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Fugindo da crise económica, angolanos encontram dificuldades semelhantes no Brasil

A queda do preço do petróleo no mercado internacional teve forte impacto sobre a economia de Angola. O Brasil foi o destino de milhares de imigrantes, que, diante da recessão no país, já pensam em voltar para casa.

O Portal de Angola recupera o texto do Olhares do Mundo publicado há pouco mais de três anos e cai como luva nos dias hoje, acrescentando quadro pouco optimista de um governo ‘da extrema direita’ que agora vai governar o Brasil.

Para um imigrante, seja de qual nacionalidade for, quando o dinheiro falta e a família, que está no outro lado do mundo, começa a sofrer com isso, é hora de parar e repensar se trabalhar em outro país compensa. Um angolano ouvido pela reportagem do Olhares, na época, disse que estava há dois anos em São Paulo e preferia não ser identificado, reflete a decepção de muitos imigrantes económicos com a opção de construir uma nova vida no Brasil. “Não vale mais a pena tentar uma vida aqui. Com as poucas oportunidades que há, fica difícil enviar dinheiro para casa”, disse o imigrante de 30 anos.

Centenas de angolanos que cruzaram o Atlântico por causa da crise económica provocada pela queda na cotação internacional do petróleo, principal produto do país, acabaram por encontrar, no Brasil, o mesmo inimigo do qual estavam a fugir: recessão e desemprego. O angolano que encontramos na Paróquia Nossa Senhora da Paz, uma casa de amparo a imigrantes e refugiados de todas as nacionalidades, vivia de maneira estável e confortável em Angola com um salário de USD 700 até a empresa em que trabalhava falir.

Desempregado, desembarcou em São Paulo, onde conseguiu apenas um emprego de garçom. “Gostaria de estudar cursos aqui no Brasil para que os meus ganhos crescessem, porque as vagas que são oferecidas nos Centros de Ajuda, como a Missão Paz, não são suficientes para pagar as contas”, diz ele.

A Missão Paz, ligada à paróquia, é um dos vários projetos que tentam auxiliar imigrantes e refugiados no Brasil. O diretor da missão, o padre italiano Paolo Parise, diz que houve um aumento de africanos atendidos pela paróquia. “Há dez anos, em nosso banco de dados, os africanos atendidos eram 0,8%. Hoje em dia, esse número já está entre 14% e 15%”, conta.

De acordo com dados da Polícia Federal, a imigração africana aumentou 30 vezes desde 2000. O relatório diz que, no início deste século, viviam no país 1.054 africanos regularizados de 38 nacionalidades, mas o número cresceu, em 2012, para 31.866 cidadãos legalizados, de 48 das 54 nações do continente. A procura pelo Brasil cresceu muito com a crise de 2008 na Europa e o bom desempenho da economia brasileira na época.

Em relação aos angolanos com status de refugiado por algum tipo de perseguição em seu próprio país, o Ministério da Justiça diz que eles são o segundo maior grupo no Brasil, só perdendo para os sírios. Dados oficiais divulgados em abril deste ano, apontam 1.420 refugiados angolanos em solo brasileiro, de um total de 8.863. O Itamaraty confirma o crescente afluxo de angolanos. O número de vistos expedidos na Embaixada Brasileira em Luanda, capital da Angola, no primeiro trimestre do ano foi de 3.886, o que implica dizer que, em média, 2 angolanos por dia entram no Brasil. No entanto, os vistos, a maioria de turismo, acabam por ser uma tática para permanecer no país.

O padre Parise relata que muitos angolanos chegam ao aeroporto de Guarulhos apresentando-se como refugiados, e a Polícia Federal, pelas convenções internacionais não pode recusar e faz o protocolo de solicitação de refúgio. “Com isso, os angolanos ganham status de refugiados por cerca de dois anos, que é a média de duração da análise do pedido. Hoje, ainda segundo o Ministério da Justiça, existem 2.281 solicitações pendentes de refúgio para os angolanos.

Sendo o visto de refugiado só concedido, na maioria das vezes, em casos de desrespeito aos direitos humanos, como perseguição religiosa ou de raça, os imigrantes econômicos adicionam à incerteza do pedido a dúvida da permanência no país devido aos salários baixos, que mal dão para sustentar a si mesmo, muito menos as suas famílias, no país de origem.

É o caso de Daniel Belo, 27 anos, outro angolano ouvido pela reportagem. Receoso de falar sobre sua situação no Brasil, ele diz apenas que veio em busca de emprego. Na capital paulista há aproximadamente três meses, Daniel conta com o apoio da Missão Paz. Otimista, ele diz que foi muito bem recepcionado e que não teve dificuldades em se adaptar porque em Angola já conhecia muitos brasileiros, o que o ajudou a entender a cultura local. “Primeiro eu preciso saber como estão as condições no Brasil e depois decidir tudo, saber como são as leis e só depois pensar no que fazer”, afirma o jovem, que pretende, futuramente, trazer a família.

Para Marcelo Haydu, diretor executivo da Adus, Instituto de Reintegração do Refugiado, uma ONG destinada a promover a valorização e inserção econômica, social e cultural dos refugiados em São Paulo, a inserção no mercado de trabalho está entre as principais dificuldades dos africanos em solo brasileiro. “A falta de conhecimento sobre a realidade do refúgio gera medo, desconfiança, o que leva a casos de preconceito, e isso certamente dificulta a inserção laboral de todos eles”, afirma.

Haydu, falando especificamente de Angola, aponta a relação histórica do país africano com o Brasil como principal motivo pela crescente chegada de angolanos. Segundo ele, a presença de empresas brasileiras em Angola e os convênios realizados entre universidades dos dois países geraram um maior fluxo de migração. Além disso, no que se diz respeito à inserção no mercado de trabalho, o diretor afirma que os angolanos têm um trunfo em comparação aos companheiros de continente. “A dificuldade para conseguir emprego é a mesma para todos os africanos, mas os angolanos têm a facilidade do idioma, pois também falam português”, comenta.

O angolano Paullo Macongo, de 23 anos, vice-presidente da Associação dos Angolanos em São Paulo, discorda. “Mesmo com Angola tendo o português como língua oficial , ainda assim existe muito preconceito na fonética, e acredito que isso pode ser uma das causas principais de reprovação em algumas entrevistas, principalmente na área de atendimento.”

Macongo, que chegou a São Paulo há quatro anos para cursar o ensino superior, diz que o objetivo da associação é auxiliar qualquer estudante angolano que venha ao Brasil, desde a recepção até a documentação. “O principal objetivo de todos os estudantes angolanos, assim como eu, é se formar e depois regressar para Angola para então poder ajudar a resolver problemas que a nossa sociedade enfrenta”, afirma. A crença de que a sua vinda ao Brasil tem um propósito e fará a diferença no futuro do seu país é o que mantém Macongo firme para continuar a estudar.

Por Lucas Valim, Matheus Riga e Vinicius Ribeiro

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