Smiley face

“Samakuva disse que deixaria a liderança, não precisa de ser pressionado” – Danda

Vanguarda

0 51

Receba atualizações em tempo real diretamente no seu dispositivo, inscreva-se agora.

Crítico ao governo de João Lourenço, o vice-presidente da UNITA, Raúl Danda, sustenta a tese de que há perseguição a determinadas figuras do País.

A UNITA teve o Governo Inclusivo e Participativo (GIP) como mote da campanha eleitoral de 2017. O governo de João Lourenço é inclusivo?

Não. Fico admirado com os angolanos que pensam que temos uma nova governação. Não temos nova governação. Temos um burguês novo, que se quer afirmar com despesismos inacreditáveis e quer fazer o seu caminho no quadro da riqueza, procurando condenar os outros, quando ele também é farinha do mesmo saco. O PR já disse que ia governar com quadros do MPLA. Dizia que “este GIP (da UNITA) não anda nada” mas quando ele próprio chegou, começou a falar do governo inclusivo e participativo. Pelo menos é bom limitar os termos. Agora, nós UNITA pensamos o seguinte: você não pode olhar para um aparelho e achar que todos os lugares têm de ser de confiança política.

Era primeiro olhar-se para as competências e capacidades para levar a bom porto a tarefa. O segundo aspecto é a honestidade. É o guardião da lavra que não se pode confundir com o dono da lavra para não levar aquilo que é de toda a gente. E outras vezes são jogadas políticas que se fazem.

Está-se a referir ao antigo membro da UNITA Fernando Heitor que foi chamado a administrador do BPC?

Não estou a olhar para ninguém em concreto, nem sequer comento pessoas, cada um sabe da sua vida. O militantismo puro e simples não nos leva a lado nenhum. Vou dar um exemplo. Em Portugal quem está na administração é o cidadão português, no Brasil é o brasileiro, em Cabo Verde é o cabo-verdiano, mas em Angola quem está na administração é o militante do MPLA. A reconciliação nacional não pode ser apenas dita, tem que ser feita.

No OGE 2019 a saúde passou 3,63% em 2018 para cerca de 6,6 % e a educação de 5,41% para 5,83 %, mas mesmo assim a UNITA votou contra?

O aumento percentual não significa necessariamente aumento de massa monetária e de receita. Porque o que está a receber agora não vale nem a metade do que valia antes. O que é preciso é criarmos um OGE que dê vitalidade à educação e a saúde para realizarmos despesas reais.

E esse não dá?

Não acho que dê, senão não teríamos necessidade da contratação. A saúde precisa de muitos médicos, e a educação de professores. Há médicos que ganham como enfermeiros. E gastamos dinheiro em coisas fúteis.

Por exemplo?

Reclama-se que há uma lei sobre o transplante de órgãos há mais de 14 anos e nunca foi discutida. Pedimos uma cópia, e acreditamos que todos os grupos da Assembleia Nacional (AN) vão trabalhar nisso. Porque o Estado gasta muito dinheiro todos os anos em serviços de hemodiálises. O Estado paga cerca de 120 mil Kwanzas por cada paciente, e isto é uma coisa que se faz por sessão, o paciente tem que ter três sessões. Trata-se de um universo de mais ou menos dois mil pacientes. E esses pacientes deveriam receber alimentação, direito a transporte – por causa da fragilidade que apresentam, e muitas vezes não têm. O Estado está a pagar, e muitas vezes não sabe quantos doentes existem.

Uma lei seria vantajosa para o Estado?

Gasta-se muito mais dinheiro do que se tivêssemos uma lei que permitisse o transplante. É uma situação bastante dramática, e mais: se são 50 doentes por cada unidade, a 51ª pessoa não tem lugar – se houver, tem que esperar pela saída de alguém saia, e esse para sair tem que morrer. Ou seja, tem que morrer alguém para se ter lugar e fazer a hemodiálise. Outro grande problema é o que se passa com a hemoterapia. Como é que se pega em pessoas – ninguém faz análises, para averiguar se são seropositivas, se têm Hepatite B ou outra doença? Vão doar sangue, e só depois é que os técnicos lhes examinam para aferir se está em condições de ser administrado ao paciente? Há muita coisa que é preciso mudar e fazer. Estou a falar da saúde, mas poderia falar da educação.

Há outros motivos que levaram a UNITA a dizer não ao OGE 2019…

Há vários motivos.

O histórico da UNITA em relação à aprovação do OGE não é muito famoso…sempre a dizer não…

Também o histórico relativamente à transparência governamental não é muito famoso. Por exemplo, como é que você abre uma loja, põe um indivíduo a tomar conta dela, não presta contas acerca de como e quanto vendeu, e você vai aprovar o relatório? obviamente que não. Alguns colegas do MPLA dizem que os deputados fiscalizam sim ao aprovar o OGE. O governo diz assim: meus senhores deputados, como são os representantes do povo, nós viemos para pedir autorização para utilizar esse valor que pertence ao povo, para realizar essa e aquela despesa e satisfazer a necessidade X ou Z, mas é preciso depois vermos a execução.

Mas o Regimento da AN estabelece que as interpelações só podem ser feitas mas com a anuência do PR…

Interpelações, não. O grande problema é que o dono do poder é o titular do poder Executivo, todos outros são auxiliares. Se você quiser falar com o homem da ENDE por causa da falta de luz, ele vai te encaminhar ao ministro da Energia, e este vai dizer que o poder que tenho me é delegado pelo titular do poder Executivo. Então você tem que chamar o titular do poder Executivo, este, por sua vez, é o PR, que você não pode chamar, logo há de depender da boa vontade de prestar esclarecimento. Isso não funciona, os problemas têm que ser resolvidos de forma célere.

Temos novo governador de Luanda, Cuanzas Norte e Sul. Tem opinião contrária?

Não tenho que estar nem satisfeito nem insatisfeito. É prerrogativa do titular do Executivo ir mexendo no xadrez, aliás é a coisa mais relevante que temos estado a ver na acção do PR, exonerar e nomear, com algumas consequências como esta falta de informação sobre a ministra Vitória.

Qual é a sua expectativa?

Tenho visto as coisas a correrem mal neste País. E eu conheço este País desde 11 de Novembro de 1975. E vejo agora tal como toda gente olhou depois com algum populismo do PR. Muita gente pensava que iríamos ter um país diferente, mas debalde, não é isto que eu e você estamos a ver. Estamos a ver a mesma mesmice, como se costuma dizer.

A governação começou em 2017, daqui a pouco fecha-se o ciclo de dois anos. Se o PR está a levar dois anos, não sei se levará mais para começar. Ainda está a calçar as botas, a pós o equipamento e a gente fica a se perguntar quando é que ele vai começar a jogar e o tempo são cinco anos.

Não se reviu no discurso de João Lourenço quando durante a campanha eleitoral incentivou os angolanos a repatriarem dinheiro incluindo os do diamante de sangue?

Não sei o queria dizer o Presidente. O MPLA tomou de assalto o poder em Angola pela força das armas, e os outros tinham que resistir, porque não há nada que diga que os do MPLA são mais angolanos do que os outros. Todos são angolanos à mesma medida. Não houve nenhum angolano que foi consultado pra saber se queria o chamado Socialismo Científico e Comunismo em detrimento da Democracia, e hoje viu-se que os que defendiam o poder popular, fugiram todos para o capitalismo selvagem. Logo a UNITA resistiu a isso, e com toda a razão.

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Translate »