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Tchizé dos Santos não tem moral para falar sobre este país – Alberto Correia Neto

Alberto Correia Neto (DR)

Em entrevista ao Jornal de Angola, o embaixador na Alemanha, Alberto Correia Neto, acusa a deputada ‘Tchizé’ dos Santos de nunca se ter antes levantado contra as injustiças sociais quando o pai era Presidente, só o faz agora porque perdeu as benesses que lhe chegavam sem as merecer. O general e antigo comandante da Força Aérea Nacional aconselha a deputada a ser mais comedida nas suas declarações públicas e desmente que o Presidente da República quer transformá-la em “novo Rafael Marques”. Alberto Correia Neto defende ainda um jornalismo que investigue os crimes de colarinho branco e admite que a corrupção está em todo o lado, incluindo nas Forças Armadas.

Senhor Embaixador Alberto Neto, a deputada Tchizé dos Santos deu recentemente uma entrevista à SIC, em Portugal, onde afirma ser o Presidente João Lourenço a única figura “autorizada” a “brilhar” no país, não deixando espaço para outras vozes e saberes. Qual é a apreciação que o senhor embaixador faz dessas declarações?

Primeiro, agradeço o facto de me contactarem para poder tecer algumas considerações não só sobre a entrevista dada pela senhora deputada Tchizé dos Santos, mas também para falarmos um pouco sobre o actual momento político e diplomático do nosso país. Relativamente à questão da senhora deputada, eu diria que lamento profundamente que a senhora Tchizé dos Santos ainda não tenha interiorizado que a melhor forma de ser ela própria não é mandar as bocas que manda. Ela seria muito mais bem vista se, de facto, tomasse o cuidado de não falar sobre isso ou sobre aquilo como se fosse a sabedora de tudo o que se passa neste país. É preciso lembrar que ela não é só deputada no tempo do Presidente João Lourenço, só no tempo actual, ela já é deputada desde o tempo em que o pai dela era o Presidente da República e também já é membro do Comité Central desde esse tempo.

O que é que o senhor embaixador pretende “insinuar”?

Quero dizer que quando tinha os grandes benefícios nunca abriu a boca, agora que está a ser tocada, já aparece na oposição a querer dar lições de moral aqui aos angolanos, como se os angolanos fossem ingénuos, não soubessem quem ela é, o que é que ela serviu neste país, o que é que fez por este país. E a minha pergunta é mesmo esta: o que é que ela fez por este país? Não tem moral para falar sobre este país, nem um bocadinho, mas é assim a vida. Vamos ter que aturá-la, embora, cá para mim, o mais razoável era ela manter-se calada, em vez de estar, volta e meia, a criar factos políticos que só a vão destruindo cada vez mais.

No entender do senhor embaixador o que é que estará na base das críticas da deputada Tchizé?

É o facto de ter perdido as benesses e as vantagens que tinha com a saída do pai. Porque se ela continuasse a beneficiar do que beneficiava anteriormente, de certeza que não aconteceria o que está a acontecer. A prova é que quando estava na “pole position” em relação às benesses e às oportunidades, que eram priorioritariamente dadas a ela e aos irmãos, repito, prioritariamente dadas a ela e aos irmãos, ela não se preocupava com nada. Essa é a causa. Por lhe terem retirado estas benesses e possibilidades então engendrou um combate de rua.

A senhora deputada Tchizé dos Santos deixa entender que o Presidente João Lourenço quer transformá-la num novo “Rafael Marques”, ao coarctar-lhe a liberdade de expressão ou ao tender em processá-la em caso de denúncias contra a actual forma como o país está a ser conduzido. Acredita que o Presidente João Lourenço está a usar o seu poder para de facto coarctar a liberdade de expressão à deputada e a outras vozes dissonantes?

Eu acho que não e por uma razão muito simples. Neste momento, com o novo mandato, liderado pelo Presidente João Lourenço, a liberdade de expressão aumentou, melhorou. Se formos a analisar, do ponto de vista sociológico e do ponto de vista político, a liberdade de expressão é hoje muito maior.

As pessoas perderam o medo de dizer o que pensam. Então se é hoje maior a liberdade de expressão, porquê é que o Presidente João Lourenço vai preocupar-se com as atoardas que a senhora deputada Tchizé vai dizendo aqui e acolá? Claro que se ela tentar caluniar ou inventar, poderá responder por isso, mas eu tenho muitas dúvidas que isso venha a acontecer. Porque ela já foi aconselhada, não só por gente de fora, até por familiares directos, para não falar muito, não abrir a boca à toa, fechar a boca ou falar menos. Já foi aconselhada várias vezes.

O senhor embaixador conhece o jornalista Rafael Marques de que fala a deputada Tchizé. Quem criou o “mito Rafael Marques em Angola?”

Foi o próprio Presidente José Eduardo dos Santos que o criou, porque o fenómeno da repressão política à liberdade de expressão é que fez com que surgisse o Rafael Marques. Quer dizer, o modelo de direcção engendrado pelo então líder do MPLA e Presidente da República, de uma forma capciosa opunha-se e combatia todos que ousassem dizer algo contra o líder do MPLA ou contra o Presidente José Eduardo dos Santos. E foi por causa disso que Rafael Marques foi parar à cadeia. Eu tenho quase certeza absoluta que se a liberdade de expressão fosse posta em prática naquela altura nunca surgiria um Rafael Marques. Quer dizer quem criou o Rafael Marques foi a própria estrutura que nós tínhamos na altura, que era de impedimento aos que ousassem criticar o “status quo”.

A deputada Tchizé dos Santos foi gestora de um canal de televisão pública em Angola. Tem conhecimento de alguma vez ela ter dado oportunidade ao jornalista e activista Rafael Marques para se expressar?

(risos…..) Primeiro apanhou o Canal 2 da TPA, como se diz, através da empresa dela de boleia. É um exemplo claro de como funcionava o nepotismo. Como é que uma coisa do Estado, de todos nós, é retirada e dada a uma pessoa? Qual é a experiência que ela tinha de comunicação social? E depois com a agravante dos salários dos trabalhadores serem pagos pelo Estado e as instalações todas estarem sob tutela da organização empresarial que ela tinha a custo zero.

Se lhe perguntar quanto é que ela gastou para passar o Canal 2 para o grupo Semba, em que ela é uma das accionistas, ela seguramente não vai dizer quanto é que gastou. Porque não gastou nada. Mas se me perguntarem quanto é que ela ganhou, eu direi que ganhou milhões. Portanto, não podemos agora estar aqui a tentar tapar o sol com a peneira e dar a entender que a senhora é especialista em comunicação social e, em consequência disso, sofreu uma punição ou está a ser perseguida.

Não acredito que naquela altura ela tivesse vontade de, pelo menos, apoiar Rafael Marques nas acções que desencadeava contra uma coisa que hoje está a ser posta em prática, que é o combate à corrupção, ao nepotismo e à impunidade.

A deputada disse que a transição em Angola devia ser uma festa. Acha que a entrega de pastas do anterior Presidente para o actual foi a mais adequada?

Claro que não. Todos vimos que o processo de tramitação de pastas de um Presidente para o outro foi do mais vergonhoso de que se tem memória. Se leram bem a entrevista que o Presidente João Lourenço deu ao jornal português “Expresso” verificarão que não houve passação de pastas nenhuma. O Presidente João Lourenço e o antigo Presidente José Eduardo dos Santos não se sentaram, nem sequer meia hora, para pelo menos discutitrem o problema da passagem de pastas, sobretudo dos grandes dossiers.

Eu não sei se fizeram quinze minutos. O dado que eu tenho é que fizeram menos de dez minutos. Como é que ela está agora a falar que queria uma transição em festa, se a batalha do seu pai foi uma espécie de arrependimento que teve pelo facto de ter tomado a iniciativa de deixar o poder.

Nota-se, pela acção prática que foi desenvolvendo, que se arrependeu de ter decidido que o seu substituto seria João Lourenço. Nota-se, claramente, se vocês fizerem uma retrospectiva histórica, que houve esse fenómeno, de tal forma que inclusive o último discurso que ele fez no Comité Central, para que se decidisse a passagem de pastas do presidente do MPLA de José Eduardo dos Santos para João Lourenço, ele até avançou a data de Abril de 2019. Isto tem algum significado. O sonho dela é o ideal, eu entendo, eu respeito perfeitamente a opinião dela.

Mas era impossível haver uma transição em festa. É preciso não esquecer que Angola, a nível internacional e não só, é dos países mais corruptos do mundo. Nós a nível do ranking de corrupção em África estamos em quinto lugar, dos mais corruptos do mundo. E na SADC, que são 14 países, estamos em primeiro.

Tudo isso revela o quê? A decisão que foi tomada pelo partido, que está a ser posta em prática pelo Presidente João Lourenço, de priorizar o combate à corrupção, de lutar contra este mal, é bem-vinda. Porque já há estudos profundos sobre as consequências da corrupção. Vou dar-lhe um pequeno exemplo. Angola, que é o segundo maior produtor de petróleo de África depois da Nigéria, há anos que devia ter uma nova refinaria, mas nunca teve.

E a razão de não ter uma nova refinaria, além daquela que existe no São Pedro da Barra, que é do tempo colonial, da década 1950, é muito antiga, pertenceu à FINA, se não estou em erro, agora já pertence à Sonangol, mas porquê? Já se perguntaram porquê que ainda não se construiu uma refinaria? Tão simplesmente porque havia um pequeno grupo de senhores, considerados “os donos de tudo isto”, para parafrasear o que muitos políticos dizem, que facturavam biliões de dólares pela importação do combustível (gasóleo, gasolina e óleo) que nós necessitávamos.

A este grupo interessava manter este “status quo”. Daí que foram pondo permanentemente pau na roda para que não surgisse a tal refinaria. Nisto e noutras coisas mais. Quer dizer, o modelo de gestão política e económica do país era um modelo que engendrava a grande corrupção, e é uma pena ter que dizer isso,

O que acha da visão da deputada Tchizé de se taxarem as grandes fortunas?

A visão não é má. Não é má porque já há experiências em vários países sobre isto. Na sociedade americana já houve propostas deste tipo. Creio que no tempo de Barack Obama, também no de Bill Clinton, houve já propostas no sentido dos ricos pagarem mais impostos que os pobres. A ideia, como disse, não é má. O grande problema é que a senhora deputada se esqueceu que os ricos angolanos não têm o dinheiro no seu país. Qual é o rico angolano que tem o dinheiro no país para se poder cobrar impostos? Quanto é que a empresária Isabel dos Santos, que é a irmã dela, tem lá fora? Dizem que é a mulher mais rica de África. Onde é que está esse dinheiro? Os únicos impostos que ela paga é da UNITEL, onde ela é também uma das accionistas, e das empresas de que faz parte que estão sedeadas aqui.

Mas é um imposto normal, como as outras empresas. Não são as grandes fortunas. O cavalo de batalha do Presidente João Lourenço é exactamente fazer com que as grandes fortunas, o capital que tiraram daqui por várias vias, retornem a Angola. Onde é que vão encontrar esses 30 por cento aqui para taxar? O dinheiro está todo lá fora. Se fizermos uma análise fria, as empresas que estão aqui estão sem dinheiro, ainda recorrem às cambiais do país para estarem de pé. Este é o caso dos monopólios das telecomunicações, uniteis e moviceis, da comunicação social e das cimenteiras. A não ser que taxemos nessas empresas, porque esse pequeno grupo é que são os grandes ricos do país.

A deputada Tchizé dos Santos afirma que há muitos empresários angolanos a ostentarem grandes fortunas.
Acredito que sim. Como é que eles as adquiriram? Você não viu a lista do BPC, aquela lista que saiu dos empréstimos que o BPC concedeu. São fortunas, é muito dinheiro. Aquela lista não é invenção não.

O Estado é que financiava, de uma maneira geral, esses grupos económicos, esses empresários. De tal forma que esses grupos e essas empresas viviam e algumas delas continuam a viver a custa do erário. Elas próprias não realizam capital para sobreviverem. Qual é a empresa do senhor Bento Kangamba que vocês conhecem que realizou capital? De acordo com as declarações do mesmo, ele diz que está metido na exploração de diamantes, tem minas de diamantes. Mas será que paga impostos?

Será que isso está legalmente registado no sistema legal de arrecadação de receitas da Administração Geral Tributária (AGT), etc. Será que neste momento é possível conceber um modelo de arrecadação de impostos que vai fazer com que os mais ricos possam pagar os tais 30 por cento de que fala a senhora deputada Tchizé dos Santos? Isto não será só uma imaginação? Eu considero uma imaginação. Se os países muito mais avançados do que o nosso, nomeadamente os Estados Unidos e a França, não conseguiram, pudera nós. Um dos grandes problemas dos coletes amarelos em França tem a ver com isso. A taxação das grandes fortunas, que fogem para os paraísos fiscais. O Presidente Macron tentou aumentar o preço dos combustíveis, mas como esse aumento afectava mais as classes baixas e médias, as consequências foram imediatas. Ao invés de afectarem os mais ricos, as medidas afectaram os mais pobres. É difícil isso.

O senhor embaixador falou do grande combate que se está a levar no país para o repatriamento de capitais. A senhora deputada Tchizé dos Santos minimiza esta ideia, dizendo que o Estado está a perder tempo em ir atrás desse dinheiro, que em princípio não se sabe onde está, e que o Estado estaria a gastar muito dinheiro com os advogados. Em vez de estar atrás desse dinheiro devia concentrar as atenções dentro do país, olhando para aquilo que é o imediato para a população mais pobre do que andar atrás dos ricos. Acha mesmo que o combate à corrupção e o repatriamento de capitais é um esforço em vão do Estado angolano?

Pelo contrário, não é em vão. É uma das formas de fazer com que esse dinheiro possa beneficiar os mais pobres também em Angola. Além da luta para repatriar os capitais que saíram de Angola de uma forma ilegal, o Estado não se esqueceu de que o que vai fazer com que o país saia do sufoco deixado pelo pai dela é exactamente a revisão completa da política económica que se levava a cabo antes. De tal forma que a visão política actual, as reformas económicas que o Governo está a levar a cabo para tirar o país da crise, são aceites a nível interno e internacional, tanto é que até o Fundo Monetário Internacional fez, pela primeira vez, a um país africano, um empréstimo de 3,7 mil milhões de dólares.

Acham que era possível o Fundo Monetário Internacional emprestar o dinheiro como está a emprestar a Angola se as condições anteriores se mantivessem? Claro que não. Nós temos plena certeza de que a forma como se estão a resolver os problemas económicos e financeiros, que inclui sobretudo a priorização do sector primário da Economia, a agricultura e a indústria, o país vai sair do sufoco financeiro deixado pela governação anterior. É preciso lembrar que não foi a governação de João Lourenço que levou o país para onde está. Ele, neste Governo, está a tentar tirar o país da crise em que se encontrava mergulhado.

Olhando para a questão de um país plural, em que mandato é que há mais pluralidade de ideias?

Como dizem os brasileiros, está na cara, é neste mandato de João Lourenço, que garante uma abrangência e uma capacidade de ouvir todos e lutar para que todos também participem da acção que o Executivo está a levar a cabo. Está a ser aplicado o princípio segundo o qual se deve governar não só para o povo mas também com o povo. Se anteriormente se governava para o povo, agora incluímos a preposição “com” exactamente para tornar mais incluisiva a participação de toda a sociedade civil, no Estado e na governção da coisa pública.

A expressão que o senhor embaixador acaba de utilizar, “governar com o povo”, ajusta-se a um dos lemas do MPLA que diz que “O MPLA é o Povo e o Povo é o MPLA”? Olhando para o próprio MPLA, que análise é que se pode fazer da mudança geracional que se vive neste momento?

Eu diria que de facto esta mudança geracional chegou a seu tempo. Mas, na minha opinião, devia ter surgido antes. Porque não é normal um líder ficar 38 anos no poder. É verdade que houve situações que determinaram a sua permanência no poder por muitos anos, porque o país desde que alcançou a independência em 1975 só em 2002 é que conseguiu uma paz efectiva.

E normalmente, quando um país está em guerra, não há mudança de líder assim do pé para a mão, isso não se faz. Mas de 2002 até 2018 houve bastas oportunidades para o ex-Presidente José Eduardo sair da liderança do Estado e do MPLA. Não o fez. Por isso é que eu digo que esta mudança devia ser feita um bocadinho antes. Quer dizer, a mudança geracional tem mais a ver com os pontos de vista e de ideias. Eu considero que não há ideias velhas. Há jovens que pensam como velhos de cento e tal anos e também há velhos com idade avançada que têm ideias moderníssimas de ir para frente. Eu considero que essa mudança geracional devia impor-se. A geração do Presidente Agostinho Neto, por exemplo, cumpriu o seu papel.

E a geração do ex-Presidente José Eduardo dos Santos?

A geração do Presidente José Eduardo dos Santos, essa geração dele, durou mais do que devia durar. E levou o país à situação de crise em que se encontra mergulhado neste momento. Claro que a seguir à geração do Presidente José Eduardo dos Santos é a actual geração do Presidente João Lourenço.

Felizmente, a Constituição actual não permite que os líderes se eternizem no poder, porque o máximo dos máximos serão dez anos, dois mandatos. A partir daí será obrigatoriamente necessário que haja uma mudança de liderança governativa, não sei se no partido será a mesma coisa. Mas eu devo dizer que essa é uma luta continental, não é só em Angola, mas em África. Se repararem vocês hão-de verificar que grandes líderes de África estão a lutar para mudarem as constituições e permanecerem no poder, temos exemplos claros aqui perto.

Como é que o Presidente Sassou Nguessou quer tirar o Kabila se ele próprio mudou a Constituição para se manter no poder? E há outros, como o Presidente do Rwanda, Paulo Kagame, do Uganda, Yoweri Musseveni, e da Guiné Equatorial, Obiang Nguema, Longe de mim estar a meter-me nos assuntos internos, mas é para dizer que há essa tendência em África das pessoas quererem eternizar-se no poder. Para se eternizarem no poder então engendram manobras constitucionais.

Olhando para dentro do MPLA, há pluralidade de ideias no partido?

Eu considero que sim. Eu posso dizer mesmo que a nossa organização permite que se debatam os assuntos profundamente. Agora, os métodos e os modelos de debate desses assuntos é que de vez em quando pecam. Cai-se numa espécie de burocratismo, numa espécie de deixar correr os problemas sem serem encarados e debatidos pelos Comités de Acção do Partido. Acontece muito. Mas já há mudanças. Agora, nas reunões do Comité Central, além das discussões dos problemas do dia-a-dia, é obrigatório colocar temas candentes para serem discutidos.

Por exemplo, na próxima reunião do Comité Central vamos discutir mais profundamente o problema da corrupção e apontar as medidas que devem ser tomadas. Nesta última reunião, o tema discutido foi o da saúde. Onde se fez o diagnóstico sério da situação da saúde no país.

Houve contraditório quando se discutiu o tema sobre a saúde?
Houve críticas e propostas para melhorar o diagnóstico que a ministra da Saúde fez. É isso que se quer. Os temas do dia-a-dia, os temas concretos da sociedade, devem ser analisados também a nível da estrutura central do partido e não só , também nas estruturas intermédias. Isso não era feito antes.

O senhor embaixador admitiu que as políticas económicas seguidas desde 2002 para cá estavam erradas. Essa crítica é a mesma que a oposição, sobretudo a UNITA, tem vindo a fazer ao MPLA e ao Exectivo. Não acha que há aqui uma contradição?

Não há qualquer contradição. O problema é que temos de interiorizar que a oposição existe para verificar exactamente as falhas da governação. Eles pegam nestas falhas para darem no coco ao Estado de como está a governar, chamar a atenção permanentemente.

Dizer epá estão a governar mal por isto e por aquilo… O partido que está no poder tem que ter o espírito autocrítico e saber reconhecer que de facto isso que estamos a fazer não está bem. Infelizmente, há um grande fenómeno a nível sociológico que é fazermos com que, do ponto de vista escrito, os programas são tudo muito bem feito, mas não os pomos em prática em condições. Isto porque dependemos muito das ideias do líder. Sobretudo quando este líder está endeusado. Que é o caso que aconteceu em Angola.

O antigo Presidente José Eduardo dos Santos era uma espécie de Deus em Angola. Ninguém o podia contrariar, ainda que surgissem muitas pessoas que opinassem de uma forma diferente da dele. Alguns até foram postos no tapete, esquecidos e ignorados. Quando surge o endeusamento do líder, pronto acabou tudo. Depois surgem estes problemas.

Como avalia a oposição política em Angola?

Está à medida do próprio poder. Eu considero que o partido que está no poder neste momento, o MPLA, tem retirado muitos trunfos à oposição, porque aquilo por que a oposição se batia e ainda continua a bater-se é exactamente o que o próprio partido MPLA está agora a fazer. Eu digo e sempre disse isso: que a maior oposição ao MPLA está no próprio MPLA. Parece mentira, mas é verdade. A maior oposição ao MPLA está no seio do próprio MPLA.

Por que diz isso?

Por causa do sentido critico e autocrítico que existe nas nossas reuniões, nas nossas células. Com a abertura que existe a nível político de não esconder as coisas, a gente está a chamar o nome às coisas. Se a acção que estás a levar é de corrupção, vamos mesmo dizer que você está a ser corrupto por isto e aquilo. Agora não escondemos as coisas, como era feito antes.

O senhor embaixador disse que há muitos Presidentes africanos que se querem eternizar no poder. Olhando para os nossos diplomatas, sobretudo os mais velhos, que avaliação se pode fazer?

(Risos) Eu sou suspeito. Eu não me considero mais velho. Embora esteja quase na casa dos 70, ainda não cheguei lá, estou quase. Eu penso que as asneiras que muitos dos nossos diplomatas cometeram ou cometem, engendrou muitos problemas sérios a nível da nossa diplomacia. Não é por causa da idade. Eu acho que o problema de gestão é um problema muito sério no nosso país. Um dos grandes cancros que o país tem é exactamente a gestão parcimoniosa da coisa pública. O senhor recebe meios que lhe são entregues para gerir e tem de saber gerir estes meios no sentido de que os resultados da tua gestão sejam vistos e reconhecidos de que efectivamente você está a gerir para atingir o objectivo pelo qual lhe foram dados esses meios.

E não é isso que acontece nas nossas Embaixadas?
Na prática não é isso que acontece. Há muitos casos de grandes diplomatas, embaixadores, que o dinheiro que recebem dos duodécimos investem noutras coisas, investem em coisas pessoais. Temos muitos casos desses e se viessem a público…Quando me refiro a isso estou a referir-me não só a embaixadores mas também a cônsules, a adidos financeiros, etc, e não são poucos.

Está a dizer que há casos de má gestão na diplomacia angolana?

É exactamente isso. Eu não posso precisar que este é o caso de sicrano ou beltrano. Mas vocês como jornalistas, melhor que ninguém, podem aprofundar o tema, através do jornalismo investigativo.

Por que razão muitos embaixadores recusam-se a abandonar o poder?

Digo-lhe, francamente, talvez pelo modelo que nós temos da reforma. O abandono significa perda de regalias e mordomias do posto que se ocupa. Quando se sai perde-se tudo isso, tem de viver da reforma. Se for mudado de um sítio para outro, isto não constitui problema, mas normalmente quando se sai, quando se deixa de funcionar como embaixador, já sabe que vai para a reforma. E vai viver do que o Estado concede ao reformado na situação dele.

Não é suficiente a pensão de reforma destinada aos diplomatas?
Na actual conjuntura considero que não.

Porque é que não é possível viver da pensão da reforma, se há diplomatas que exerceram funções há mais de 10 anos e com os seus rendimentos teriam criado condições para a sua sobrevivência?

Deixe-me dizer-lhe que um dos grandes problemas que Angola tem e também uma das causas da corrupção social que existe em Angola é o problema do salário. É um problema sério. De uma maneira geral, o salário, mesmos nós que estamos lá fora, não é suficiente para conseguir equilibrar o nosso nível de vida. Aqui internamente a coisa piora. Tudo isso faz com que as pessoas procurem outras vias e outros meios para aumentarem o poder aquisitivo. Então, metem-se em esquemas que engendram a tal corrupção, a tal gasosa.

Um funcionário público quando você vai tratar de um assunto, imediatamente ele está a pensar que vai te tirar, pelo menos, uns mil ou dois mil kwanzas, mesmo a nível de base. Isso é corrupção. Porque ele sabe que o salário que tem mensalmente é insuficiente. Isto acontece a todos os níveis. Bom, neste momento felizmente, a boa nova para este ano é que se está a tentar ajustar o salário à perda inflacionista que o salário vai tendo ao longo destes tempos. Quer dizer aumentou-se o valor dos salários a nível da função pública.

O salário mínimo, que era de 20 e tal mil kwanzas, passou para 30 e tal mil kwanzas, que oficialmente é já quase 100 dólares. Antes, nalguns casos não chegava a 50 dólares. Quando efectivamente as pessoas sentirem que quando deixarem de ser o que são vão passar mal, em vez de ficarem calmos, vão tentar resolver os problemas da sua velhice, lutarão para se manterem no poder, vão procurar recusar-se a deixar o posto. Claro que a recusa não vai servir para nada, porque quando o Presidente toma uma decisão em relação a isso, com recusa ou sem recusa, você tem que abandonar mesmo o posto.

O senhor embaixador é General. Olhando para todas as forças de defesa e segurança do país, de que maneira estas forças poderiam contribuir no combate à corrupção dentro e fora desses órgãos?

Posso dar um exemplo claro. Devido ao carácter castrense das nossas Forças Armadas elas de facto têm de ser exemplares no cumprimento das ordens que são emanadas pelo Comandante-em- Chefe. Mas não vale a pena pensarem que nas Forças Armadas ou no Ministério do Interior não tem corrupção, todas elas têm. Uma das formas de se combater a corrupção nas Forças Armadas é retirar o monopólio do asseguramento logístico a determinadas empresas.

Porquê?

Porque no tempo anterior, não sei se agora continua, não tenho informação sobre a evolução da situação, um dos cancros das Forças Armadas era o asseguramento logístico. O Estado fazia um grande esforço para fazer com que ali onde estava o soldado não faltasse mata-bicho, almoço e jantar, não faltasse a farda, não faltasse o colchão, mas estes meios raramente chegavam ao soldado, porque eram desviados. Esses desvios fizeram com que tivéssemos muitos problemas sérios.

Claro que a situação foi evoluindo até se atingir uma fase mais ou menos monopolista de asseguramento. Quer dizer para se evitar que se continuasse com estes desvios vergonhosos, que levaram muita gente para a cadeia, centralizou-se o abastecimento, pegou-se numa empresa e disseram você passa a abastecer as Forças Armadas. As outras foram postas de lado. Este modelo é o ideal? Este modelo monopolista, que também engendra a própria corrupção? Agora está-se a tentar ver se este é o modelo ideal.

Estas empresas passaram por concurso público?
Aí é que está o problema. Não passaram. Outro problema é o problema financeiro. A corrupção nas Forças Armadas também atingiu níveis que vocês não imaginam. De oficiais das Finanças registarem permanentemente pessoas que já morreram ou que são desertores e a receberem salários mensais, não é 100 ou 200 pessoas, às vezes 300 ou 400 pessoas. Você está a ver o que é que dá. Um soldado, sargento ou oficial, que já não existe, mas na folha de salário da unidade ainda está lá o nome dele e todos os meses recebe dinheiro. E este dinheiro vai para quem? Vai para os que engendram o esquema.

Não existem mecanismos de controlo interno?
Agora já existem inspecções permanentes e regulares. Antes não havia.

Estas inspecções não fazem o trabalho de “faz de contas” para todos ganharem a sua parte?
Também existe o risco deste fenómeno. Mas agora a situação está a melhorar. Não pense que o facto de as Forças Armadas terem o carácter castrense, o fenómeno corrupção também não tocou ali, tocou. Agora está-se a fazer uma revisão mais profunda e global de se melhorar os métodos e as condições para se ter um controlo ainda mais rigoroso na gestão da coisa pública, até nas Forças Armadas.
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O senhor pensa deixar de ser embaixador na Alemanha e regressar ao país?
Penso sim. E quero crer que não vai tardar muito. Não sei quando, isto depende muito dos objectivos do nosso Governo e do nosso Estado. É possível que o nosso Estado tenha feito uma análise do trabalho que eu estou a fazer lá e acha que neste momento não convém tirar-me. Quem sabe se de aqui a um ano, dois ou menos tempo. Tudo isto é possível, mas não depende de mim.

Qual é o principal trabalho que está a desenvolver na Alemanha?

A Alemanha é a primeira potência económica da Europa Ocidental. E Angola, nosso país, considera a Alemanha como um país estratégico. Felizmente, os alemães estão muito interessados em fazer com que a relação entre Angola e Alemanhã seja cada vez mais profunda e mais proficua. O Presidente João Lourenço introduziu uma nova modalidade na diplomacia, já existia, mas deu maior ênfase, que é a diplomacia económica.

No caso concreto da Alemanha, eu devo dizer que além da cooperação económica e financeira, interessa a Angola o lado tecnológico, porque é das melhores e das maiores potências mundiais. As grandes multinacionais alemãs são sérias e estão espalhadas pelo mundo. A Siemens, por exemplo, Glate e Voite são empresas que têm fábricas nos Estados Unidos, a primeira economia mundial. Nós decidimos que temos que criar o desenvolvimento energético em Angola, para que dentro de três a cinco anos sejamos auto-suficientes na produção de energia e estamos a levar à prática a construção de barragens.

Os maiores e melhores produtores de turbinas para produzir energia são os alemães. Mesmo no tempo colonial, as turbinas que produziam energia na barragem de Cambambe, no Cuanza-Norte, eram alemãs. Portanto, a Alemanha é um forte parceiro para a electrificação do país. Nós não conseguiremos atingir os níveis de desenvolvimento que pretendemos se não electrificarmos o nosso país. É preciso levar a todas as aldeias de Angola luz eléctrica. Você anda daqui até ao Quilómetro 30 já não tem luz, nas pequenas bualas idem, não pode ser, e passa lá a rede que vem de Cambambe e que vem de Laúca. A distribuição de energia eléctrica é fundamental e a Alemanha está em condições de fazer isto e tem feito isto.

E na formação de quadros o que é que se projecta?

As universidades alemãs são muito reconhecidas no mundo inteiro pela formação de qualidade que dão. Os materiais e os produtos alemães são também sobejamente reconhecidos a nível mundial. Nós decidimos que devemos cooperar também na formação profissional. Por exemplo, a Siemens tem uma escola de Mecatrónica em Berlim com três angolanos, mas são muito poucos. Nós infelizmente perdemos uma série de muito bons profissionais que tinhamos no tempo colonial em detrimento de expatriados.

Depois da independência vieram aqui cooperantes, vieram aqui até pedreiros, carpinteiros, quando no tempo colonial quem fez Angola não foram pedreiros, carpinteiros, serralheiros e nem electricistas que vieram do estrangeiro, são os angolanos que construíram o país. Estes profissionais desapareceram completamente, temos que repor isso. Há escolas de formação profissional aqui, ali no Cazenga tem uma que é muito boa, que é preciso ser mais modernizada, tudo isso inclui a cooperação que devemos ter com a Alemanha. Quem explorava as minas de ferro de Cassinga no tempo colonial eram os alemães.

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