanças rápidas. Aos 85 anos, Brahimi é três anos mais velho que o atual Presidente Bouteflika e da mesma geração que liderou a política do país desde a Guerra de Independência Argelina contra a França (1954-1962).

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