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Morte, violência e estrelato. Quem tem medo do trap, o novo fenómeno do hip-hop?

Blitz

Tekashi 6ix9ine (DR)

Aviões privados e venda de droga, Lamborghinis e crimes que dão posts no Instagram – aspetos que marcam uma cultura que tem dividido opiniões em todo o mundo. As vendas astronómicas viram o trap erguer algumas das mais vigorosas novas estrelas pop americanas, como Travis Scott, mas também alguns casos dramáticos, como o de Tekashi 6ix9ine. Explicamos como a música que armadilhou a América pode ser, com todas as suas contradições, o futuro da pop.

“Travis Scott quer ver Kylie Jenner antes que o seu avião privado descole, mas como já vai atrasado, carrega no acelerador do seu Lamboghini SUV e leva o velocímetro à histeria”. Começa assim o artigo de capa que a ‘Rolling Stone’, no seu último número do ano, dedicou a Travis Scott, com o revelador título “The Supersonic Superstoned Adventures of Travis Scott”.

Rosto tatuado e joias no pescoço, o rapper que o ano passado encabeçou o cartaz do Super Bock Super Rock – estrela negra de Houston, no Texas – conduz um carro de luxo enquanto vai ter com a sua namorada socialite ao aeroporto para lhe dar um beijo antes de ela partir para um qualquer compromisso fabuloso a bordo de um jato privado. O trap, ao que parece, só é armadilha para os que não vencem.

A notoriedade do trap em 2018 foi inegável. No seu relatório de fim de ano, a plataforma Spotify indicava o emo rap – uma derivação do trap, género que aliás tem sido alvo de inúmeras micro-mutações que o levam também a ser por vezes classificado como cloud rap, mumble rap, etc – como o género em mais vertiginosa ascensão e nomeava Juice WRLD, rapper de Chicago, como o artista revelação número 1 com Post Malone e XXXTENTACION a posicionarem-se atrás de Drake no top 3 de artistas mais ouvidos, à frente de J Balvin ou Ed Sheeran.

Se o hip-hop cimentou a sua escalada ao topo da montanha pop nos anos 90 com a tensão entre as propostas da Costa Este e Oeste personificada na luta pelo domínio das tabelas travada entre a Bad Boy, de Puff Daddy, e a Death Row, de Suge Knight (editoras que tinham nas figuras dos malogrados Biggie Smalls e Tupac Shakur os seus maiores símbolos), a verdade é que o novo milénio foi palco da imposição de uma outra visão, oriunda dos Estados do Sul, de lugares como Atlanta, no estado da Georgia, ou Houston, no Texas.

Nestes enclaves de estados mais conservadores, onde a memória de uma glória passada ligada às grandes plantações e à escravatura e o orgulho ferido pela derrota na Guerra Civil na segunda metade do século XIX tornaram muito complicada a vida para os negros, os problemas com droga nos bairros de população afro-americana – ou guetos, como a eles se refere quem lá vive – deram origem a toda uma cultura.

Numa América resistente a dar oportunidades às franjas mais pobres da população, muitos negros sem talento para as indústrias do entretenimento ou do desporto depressa descobriam que os negócios da droga poderiam fornecer o passaporte para se elevarem acima da miséria. É disso que trata Donald Glover, aka Childish Gambino, o autor de um dos mais agudos retratos do país de Trump em 2018, “This is America”, na premiada série “Atlanta”. E foi essa mentalidade que igualmente inspirou uma das melhores séries televisivas de sempre, “The Wire”, passada em Baltimore.

COMO NASCEU O TRAP

Trap é, pois, um termo que se refere às casas, muitas vezes locais abandonados, em bairros degradados, onde se trafica droga, onde se cozinham anfetaminas ou crack, onde toda uma indústria paralela, e ilegal, se desenvolve. Muitos nomes de primeira linha na cena musical atual conhecem bem essa realidade, alguns nem sequer escondem que foi por aí que começaram a ganhar a vida. Nada de diferente numa ampla narrativa hip-hop que, nas obras de Notorious B.I.G. ou Jay-Z ou até Pusha T, braço direito de Kanye West e gestor da sua G.O.O.D. Music, nunca escondeu que a venda de droga colocou, afinal de contas, comida na mesa de muitas famílias.

Bandas como Goodie Mob, Ghetto Mafia ou Outkast, de Atlanta, começaram por usar o termo “trap” nas suas letras e rappers como Gucci Mane, T.I., Young Jeezy ou Rick Ross pontuaram as suas letras com referências explícitas à vida no lado errado da lei, com produtores como DJ Toomp, Drumma Boy ou Zaytoven a optarem por não terem que se dar ao trabalho de legalizar samples desenvolvendo um som mais eletrónico, fortemente apoiado em sintetizadores.

Lex Luger, já neste milénio, contribuiu depois para a visibilidade e notoriedade dessa diferente sonoridade, trabalhando para nomes de primeira linha como Kanye West ou Jay-Z ou Waka Flocka Flame: graves profundos subtraídos à mesma 808 da Roland que inspirou o título de um álbum de Kanye, tarolas cortantes e pratos de choque acelerados inspiraram os rappers a procurarem outro tipo de cadências, popularizando os triplets ou ‘tercinas’, em português, a cadência típica que, quando associada a letras de difícil entendimento, com alguns rappers a soarem como se estivessem a ‘rimar para dentro’, levou à criação da designação mumble rap.

O surgimento no início da presente década de artistas como Chief Keef ou Future, ambos a demonstrarem desde o início um assinalável fulgor comercial nos seus lançamentos, impôs definitivamente a validade do género e quando Fetty Wap levou ao lugar cimeiro das tabelas o tema ‘Trap Queen’, um hino a toda a ‘cultura’ trap com referências à preparação ‘caseira’ de crack, que causou alguma controvérsia por ter valido ao rapper a entrega das chaves da cidade pelo autarca de New Jersey e ter inspirado até versões de artistas na pré-adolescência, provou-se que este era um género com tração comercial acima da média.

Êxitos subsequentes como ‘Panda’, de Desiigner, ou ‘Black Beatles’, pelos Rae Sremmurd, e ‘Bad and Boujee’. a cargo da parceria dos Migos com Lil Uzi Vert, tornaram-se fenómenos de alcance global mudando a face de playlists em todo o planeta e, certamente, dos lugares cimeiros dos cartazes de festivais de verão por toda a Europa. De repente, escutar ‘rockstar’, de Post Malone, durante a emissão diária da Rádio Comercial parecia a coisa mais natural do mundo…

Uma nova geração, a caminho das bilheteiras para adquirir bilhetes para o Primavera Sound (onde em 2018 se apresentou A$AP Rocky), Super Bock Super Rock (Travis Scott) ou MEO Sudoeste (Lil Pump, Desiigner) ou até para concertos avulso na Altice Arena (o fenómeno de vendas Russ, rapidamente promovido do Coliseu dos Recreios para a maior sala de concertos do país, tal a pressão na saída de bilhetes), agradecia a exposição enquanto dava que fazer às colunas bluetooth, que passaram a ser o seu acessório favorito – em transportes públicos, recreios ou praias de todo o país.

Claro que toda a atenção e todo o sucesso têm um sombrio reverso quando se pensa nas mortes de artistas como XXXTENTACION ou Lil Peep ou no recente caso de Tekashi 6ix9ine, o rapper de Brooklyn que admitiu culpa quando confrontado pelo ministério público americano com acusações de violência ou tráfico de droga. (Tekashi levou o seu single de estreia, ‘Gummo’ ao Top 15 da tabela da Billboard Hot 100 e colaborou com Nicki Minaj no tema ‘Fefe’ lançado o ano passado)

UM ARGUMENTO CINEMATOGRÁFICO
Se no longo retrato que merece nas páginas da ‘Rolling Stone’, Travis Scott é apontado como um modelo de sucesso, que não esquece as origens visitando a avó e vizinhos, já Tekashi 6ix9ine, descrito por Stephen Witt na mesma revista como “um produto da era dos smartphones”, é claramente o oposto: o título, “The Rise and Fall of a Hip-Hop Supervillain”, não deixa margens para dúvidas.

Mas o crime, as mortes, estão longe de ser um exclusivo do trap. Já por aqui mencionámos a morte, em circunstâncias violentas, de 2Pac e Biggie, mas também gente como Jam Master Jay, o DJ dos Run DMC, Proof, amigo de infância de Eminem ligado aos D12, ou Mac Dre, artista da Bay Area de São Francisco, engrossam uma lista com dezenas de nomes de artistas de hip-hop que conheceram um fim violento, muitas vezes ainda por resolver pela justiça.

Numa era de extremadas convicções políticas e religiosas, de discursos inflamados sobre a construção de muros e de muito bem documentada violência policial exercida sobre minorias numa América que parece fechada sobre si mesma, o trap pode soar a justificação para todos os males do mundo, uma música muitas vezes amoral, frequentemente gráfica e violenta, mas também capaz de apelos ao lado mais consciente e humano das pessoas: o já mencionado Childish Gambino provou isso mesmo com o portentoso ‘This Is America’, tema que soma já perto de 500 milhões de visualizações no YouTube e que teve um alcance que não pode ser escamoteado. No passado fim de semana, durante a apresentação em Lisboa do trabalho “Inter-Missão”, o rapper português Mike El Nite, afiliado do coletivo Think Music, um dos pilares da cultura trap em Portugal, afirmou, depois de ter interpretado o tema ‘Monkey’, que “afinal também há trap consciente”.

Consciente ou não, o trap ofereceu uma plataforma a artistas como Tekashi 6ix9ine (Daniel Hernandez de seu verdadeiro nome) que, entre outras coisas, percebeu que os relatos de uma vida de crime poderiam garantir retorno financeiro quando transformados em entretenimento, uma ténue fronteira que a América tem navegado desde sempre: gangsters no Cotton Club do Harlem, gangsters na indústria cinematográfica, a Mafia envolvida na invenção de Las Vegas, as dinastias de crime organizado em Nova Iorque a conviverem com as elites em noites na ópera, as editoras discográficas como forma de lavagem de dinheiro, como já bastas vezes demonstrado…

O artigo que a ‘Rolling Stone’ agora dedicou a Tekashi poderia muito bem ser a base para um argumento cinematográfico, com o FBI, escutas telefónicas, contratos para assassinato, ofertas do programa de proteção de testemunhas, advogados e outros elementos do que parece uma elaborada história pensada à escala do grande ecrã. Só que, como sublinha Stephen Witt, mesmo se “rappers famosos já tenham sido acusados de crimes graves no passado, o caso levantado contra Danny e a sua crew não tem precedentes na história do hip hop.

Refere um extraordinariamente amplo caso de atividade de gangues, com acusações relativas a armas, assaltos à mão armada e duas tentativas de assassinato”. O rapper viu ser-lhe negada fiança para aguardar julgamento em liberdade. O juiz, conta o repórter da Rolling Stone, perguntou frequentemente aos advogados de acusação como puderam situá-lo em locais de vários crimes cometidos e pelos quais é agora também acusado. Os delegados do ministério público responderam: “simples, ele ‘postava’ sempre sobre isso no Instagram”.

Ao jornalista da revista americana, o advogado de Daniel Hernandez procurou explicar que o caso não tem fundamento e que o seu cliente nunca foi um gangster nem membro de algum gangue investigado pelas autoridades federais. “O Danny gostava de se apresentar como um gangster porque isso ajudava a vender a sua música”.

A estratégia não parece ter resultado e “Dummy Boy”, álbum lançado em finais de novembro último, ficou muito aquém das expectativas comerciais que começaram por rodeá-lo, sendo igualmente atacado pela crítica que não poupou o seu questionável conteúdo. “Não há nada de redentor em ‘Dummy Boy’”, escreveu a Pitchfork, selando o destino artístico do aspirante a rapper que queria ser gangster ou o inverso (é difícil perceber…) com uma nada simpática avaliação de 3.4 em 10 valores possíveis. Para Tekashi 6ix9ine a verdadeira armadilha, pelos vistos, foi mesmo a internet: proporcionou-lhe a subida rápida e a queda ainda mais célere.

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