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Boxing day: a festa na Liga que nunca dorme

Tribuna Expresso

(JOHN POWELL)

Natal prolongado, e mais um presente para desembrulhar. É a festa dos adeptos, mas também de todo o futebol britânico, e não tem rival nas audiências televisivas por todo o planeta. O costume foi recentemente transplantado para a Serie A na última temporada, e mantém-se vivo numa Itália que continua dominada pela Juventus e por Cristiano Ronaldo, hoje novamente vestido de Pai Natal com mais um golo a evitar a primeira derrota, embora estejamos ainda muito longe de ver serem criadas raízes tão fortes como na Velha Albion e ainda mais de que se torne uma das suas bandeiras. Na Premier, o Liverpool não abranda nem sente cansaço. Esqueçam os cânticos natalícios, ou então habituem-se a Jingle Bells entoados entre riffs arrastados de guitarra eléctrica.

Há muito que o Boxing Day faz as delícias dos fãs, e também há muito que não se consegue pensar em dezembro no Reino Unido sem aquela que se tornou uma verdadeira festa do futebol. A Premier League, rainha de todas as ligas, ainda brilha mais intensamente nestes dias, embora obviamente seja todo o futebol britânico a ir a jogo. A ausência de concorrência televisiva enriqueceu obviamente ainda mais o produto. É intocável.

José Mourinho, sobretudo nas duas passagens pelo Chelsea, e também o carismático Alex Ferguson foram muito críticos do número elevados de jogos durante a quadra, embora por razões diferentes. Ansioso por estender o sucesso dos Blues ao resto do continente, o português alegava que o excesso de competição enfraquecia as equipas inglesas na altura do regresso da Liga dos Campeões no novo ano e retirava-lhes argumentos para lutar pela vitória final. Já o escocês olhava para o domínio do seu Manchester United no plano interno e via caminhadas para o título e plantéis menos profundos serem colocados em causa durante o inverno. Um tropeção ou dois ao gerir jogadores mais cansados poderia ser fatal.

Só que em Inglaterra o produto é, para os dirigentes, o princípio e o fim de tudo. Raramente há jogos adiados ou em atraso, a não ser que tal seja inevitável, seja por questões climáticas ou outras até extradesportivas, e muito menos para proteger os clubes até de compromissos externos. Nada é mais importante do que a Premier League. Por aí se percebe por que a federação tenha resistido tanto e só agora se tenha decidido a alterar o calendário, contudo ainda sem tocar nesses excessos do Natal e de passagem de ano: a partir de 2020, o cmaponeato para duas semanas em fevereiro.

É agora de esperar a reação de jogadores e treinadores, uma vez que é precisamente nesse mês que regressa a Champions League com os oitavos de final, fase em que as equipas inglesas costumam ter presença praticamente completa com os seus quatro representantes, tal o poderio financeiro e, consequentemente, desportivo que possuem. Os dois Manchester, United e City, o Liverpool e o Tottenham estão, por exemplo, esta época, qualificados entre os últimos 16.

O período inicialmente pedido pelos clubes para a paragem de inverno era aquele que ia do dia 30 de novembro a 3 de janeiro. Não fevereiro. “É um momento importante para o futebol inglês e acreditamos que clubes e o país beneficiarão com a medida. Encontrámos uma forma de dar aos jogadores a necessária paragem a meio da época, mantendo o muito apreciado calendário de jogos no Natal”, justificou o CEO Martin Glenn. Mais uma vez, os compromissos internacionais passaram, aparentemente, para o plano secundário.

A ORIGEM DA TRADIÇÃO
Não é só o cansaço dos jogadores que tem causado desgaste no Boxing Day. A paragem das ligações ferroviárias no dia 26 e o aumentar das distâncias entre as equipas em confronto em plena quadra dedicada à família, quando anteriormente apenas se colocavam frente a frente clubes de cidades próximas entre si, juntam-se ao prato da balança reservado aos ‘contras’. No entanto, a tradição – e aqui tem de se pensar também na defesa do produto, uma vez que se tornou parte integrante e muito importante do mesmo – e as receitas que provêm das transmissões televisivas têm pesado mais.

Mas, de onde vem então a tradição?

A origem do Boxing Day, mesmo sem o futebol como anexo, é alvo de várias teorias. Há diferentes versões e poucas certezas. Uma delas insiste que nasceu do hábito de os padres na Idade Média abrirem no dia 26 – dia de Santo Estevão, primeiro mártir da Igreja Católica, apedrejado até à morte por acreditar em Jesus Cristo – as caixas (box no singular, em inglês) de esmolas recolhidas até aí. Outra confia que era o dia em que os criados do período vitoriano tinham folga, depois de terem servido os senhores no dia de Natal, e aquele em que levavam para casa uma caixa com ofertas e até eventualmente restos de comida. A terceira descreve uma caixa de dinheiro levada pelos grandes velejadores quando se faziam ao mar. A ideia era dar sorte. Em caso de missão bem-sucedida, esta seria aberta e o recheio entregue aos pobres.

O feriado popular e também bancário de dia 26 passou a servir para comer os restos sobrados das refeições das festas, para entregar presentes a parentes distantes e para a caça à raposa, rapidamente proibida. A febre consumista fez com que as lojas passassem a abrir com saldos, e juntaram-se a todo um movimento nacional também os eventos desportivos, como o râguebi, o hipismo e o futebol, filho pródigo da nação.

Esse dia de 26 de dezembro foi também aquele em que se realizou o primeiro encontro competitivo entre clubes. Em 1860, o Sheffield FC, o clube mais antigo do planeta, criado apenas três anos antes e hoje no oitavo escalão do futebol inglês, defrontou e venceu o Hallam FC, atualmente na 10ª divisão, por 2-0. Onze anos depois começava a tradição do Boxing Day no futebol. As quatro divisões inglesas, o resto do Reino Unido (Escócia, Irlanda do Norte e Gales) e as antigas colónias, saíam em peso para os campos para jogar. Os adeptos aplaudiam de pé.

66 GOLOS HÁ 55 ANOS
A engrandecer a lenda houve jornadas verdadeiramente memoráveis, como a de há 55 anos, aquela que ainda hoje é recorde. Em 1963, marcavam-se 66 golos em 10 jogos (média óbvia de 6,6 por partida), com resultados tão surpreendentes como o 10-1 com que o Fulham brindou o Ipswich, os 6-1 do Burnley ao Manchester United e do Liverpool ao Stoke City, o 2-8 entre West Ham e Blackburn no Boleyn Ground e a goleada do Chelsea na visita a Bloomfield Road e ao Blackpool por 5-1. Até os empates foram gordos: WBA-Tottenham, 4-4; Nottingham Forest-Sheffield United, 3-3; e Wolves-Aston Villa, 3-3. Mais normal o 2-0 com que o Leicester recebeu o Everton e o 3-0 em Hillsborough entre Sheffield Wednesday e Bolton.

Um dia de excessos na First Division, uma vez que ainda não tinha sido criada a Premier League – tal só aconteceria em 1992 –, a cair como uma maravilha na quadra. “Marquei o nono golo. Havia sempre resultados estranhos no Natal. Era algo que simplesmente não se controlava. Podíamos ganhar por muitos, é verdade, mas também perder por muitos”, lembrava Alan Mullery, avançado do Fulham aqui há uns anos, ao jornal “Daily Mail”

UM LIVERPOOL QUE NÃO SE CANSA (PERANTE O DESGASTE DO CITY)
Alheio aos discursos de cansaço e com Jürgen Klopp a ameaçar atirar com microfones caso lhe voltem a falar de maio durante as conferências de imprensa – afastando a ideia do título que paira já nas mentes dos Reds, esfomeados desde a última festa, em 1989-90 –, o Liverpool continua o seu trajeto irrepreensível.

Uma goleada por 4-0 frente ao Newcastle, em Anfield, com golos de Dejan Lovren, Mohamed Salah (penálti), Shaqiri e Fabinho, capitaliza mais um desaire do Manchester City: derrota por 2-1 na visita ao King Power Stadion e ao Leicester. O português Bernardo Silva inaugurou o marcador para os Citizens, mas os locais viraram por Marc Albrighton e pelo também internacional luso Ricardo Pereira. O conjunto de Pep Guardiola não só fica a sete pontos do líder, mas também é ultrapassado pelo sempre competitivo Tottenham de Mauricio Pochettino, que goleou o Bournemouth por 5-0.

Mais longe, mas num bom momento pós-Mourinho, aparece o Manchester United de Ole Gunner Solskjaer. Um triunfo frente ao Huddersfield (3-1) e oito golos marcados em dois jogos dão sinais de retoma para os Red Devils. Contudo, há ainda um largo caminho a recuperar para entrar nos lugares europeus.

Os jogadores que esqueçam as pernas cansadas, haverá outras alturas para deixá-las de molho e descansar. Para os ingleses nada é mais importante do que a Premier League, nem mesmo os grandes projetos de conquista continental. O Boxing Day está aí para durar e durar, e Inglaterra continuará a ter a liga que nunca dorme.

Também em Itália, seria dia para Cristiano Ronaldo descansar, mas foi mesmo obrigado a entrar em campo, com a Juventus a perder em Bergamo frente à Atalanta. O seu golo evitou a primeira derrota de uma Vecchia Signora reduzida a dez jogadores por força da expulsão do jovem médio uruguaio Rodrigo Bentancur. Novamente, fundamental.

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