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Resgatados no México dois irmãos raptados por uma seita judaica ultraortodoxa

Yante e Chaim, de 14 e 12 anos respetivamente, viviam com a mãe perto de Manhattan, depois de esta ter decidido abandonar a comunidade. Foram levados pelos membros que dirigem o grupo Lev Tahor, desde há muitos anos acusados pela alegada prática de casamentos forçados, abuso infantil e tratamento humilhante

O nome da seita, segundo avança o Expresso, pode não ser familiar, mas o percurso do Lev Tahor – grupo judaico ultraortodoxo – deixou ao longo de 40 anos um rasto mais próximo da novela policial do que de um romance de inspiração religiosa. Entre denúncias por casamentos forçados, abuso infantil e tratamento humilhante, o caso mais recente a atirar a seita para as barras da justiça envolve uma mãe e dois dos seus fihos, menores.

Yante e Chaim, de 14 e 12 anos respetivamente, foram resgatados no México algumas semanas depois de terem sido raptados em Nova Iorque, cidade onde a mãe se refugiou depois de ganhar coragem para abandonar o culto. Da conspiração para os levar até ao plano que permitiu localizá-los, a sua história dava um (bom) filme.

No seio da Lev Tahor, Sara não ocupava uma posição qualquer. Filha do fundador da seita – já falecido – e irmã do seu novo líder, ela acompanhou o grupo nas suas deambulações, desde Israel, onde foi criado nos anos de 1980, até à Guatemala, um dos países onde a comunidade assentou arraiais, após ser desterrada dos Estados Unidos e posteriormente do Canadá (no México estão também alguns seguidores). Sara começou a questionar as orientações impostas e decidiu fugir, fixando-se com os seis filhos na pequena localidade norte-americana de Woodridge, a cerca de 140 quilómetros de Manhattan, determinada a começar nova vida.

Demorou pouco tempo a perceber que a seita não estava disposta a conceder-lhe essa opção. Seis semanas após o que parecia um recomeço, Chaim e Yante desapareceram, na madrugada de 8 de dezembro, levados por um carro que os recolheu a poucos metros de casa.

A investigação que se seguiu, desenvolvida com recurso a cooperação internacional depois de Sara ter assegurado que a seita se preparava para consumar um suicídio coletivo por se sentir encurralada com vários processos judiciais, permitiu desmascarar um bem desenhado plano para raptar os irmãos e colocá-los de novo sob a alçada da Lev Tahor.

DISFARÇADO COM UM GORRO DO SUPERHOMEM
Nachman Helbrans, o novo líder, parece ter pensado em tudo, conta o “El Pais”, desde as passagens de avião até aos passaportes para contornar os controlos de emigração, passando pela aquisição de novas roupas – para que os menores não lançassem suspeitas – e telemóveis pré-pagos, que conduzissem a becos sem saída.

Mudar-lhes a roupa não foi um pormenor. Vestidos geralmente com as vestes escuras e tradicionais judias, no caso do rapaz incluindo o quipá sobre a cabeça e, no caso da irmã, uma longa túnica que apenas deixava visível uma parte do rosto, as crianças dariam nas vistas. As câmaras de vigilância do aeroporto haveriam de os mostrar bem disfarçados, com Chaim a usar um bem mais comum gorro do Superhomem.

Para levar os irmãos, Helbrans contou com a ajuda de Aron Rosner, outro dos elementos da cúpula da seita. Foi ele o encarregado de pôr em marcha o plano e organizar os gastos, delegando no filho, Jacob, a compra das peças de vestuário. Na comunidade, Jacob era o marido de Yante, apesar de esta ser menor de idade.

Dado o alerta, a descrição dos jovens foi difundida, com as características físicas, incluindo peso, altura e fotos que ajudassem ao seu reconhecimento.

Graças ao empenho de uma equipa que juntou o FBI, a polícia federal mexicana e alguns membros do corpo diplomático, escreve o jornal espanhol, os irmãos haviam de ser localizados num hotel em Tenango del Aire, perto da cidade do México, três semanas após o rapto e após uma fuga que os levou para mais de 4000 quilómetros afastados de casa. Receberam apoio psicológico e já foram devolvidos aos cuidados da mãe, confirmaram as autoridades envolvidas.

Um comunicado oficial adianta que Nachman Helbrans, Aron Rosner e o filho foram deportados do México e presos assim que chegaram aos Estados Unidos, aguardando agora julgamento.

LÍDER FUNDADOR CONDENADO EM 1994
A história reavivou o que se conhecia da seita, nascida em Israel, mas que desde sempre se dizia perseguida pela sua posição antissionista. Foi alegadamente por causa dessa perseguição que o grupo se mudou para os Estados Unidos, onde o seu líder fundador viria, em 1994, a ser condenado a dois anos de prisão por sequestro de um jovem israelita. O adolescente de 13 anos estava a preparar-se com o mentor da Lev Mahor para o seu bar mitzva, tradicional cerimónia do judaísmo, de uma forma que os pais consideraram aproximar-se de uma ‘lavagem ao cérebro‘.

Após conseguir a liberdade condicional, o líder religioso viria a ser deportado para o Canadá, país onde voltou a fixar a comunidade que guiava. Mas também neste país o grupo viria a ser denunciado e formalmente acusado de negligência infantil, o que o levou a fazer de novo as malas. Seguiu-se a Guatemala, onde a seita continuou sem ser bem acolhida, apesar de permanecer aí a sua principal comunidade.

Os membros da Lev Tahor, que foram já chamados de ‘talibãs judaicos’, não serão neste momento um grupo com mais de 500 seguidores. Entre as normas rígidas pelas quais se regem, contam-se imposições alimentares, que passam pela proibição de consumirem ovos e outros alimentos, a menos que produzidos pelo grupo, havendo relatos considerados preocupantes dando conta de que recorrem a determinados medicamentos destinados a controlar distúrbios mentais como forma de combater o que chamam de ‘demónios internos’ ou a maldade.

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