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“Não entro para política para fazer riqueza, entro para política quando já tinha o mínimo para viver”

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Em entrevista exclusiva ao Portal de Angola, o deputado pela bancada parlamentar da UNITA, Manuel Armando Da Costa Ekuikui, mais jovem deputado a Assembleia Nacional, fala do país, da vida interna do “Galo Negro” e da sua experiência na casa das leis.

Como avalia o tempo de governação do presidente João Lourenço?

Eu avalio a governação de João Lourenço em dois contextos; no primeiro o presidente João Lourenço introduziu um slogan para Angola, o MPLA assumiu o discurso do combate de todos os males que eles ao longo do tempo fizeram ao povo angolano, como é o caso da corrupção e do nepotismo.

Na segunda fase deveria sair do discurso para prática e o presidente não consegue sair do discurso. Tem forças que não lhe permitem avançar mais, ou se ele próprio avançar é capaz de morrer na ratoeira. Primeiro, transmitiu esperança, mas depois o povo voltou a mergulhar na falta de esperança e o país voltou a estaca zero. Logo, tem nota negativa.

Quando diz palavras para acções práticas o que quer dizer?

Das palavras para acções é deixar o discurso e implementar políticas capazes de gerar algum sentido de conforto ao povo. O cidadão comum tem que ver alguma mudança na governação do presidente senão não faz sentido nenhum.

Houve um aumento no salário da função pública, detenções de quem supostamente lesou o erário, acredita que é possível fazer mais em 16 meses?

16 meses é o acender a lâmpada, é pôr o motor a trabalhar e a gente consegue ver se o motor é capaz de gerar alguma transformação profunda.

Não houve melhorias durante este tempo?

Não melhorou nada e não vislumbramos futuro. Aumentou o salário da função pública, mas em contrapartida, as taxas e os impostos aumentaram, a moeda continua a desvalorizar-se cada dia que passa, vivemos uma situação caótica no país, onde nem um indivíduo que ganha ligeiramente bem consegue viver com algum conforto.

É contra o ‘pneu de socorro’ FMI?

Não sou contra o FMI nem nada disto, sou a favor de políticas públicas capazes de gerar algum conforto nas populações. As políticas públicas têm que se reverter na condição social do cidadão comum. Se este empréstimo é para alguma folga na condição financeira do povo estamos todos de parabéns.

Quando entrou para Assembleia tinha como principal foco defender as zungueiras e as pessoas carenciadas, sente que já mudou alguma coisa enquanto deputado?

Estamos num parlamento completamente complexo, onde o partido que sustenta o poder tem maioria parlamentar e que nem sempre as ideias contrárias são aceites. Portanto em Angola não existe o princípio republicano.

Mas há comissões de especialidades…

Os órgãos próprios para aprovar uma determinada norma que vai influenciar ou mudar a vida da população é o plenário. Aquilo que determinei como elemento de luta na minha estreia sempre que posso levanto à minha voz para defender os oprimidos e esta classe (zungueiras).

Cabe quem tem o poder Executivo fazer mudanças profundas. Porque o zungueiro é do MPLA, é da UNITA, FNLA ou PRS o zungueiro é angolano, as normas jurídicas devem surgir no sentido de proteger o elo mais fraco. Se eles veem para proteger a classe com poder não seremos capazes, num curto espaço de tempo, de ter uma classe média com consistência. Vamos ter classe alta sem pilares, e na mínima crise o país abana e cai, como é o que estamos a viver hoje.

Como avalia o desempenho dos deputados, de todos os partidos?

A Assembleia de um modo geral deveria fazer mais, no sentido de representar as ansiedades do povo e traduzi-las em normas jurídicas capazes de inverter o quadro. Mas de um modo acho que cada um faz o que pode dentro das suas limitações, como disse, tem um partido que tem maioria parlamentar a oposição toda não consegue suplementar, fazemos aquilo que está dentro das nossas possibilidades.

Como está a saúde interna da UNITA?

A UNITA goza de uma estabilidade pura, temos estabilidade, coesão interna e a serenidade no seio dos militantes.

A UNITA pretende no próximo congresso eleger um novo líder, aposta no rejuvenescer do partido ou na continuidade da geração de Samakuva?

Não tenho preferências, sou pela UNITA. Enquanto militante não tenho preferências, penso que o partido em dado momento vai encontrar o que é melhor para ele. Quando digo o partido falo em todas as estruturas.

Aposta no rejuvenescer do partido ou na continuidade da geração de Samakuva?

Não tenho preferências, enquanto militante disciplinado e bom aluno das lides partidárias penso que submeto-me naquilo que a maioria escolher.

Não tem uma ideia própria?

Tenho uma ideia própria, mas nem sempre a minha ideia é a correcta.

E qual é a sua ideia?

A minha ideia fica comigo (risos)

Foi feita agora a exumação dos restos mortais do Dr. Jonas Savimbi, acha que um funeral com honras de Estado seria motivo para sarar as feridas?

As honras de Estado ao Dr Savimbi seria simplesmente o reconhecimento do seu papel enquanto artífice da nossa independência, artífice do Estado Democrático e de Direito de Angola, enquanto artífice das Forças Armadas Angolanas, enquanto membro do primeiro Conselho da República, depois das eleições multipartidárias, mesmo não tendo tomado posse tinha um representante no Conselho da República, enquanto parte activa de todo um processo.

Mas isso não se pede favores, se quem detém o poder não quer hoje, o que é certo é que leva 10 ou 15 anos, o Dr Savimbi vai ter o reconhecimento por todos os feitos que alcançou ao longo dos anos. É uma figura que se destacou e escreveu o seu nome na história de Angola com letras de ouro, e ninguém vai apagar isso.

Aventa-se a hipótese de que se a UNITA no próximo pleito vença as eleições faça um novo funeral ao Dr Savimbi com honras de Estado?

É um processo, não devíamos esperar a UNITA ganhar. Para darmos exemplo de reconciliação, seria bom que assim fosse. Certamente que a UNITA no poder dá um outro tratamento não só ao Dr Savimbi como daremos um outro tratamento a Holden Roberto, o pai do Nacionalismo angolano, quer se goste ou não dele. Foi ele que começou a luta armada em Angola, não foi o MPLA, ele merece este estatuto. Daremos um outro tratamento a figura do presidente Neto e outras entidades que se destacaram ao longo dos anos. Se o MPLA não aceita, um dia teremos que reescrever a história e colocar as peças nos seus devidos lugares.

Sente-se a vontade por andar num Lexus de milhões quando boa parte da população não tem acesso a transportes públicos?

Há aqui duas questões simples, o Lexus em si só é uma marca, e naturalmente o que vai mal em Angola é a falta de justiça na distribuição da renda. Angola não é um país pobre, é um país capaz de dar um mínimo de dignidade aos seus cidadãos. Angola é um país capaz de dar até o subsídio de desemprego para aqueles que não têm possibilidades de trabalhar, mas quem gere o dinheiro público passa a ideia de que Angola é um país pobre, e as pessoas não podem viver com dignidade. Depois há o outro elemento, quanto custa efectivamente um carro? O estado pode importar carros. Estou a andar com um Lexus mas não consigo ir para o Dangereux ou Ramiros, estou limitado ao asfalto.

Será que preciso de tanto para andar só no casco urbano? O que é ser deputado, não é representar politicamente o cidadão? Que me dessem um carro que me conferisse maior dignidade e pudesse me levar lá onde posso chegar com facilidade.

Não entro para política para fazer riqueza, entro para política quando já tinha o mínimo para viver. Portanto não sou daqueles políticos que entra para fazer fortuna, encaro a política como uma missão nobre.

E como se sente ao andar num Lexus de milhões?
O Lexus não é meu, é propriedade da Assembleia Nacional, e sendo propriedade da Assembleia Nacional, atribuiu-me um carro para andar. Quando posso ando com este carro e quando não posso ando com um Suzuki Jimny. Se me perguntar do Suzuky vou dizer que sinto-me bem a andar neste carro.

Sente-se confortável no Lexus?

Não me sinto confortável. A injustiça gera violência, se a população tivesse a viver com dignidade naturalmente não haveria tanta reclamação em relação ao preço do carro. O problema é a injustiça na distribuição da riqueza nacional. O que acontece é que há um julgamento público em torno dos deputados, mas ninguém questiona por exemplo o facto do ministro ter um Volvo protocolar, ter um Lexus de campo e uma carrinha de campo. Todos os ministros e administradores têm isso mas ninguém questiona isso mesmo o país estando em crise.

Como avalia os anos de presidência do Dr Samakuva?

É o meu mentor, foi ele que me lança para ribalta da política, se hoje fala-se de mim alguém teve que abrir um caminho e dar lugar a um jovem. O presidente Samakuva é daquelas figuras que conseguiu estar a cima da UNITA. É uma figura que congrega todas as ansiedades. Nos anos que está na presidência do partido, como tudo, houve momentos altos e baixos, mas, penso que com o Dr Samakuva é um político hábil em todas as circunstâncias, nada em todas as águas. Guardo boas lembranças de vida do presidente e penso que fez o seu caminho, escreveu a sua história e ninguém há de conseguir tirar o nome dele da história da UNITA de Angola, tal como ele a escreveu.

Fale um pouco do general Numa…

É dos quadros mais puros da UNITA. Encarna Muangai, vive a UNITA e sente a UNITA.

É presidenciável?

Não sei se é presidenciável. Quero falar do general Numa como militante. É um militante honesto e vive todos os dias a UNITA. É de palavra, tinha possibilidade de estar neste momento no parlamento mas abandonou para dar espaço aos jovens. Para mim os verdadeiros patriotas são aqueles que abandonam à zona de conforto para ir na zona de risco e continuar o combate. O General Numa tem o meu respeito e faço-o publicamente sem nenhuma reserva. É dos quadros mais verticais da UNITA.

Nalguns círculos a UNITA é tida como um partido regionalista, como encara esta ideia?

Isto não é verdade e podemos falar de exemplos. Nfuza Muzemba chegou a secretário-geral da JURA, não tinha parentes na UNITA, chegou a deputado, Nfuca é do Uíge, o Sebastião Salakiaku é do Uíge, é comissário no Gulungo Alto, foi secretário nacional da Comissão e Marketing da JURA, o Osvaldo Júlio é comissário provincial da UNITA em Luanda, é de Luanda. José Eduardo é deputado e cresceu no Rangel, João Lukombo e do Uíge e foi secretário nacional da JURA hoje é assessor do Grupo Parlamentar da UNITA. Portanto, esta ideia é errada.

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