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Manuel Bissopo sente-se o delfim de Afonso Dhlakama: “Fui preparado por ele”

Manuel Bissopo, vai candidatar-se à presidência do partido em Janeiro (DR)

O secretário-geral da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), Manuel Bissopo, vai candidatar-se à presidência do partido em janeiro. Questionado pela DW sobre o futuro, Bissopo promete lealdade aos ideais de Dhlakama.

Em entrevista à DW, Manuel Bissopo diz sentir-se preparado para o cargo de presidente da RENAMO e garante reunir apoio em todas as alas do partido. Sobre planos estratégicos para a RENAMO, prefere não falar para já.

DW África: Confirma-se que o senhor Manuel Bissopo se vai candidatar à liderança da RENAMO?

Manuel Bissopo (MB): Sim, confirmo. É uma grande oportunidade de partilhar esse sentimento que resulta de uma grande reflexão de tudo aquilo que eu vivi com o saudoso Presidente [Afonso Dhlakama], reconhecendo o investimento que ele fez em mim, na gestão de um partido destes, que é um partido grande, um partido de massas. Sinto que depois do desaparecimento físico dele, tenho uma obrigação moral de continuidade daquilo que era o projeto dele e garantir que o país continue sempre a crescer com níveis aceitáveis de democracia. Por isso confirmo, vou ser candidato.

DW África: Reúne todos os requisitos exigidos pelo partido?

MB: Sim. Durante muito tempo não me pronunciei, porque achava que tinha uma responsabilidade administrativa e que poderia haver conflito de interesses. Esperei primeiro pela definição de requisitos do perfil pelo Conselho Nacional que se realizou há uma ou duas semanas atrás. Segundo o perfil definido, eu reúno essa condições: sou um antigo combatente, tenho mais de cinco anos de política ativa, sou secretário-geral, enfim… Sinto que estou dentro daquilo que é exigido pelo perfil.

DW África: Sente-se uma espécie de delfim de Afonso Dhlakama?

MB: Sinto-me um delfim, de facto, porque tudo o que sou hoje como político foi por causa do esforço dele. Transmitiu-me experiências e convenceu-me que há coisas difíceis, mas que temos de nos sacrificar por elas. Fui preparado por ele. São ensinamentos fortes que não posso desperdiçar, sob pena de não ser útil para este partido. O partido são pessoas e as pessoas constroem-se no meio de muitos sacrifícios e depois de muito tempo. Sou uma pessoa que nos últimos seis anos esteve sempre perto dele, planeando e executando, tudo o que é produto da RENAMO. Por isso, sinto-me comprometido com a causa que ele defendeu até à sua morte, de modo que tenho de apresentar a minha candidatura como uma forma de dar uma oportunidade ao partido de prosseguir com aquilo que são os ideais do presidente Dhlakama.

DW África: O seu nome foi apontado como o favorito para liderar interinamente a RENAMO depois da morte de Afonso Dhlakama. Chegou a haver algum movimento nesse sentido?

MB: Internamente, não houve. Quando chegámos à serra com a intenção de socorrer o presidente, que infelizmente já estava sem vida, de facto houve um termo de compromisso por obrigação do Estado-Maior-General da RENAMO. Eu, o coordenador das negociações e o Estado-Maior-General da RENAMO assinámos o Compromisso de Paz dirigido ao Presidente da República. Tudo aquilo que o saudoso presidente tinha assumido nos acordos tinha de prevalecer, como as tréguas e a paz. Mas a opinião interna achou que o general Ossufo deveria ser o líder por ser membro da comissão política. Eu não achei um problema, porque como secretário-geral precisava de continuar a fazer aquilo que tínhamos planificado.

De facto, conseguimos organizar-nos para a logística das eleições autárquicas de outubro e tivemos os resultados que tivemos por causa da mega fraude. Houve um abuso e um total desrespeito pelas regras da democracia por parte do Governo através da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Ficou claro que a população, a grande maioria do povo moçambicano nos centros urbanos, demonstrou que tem confiança na RENAMO.

Neste processo em direção congresso, eu penso que os quadros também têm uma palavra a dizer. Eu tenho o meu desempenho e os quadros sabem disso. Em função disso, eu tenho fé que os quadros não vão deixar desperdiçar a minha experiência, para trazer um partido mais jovem, um partido moderno, um partido de mulheres, um partido forte para os próximos desafios, capaz de manter a democracia em Moçambique.

DW África: Relativamente aos outros nomes apontados para esta corrida, o senhor Bissopo tem a vantagem de se ter consolidado politica e militarmente, mas precisa de apoios no seu partido. Com quem conta?

MB: Eu conto com todos aqueles com quem ao longo de seis anos partilhei atividades. Estou a falar da estrutura toda. Comunico-me com toda ela e sinto que os quadros, a diversos níveis, sentem que o meu papel foi muito útil. Se eu não lançasse a minha candidatura, seria um risco para o meu nome, porque iria degolar as expectativas dos quadros. Sinto que os quadros têm a impressão de que estou muito bem preparado para dar continuidade aos ideais do presidente Dhlakama.

DW África: O que é que o senhor Bissopo tem para oferecer à RENAMO? Que projetos tem em mente?

MB: Os projetos são muitos, mas alguns também são estratégicos, não podem ser divulgados. Mas para responder à sua pergunta, um grande projeto é trazer para a RENAMO elementos que, embora planificados, não chegaram a ser executados. Como por exemplo, a organização mais forte do ponto de vista interno, procurar investimentos sérios para a estrutura do partido, a formação dos quadros, quer antigos, quer jovens recém-formados e que se estão a formar, para permitir que este partido, a médio e longo prazo, tenha capacidade própria para se impor no processo de controlo eleitoral.

Nós, como um partido, temos como objetivo chegar ao poder e ter a possibilidade de demonstrar como é que pensamos que o país deve ser governado. Para tal, o nosso sistema democrático exige que nós cheguemos ao poder pacificamente. Isto passa pela eliminação de qualquer tipo de fraude, como as que têm caracterizado os nossos processos eleitorais. Para isso, não vamos deitar culpas para o outro lado. Eu falo para mim, para dentro, para o partido. Temos de potenciar os recursos humanos, formando-os, criando condições para que nos processos eleitorais haja um total controlo para que a FRELIMO não consiga roubar. Do outro lado, na população, nos membros e simpatizantes, não falta nada. As pessoas ao longo do tempo ficaram desgastadas. Votam sempre, mas a RENAMO é sempre roubada.

DW África: A militarização da RENAMO é entendida como sendo o seu grande ás, no entanto existe também um grupo político que praticamente se torna invisível no partido quando há momentos de crise… Caso chegue à liderança da RENAMO, como pretende balancear esses duas forças?

MB: Sinceramente não vou fazer coisas diferentes daquelas que o meu mestre me ensinou. A questão da RENAMO militarizada é uma teoria. Depois do Acordo Geral de Paz, a questão da RENAMO ainda continuar com os seus homens não é vontade da RENAMO. Até hoje a RENAMO tem armas, aconteça o que aconteça, porque de facto o Governo depois dos acordos de 1992 não teve vontade política para cumprir os acordos. Estava bem claro que os homens da RENAMO seriam integrados na polícia e isso não se fez. Muitas outras coisas acordadas não foram cumpridas. Isto obrigou a RENAMO a ter sempre uns homens residuais. Mas não podemos falar da RENAMO como um partido militarizado. É um partido civil. Como vê, o presidente Dhlakama nunca dirigiu o partido como um partido fardado. Ele esteve sempre de civil, como uma pessoa, um líder que dirige um partido político. Eu vou seguir o mesmo exemplo.

Na questão militar, nós temos processos já muito avançados. Para mim, quer um militar, quer um civil, todos são quadros do partido, porque são movidos por um interesse e uma causa que é defender a vontade deste país ser dirigido com transparência e democracia. Eu não enfatizo a parte civil e a parte militar, porque no meu exercício lido com todos da mesma forma. Por isso não vou ter dificuldades em lidar com uma pessoa que foi militar e outra pessoa que nunca foi militar. Para mim, o estatuto é para todos, as regras são para todos, mas todos são quadros do partido e todos têm compromissos em relação àquilo que é a causa do partido.

DW África: Dominou o longo processo de negociações de paz entre a RENAMO e a FRELIMO. Essa é uma grande mais-valia para si nesta corrida?

MB: Não, porque nesta corrida o pivô não é dominar as questões militares. Nesta corrida o pivô é a capacidade, é a experiência, é o conhecimento do partido em termos de previsão de tudo o que é importante, para continuarmos forte politicamente e chegarmos ao poder através de processos eleitorais que a lei determina.

DW África: Mas eu referia-me ao processo das negociações de paz, esse é um processo que o senhor domina. Isto tem um peso neste momento em que o senhor se quer candidatar. Este é um assunto, provavelmente, crucial para a RENAMO.

MB: Sim, eu como secretário-geral conheço as nossas posições. Ao longo deste tempo todo, tenho domínio claro, porque fiz parte da planificação e gestão de muitas atividades políticas e administrativas, para efetivamente garantir o sucesso das negociações. Estou a falar dos pontos de agenda. Nesta última ronda, tivemos dois pontos de agenda que foram definidos com o saudoso presidente, que é a descentralização e as questões militares. Nós sabemos que um partido como este não pode ter dois exércitos. Eu sei quais são os ganhos, não da RENAMO, mas do país todo, dos moçambicanos, se todo este processo for conduzido no espírito e letra como foi idealizado com o saudoso presidente.

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