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Não é um momento de festa, e sim de resistência, diz viúva de Marielle na Sapucaí

(Folhapress)

Quando foi convidada para desfilar pela Estação Primeira de Mangueira no Carnaval deste ano, Mônica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco, viu a proposta com receio. O medo era de que a atitude passasse a impressão de celebração ou festa, escreve o Folha de São Paulo.

Só aceitou depois que o carnavalesco Leandro Vieira fez um tour detalhado com ela pelo barracão da escola, explicando o enredo que seria abordado e a ala específica em que ela sairia. O que a convenceu foi a ideia de que ela andará à frente de um grupo de pessoas de comunidades que alcançaram notoriedade através de seus próprios feitos.

“Eu não estou indo para a avenida para celebrar, eu estou indo para fazer um ato político”, disse ela à Folha na arquibancada da Sapucaí, enquanto aguardava a hora do desfile. “Não é um momento de festa. Eu e Marielle sempre entendemos o Carnaval como um espaço de resistência popular, e é isso que vou fazer.”

Com um dos desfiles mais esperados do segundo dia da Sapucaí, a Mangueira promete contar “a história que a história não conta”, falando de personagens importantes do país que não são retratados nos livros: negros, índios e/ou pobres. Marielle, que foi morta há quase um ano, aparece no refrão do samba-enredo.

“Salve os caboclos de julho / Quem foi de aço nos anos de chumbo / Brasil, chegou a vez / De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, diz a música, que “pegou” no Rio, sendo cantada até em protestos e bares na cidade.

As outras referências da canção são Maria Felipa, negra que lutou pela independência da Bahia, e Luísa Mahin, africana que articulou levantes de escravos no século 19, inclusive a Revolta dos Malês, também citada, em Salvador no ano de 1835.

Foi pela força da composição e do enredo da escola que Mônica aceitou desfilar. Mas também para manter vivas a memória e a representatividade da vereadora como mulher “preta, favelada e lésbica”.

“Se uma menina negra, de origem da favela, olha para a história da Marielle e vê que pode disputar um espaço de poder, isso ressignifica tudo e mostra que nem a vida nem a morte dela foram em vão”, diz. “É pelo que eu e ela sempre lutamos. É como diz a Mangueira: contar a história que a história não conta.”

Mônica diz esperar que a imagem de Marielle tenha, nesta noite, repercussão mundial. Além da Mangueira, a Unidos de Vila Isabel também homenageou a vereadora levando sua mãe, sua irmã e sua filha no último carro, atrás de uma faixa com os escritos “Marielle Presente”.

A alegoria puxava uma ala que remetia à escravidão e à cultura negra, mantendo o tom dos desfiles deste domingo (4) na Sapucaí e de sexta (2) e sábado (3) em São Paulo, no sambódromo do Anhembi.

Mônica Benício só pediu ao carnavalesco da Mangueira para não usar fantasia. Vai vestir uma roupa parecida com a do dia a dia, afirma. Ao final do desfile, junto da diretoria da Mangueira, virão também o deputado federal Marcelo Freixo e o vereador Tarcísio Motta (PSOL).

O assassinato de Marielle e seu motorista Anderson Gomes —a tiros dentro do carro quando voltavam de um debate político no centro do Rio— completa um ano no próximo dia 14. “O que me coloca na avenida hoje é que minha esposa foi executada num crime político e a gente continua há um ano sem saber quem mandou matá-la”, diz Mônica.

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