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Duplicam jogadores de futebol detetados em situação ilegal

Jovens sul-americanos arriscam tudo, por conta própria ou nas mãos de redes, para prestar provas em clubes do Norte e Centro. Sonhos de glória acabam em pesadelo.

Em apenas um ano, o número de jogadores de futebol em situação ilegal detidos pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), em clubes ou associações desportivas, mais do que duplicou, apesar de as autoridades terem realizado menos operações de fiscalização. São na maioria jovens de países sul-americanos que chegam para prestar provas, mas também há redes de imigração ilegal envolvidas.

Para concretizar o sonho de jogar na Europa, os jovens entram em Portugal com um visto de turismo, o que lhes permite oficialmente ficar em território nacional, mas apenas por três meses. Na realidade vêm com o exclusivo propósito de prestar provas em clubes ou associações desportivas.

Muitos destes jogadores acabam detidos pelo SEF que, no ano passado, em 66 ações de fiscalização, já detetou 129 atletas em situação irregular. Em 2017 apenas foram registados 59 nas 72 operações especificamente focadas em clubes de futebol.

“As ações de fiscalização do SEF direcionadas à fiscalização da atividade desportiva, incidindo sobretudo no futebol, visam essencialmente a prevenção, deteção e combate a fenómenos associados ao auxílio à imigração ilegal”, adianta fonte do SEF. Muitas vezes, partem da sua terra natal apenas com a promessa de que poderão prestar provas, feita via telefone por dirigentes de clubes, sem qualquer garantia de futuro ou de sobrevivência. Normalmente, são os próprios a pagar a viagem para Portugal, dinheiro que só conseguirão recuperar se tiverem a sorte de agradar aos clubes. Enquanto estão em território nacional, os atletas são alojados em residenciais ou casas adaptadas para albergar jogadores.

SONHOS DE GLÓRIA E FORTUNA

Só depois de chegarem, iludidos com promessas de glória e fortuna, é que os jovens se deparam com a necessidade de regularizarem a situação no país e as dificuldades de obterem a documentação necessária para serem jogadores de futebol em Portugal, acabando muitas vezes em situações dramáticas.

“Na maioria das vezes, desconhecem os procedimentos e requisitos inerentes à permanência regular em território nacional, uma vez que foram aliciados nos respetivos países de origem com a promessa de um contrato profissional e de facilmente despertarem a atenção de clubes de relevo a nível nacional”, disse a fonte.

Paralelamente às ações de fiscalização, o SEF tem em curso sete investigações em que há fortes suspeitas de crimes de auxílio à imigração ilegal e aproveitamento da fragilidade dos atletas. São casos de “exploração dos jogadores, que se deslocam para Portugal com a promessa de atenção por olheiros ou empresários, para concretizarem o sonho de jogar na Europa” explica a fonte do SEF.

“Usam clubes como barrigas de aluguer”, diz Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores

De 2017 para 2018, o número de jogadores de futebol detetados em situação ilegal, em Portugal, duplicou. Como interpreta este facto?

O futebol continua a ser um negócio rentável e, por isso, continua-se a arriscar trazer jogadores para o nosso país, mesmo com todas as incertezas quanto ao sucesso que possam vir a ter. No Campeonato de Portugal, em concreto, o que se tem privilegiado é explorar o talento de jovens, usando clubes deste escalão como “barrigas de aluguer”, isto é, plataformas para o acesso à Europa e perspetivação de um futuro negócio a realizar com a sua transferência. Nesta lógica, muitos jogadores são enganados. Entram em Portugal sem cumprir os procedimentos adequados, a começar pela obtenção do visto de estada temporária adequado, e acabam abandonados quando as coisas não correm bem. A fiscalização é, obviamente, ineficaz.

Porque é que os regulamentos disciplinares não punem os clubes que utilizam jogadores ilegais, por exemplo com subtração de pontos e multas pesadas?

Talvez porque o desporto ainda não censura as condutas que descrevi como devia, ou pelo menos tolera estes acontecimentos. Atendendo à dimensão que o problema está a criar, vamos apresentar na Assembleia-Geral da FPF uma proposta no sentido de ir mais além do que a mera verificação da existência de processo de legalização no ato da inscrição. Os clubes que negligenciam estes procedimentos têm de ser sancionados severamente..

Sente que é necessário um maior envolvimento da FPF e da Liga Portugal nestes casos?

FPF, Liga e Sindicato já se envolvem na articulação com as entidades competentes, nomeadamente o SEF, no sentido de agilizar procedimentos, monitorizar e atuar sobre os casos identificados. Na próxima reunião da comissão constituída no âmbito do protocolo, que ocorrerá na próxima semana, e atendendo aos últimos desenvolvimentos, vamos levar a discussão o agravamento das sanções desportivas e a efetivação de uma medida já proposta, a realização de uma ação de sensibilização do Norte ao Sul do país, para informar os dirigentes e alertá-los para as precauções que devem tomar. Podemos e devemos fazer mais e melhor.

Qual a quota parte de responsabilidade dos olheiros e empresários nesta situação?

São os grandes impulsionadores, não necessariamente os intermediários registados, mas aqueles que, paralelamente, desempenham esta atividade. Na maioria destes casos, são eles que suportam os encargos e pagam aos clubes para que os jogadores aí treinem e joguem, na perspetiva de algum se destacar e proporcionar um negócio. O que é inaceitável é que haja presidentes de clubes e treinadores que se prestem a esquemas deste tipo.

Há muito que vem alertando para este flagelo dos jogadores ilegais em Portugal. Sente que há alguma evolução no controlo dessas situações?
Infelizmente não. Apenas as ações do SEF têm tido um efeito dissuasor. Toda a gente se revolta sempre que estes casos vêm a público, mas nas ações dos agentes desportivos não vejo evolução significativa. Nem sequer enquanto cidadãos ativos. Há um total alheamento da comunidade relativamente a estes casos.

É estranho que clubes amadores, que devem promover a prática desportiva local e proporcionar espaços de lazer aos jovens da comunidade, tenham necessidade de ir buscar jovens ao estrangeiro. E ninguém estranha? Então as autoridades locais, desportivas e políticas não deviam agir localmente. É muito estranho, há muita gente a pactuar com esta realidade. Isto é inaceitável.

O que pode fazer o Sindicato pelos jovens que são abandonados à sorte no nosso país depois de lhe terem sido prometidas oportunidades no futebol?

O Sindicato tem cumprido esta tarefa de apoiar jovens jogadores abandonados à sua sorte, nomeadamente na regularização do processo de legalização ou suportando os encargos com alimentação, estadia e despesas de retorno ao país de origem, quando não há outra forma de acautelar a permanência em território nacional.

Podemos fazer mais, nomeadamente propondo regulamentação desportiva adequada, denunciando os clubes, dirigentes e intermediários envolvidos nestes fenómenos e educando para uma mudança de comportamento relativamente ao tratamento e integração do jogador estrangeiro em Portugal. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para erradicar estas pessoas do desporto. Não têm lugar nesta atividade.

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