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“As transições políticas não são fáceis, são processos complexos e que levam muito tempo” – Pedro Pires

Expansão

África é um continente “dependente”, económica, financeira e tecnologicamente e romper essa dependência é o grande desafio dos líderes africanos. Fora do activo, o ex-Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, recusa comentar a actualidade política angolana, mas acaba por deixar um alerta.

Escreveu, no seu livro “O meu compromisso com Cabo Verde”, que o “rigor e sobriedade na conduta pessoal e na utilização dos recursos públicos são requisitos essenciais das boas lideranças”. Tem encontrado estas características nos jovens africanos, em particular, nos cabo-verdianos?

É a partir daí que queremos influenciar os cabo-verdianos, com a realização de cursos destinados às lideranças intermédias. Por enquanto, avaliamos o que acontece no nosso país. Se tivermos oportunidade de trabalhar com outras lideranças, faremos essa avaliação. Hoje fala-se muito da boa governança, a ideia é trabalhar para termos uma boa administração. Não quer dizer que vamos ver os resultados de imediato. Acho que não. Semeamos. Não sabemos quando é que vamos colher. O que sabemos é que é preciso semear.

Falta esta componente do “rigor e sobriedade” nas lideranças africanas?
A obra humana é sempre imperfeita. Nós não podemos dizer que as lideranças africanas são menos ou mais. Não podemos pensar que tudo está mal, ou que tudo está bem. A ideia é que devemos caminhar, depois havemos de fazer a colheita. Eu já estive em alguns países que têm a mesma preocupação.

Não há muitos casos de boa governação, a ver pelo número de personalidades distinguidas pelo Prémio Mo Ibrahim de boa governação [Pedro Pires foi o segundo]. Como é que justifica que, em 12 anos, só cinco ex-chefes de Estado e de Governo tenham sido premiados?

Se dessem o prémio todos os anos, perderia valor, seria banalizado. Portanto, aceitemos que o que estão a fazer estão a fazer bem. Conheço o comité que decide a atribuição dos prémios, dirigido por Salim Ahmed Salim, da Tanzânia. São africanos muito comprometidos com África. Também aceito o princípio que pode não haver premiados porque estão à espera daqueles que terminam o seu mandato. Depois do termo do mandato, poderá haver uma avaliação. De modo que, nesse aspecto, não há drama.

Como é acompanha a transição do poder em Angola?

Não, não vim cá para falar da actualidade política angolana, porque não quero intervir. Não seria ético. O que posso dizer é que sigo com muita atenção o que acontece em Angola, mas não emito, para já, opinião.

Porquê essa recusa?

Eu não sou comentador político, não sou jornalista e não sou político no activo, em que condição é que o faria? Isto não significa indiferença, longe disso. Eu já terminei aquilo que considero ser meu dever, enquanto político. Agora, não volto à política. Tento ser útil de outra forma, por isso é que estou na área da formação, mas evito entrar em certo tipo de debates.

Não entra em debates e também não comenta?

O único comentário que posso fazer é o seguinte: as transições políticas não são fáceis, são processos complexos e toda a gente deve seguir essas transições com um certo sentido do tempo. São processos que vão levar muito tempo. As transições são complexas, as situações também, não se reduzem a uma ou duas decisões. É um processo.

Se lhe fosse pedido um conselho, seria um apelo à calma?

Não é bem calma. A palavra certa não é calma. Também não gosto de dar conselhos, porque acredito na capacidade dos outros. Acredito na sua lucidez, na sua boa-fé e na sua boa vontade.

O último relatório do Índice Mo Ibrahim conclui que o “crescimento económico em África não levou ao crescimento da oportunidade económica para os cidadãos africanos”. O que tem estado a falhar?

Mesmo na Europa, o crescimento económico não tem gerado emprego. Temos de nos perguntar porquê? Outro aspecto é que não basta ter melhor posição no índice, o crescimento económico tem de ter impacto na vida das pessoas. Há ainda outro aspecto, que é uma característica universal: têm aumentado as desigualdades sociais, por todo o lado. Como resolver isso? Essa é a questão.

O actual modelo de desenvolvimento económico tem de ser repensado?
O modelo económico, o modelo de desenvolvimento, as políticas de desenvolvimento, a fixação de prioridades…

Onde é que essa discussão deve ser feita?
Os debates fazem-se em diversos níveis: nas organizações internacionais, como a Fundação Mo Ibrahim, nas universidades, nos sindicatos, nos partidos políticos. É uma discussão corrente e a reflexão, o debate, não connosco, mas dos actores políticos fundamentais, deve conduzir à pergunta: o que é que vamos fazer, um, para criar emprego, dois, para reduzir as desigualdades, três, para oferecer mais oportunidades aos jovens?

Os jovens são os mais afectados?
A diferença entre o continente africano e os outros é o desafio demográfico. O crescimento demográfico africano é grande e a geração de emprego não acompanha. Há que analisar e encontrar as soluções.

Este ano, 44 países assinaram o acordo de criação da Zona de Comércio Livre Continental. É um passo no sentido certo?
A ideia é que se se dinamizar o comércio intra-africano vão-se criar novas oportunidades, novas actividades económicas e novos empregos. A ideia não é como fazer África mais competitiva, mas como promover, estimular o desenvolvimento africano. Aí há várias questões.

Quais são elas?
Como é que se pode acelerar o desenvolvimento? Através da aceleração das trocas comerciais e da circulação de mercadorias? Poderá ser, mas há muito que fazer noutros aspectos.

Em que aspectos?
São vários. África é um continente dependente. É dependente economicamente, tecnologicamente, financeiramente. Como romper com a dependência? É através do desenvolvimento, do crescimento económico e do intercâmbio.

Qual o papel que o ensino e a formação têm aí?
Há muitos debates à volta disso.

Qual é o seu sentido?
Primeiro, estão factores de desenvolvimento, a electrificação, infraestruturação, o desenvolvimento e modernização da agricultura. Tem de se pensar também nos recursos internos africanos, que podem servir para o seu desenvolvimento. Compete às lideranças africanas, em exercício e não a mim, pensar nisso. Há um outro elemento importante, a coordenação económica das políticas e, por fim, solidariedade entre as várias economias e os vários países. Costuma-se dizer que a união faz a força.

Essa união é possível?
Exige um esforço muito grande. Do ponto de vista teórico, é possível, mas do ponto de vista prático é mais difícil. A ideia do mercado comum é antiga, já vem de uma reunião com 20, 30 anos. Ainda não se conseguiu realizar, mas persiste-se. A nova liderança da União Africana propôs continuar, os governos assinaram. Bom, agora têm de implementar, que é um bocadinho mais complicado do que anunciar.

A resistência de alguns países em assinar o acordo é mais um obstáculo?
Se eu estivesse no activo, seguiria esse processo, a par e passo. Mas, não estando no activo, tenho dificuldade em responder. De qualquer maneira, há um país como a Nigéria, que é o mais populoso em África, que diz que é preciso esperar porque tem necessidade de realizar um consenso interno. Temos de compreender, Num país onde há vários interesses, várias classes, é preciso, não digo que todos estejam, de acordo, mas que haja um consenso mínimo, senão enfrentarão uma crise.

No caso de Cabo Verde, assinou o acordo de criação da ZLCA, mas não assinou o acordo de livre circulação de pessoas.
Mas Cabo Verde é uma microeconomia, o que conta são as grandes economias e como é que uma microeconomia pode tirar proveito das microeconomias, esse é o desafio.

“A forma como se exercia e exerce a liderança não é a melhor”

O senhor deixou a presidência de Cabo Verde há sete anos e dedica-se à formação de novas lideranças, através do Instituto Pedro Pires (IPP). Esta era uma área que precisava de intervenção?
O Instituto Pedro Pires para a Liderança, que eu criei há cinco anos, tem desenvolvido a sua actividade na formação de jovens quadros empregados. Não trabalhamos com pessoas que não exercem profissão. Trabalhamos na formação para a liderança, a nível intermédio.

Porque é que optou pelas lideranças, ao nível intermédio?
Quando criámos o instituto, sabíamos que a forma como se exercia e exerce a liderança em Cabo Verde não era a melhor. Não era aquela que podia tirar maior proveito da capacidade dos quadros que trabalham numa direcção, numa repartição ou numa instituição.

Qual era o problema?
Exercia-se o poder, a autoridade hierárquica, quando aquilo que se pretende é motivar as pessoas. E, mais do que isso, é preciso que o próprio quadro tenha uma visão de futuro do país. Aliar a motivação dos quadros, das pessoas com as quais trabalha, mas também ter o melhor conhecimento do país, da sua realidade e pensar o futuro, um pouco para além do quotidiano. O que se faz nas administrações, geralmente, é o exercício da autoridade hierárquica.

Esse tipo de liderança não funciona?
Pensamos que funciona, sim, mas através do mecanismo da dependência e da autoridade hierárquica. Deve-se fazer uma outra. Motivar as pessoas, torná-las participantes nos processos. É a melhor forma de dirigir em qualquer área da administração pública.

Como é que detectou essa lacuna? Por causa dos resultados?
Essa falha é comum no estilo de direcção. Quem dirige é o chefe. Ora o chefe exerce a sua autoridade, através da autoridade hierárquica, nalguns casos pode ter associada a autoridade da competência. Foi assim que aprenderam a dirigir, mas hoje as coisas são diferentes. Há outros métodos para o exercício da direcção, que é o que chamamos de liderança. Liderança não é, no seu conceito, dirigir apenas. Implica motivar, implica que os liderados sejam parte. É uma nova forma de dirigir. Nós não inventámos isso, vem sendo discutido há algum tempo. Ao observarmos como a nossa administração funcionava, achámos que devíamos dar essa contribuição para mudar esse método de trabalho.

Não é um problema exclusivo de Cabo Verde?
Não. Existe por todo o lado. Essa mudança foi-se fazendo, com tempo, nos outros países. A hierarquia burocrática faz parte da administração, fazia. Agora pode tentar-se melhorar o rendimento, a eficácia, a disciplina, o comprometimento com a instituição. Propomos uma mudança.

A formação que o Instituto Pedro Pires promove é inspirada nalgum modelo?
Não temos um modelo, mas conhecemos as reflexões, as discussões e observamos como as coisas funcionam. Não é uma invenção, é uma tentativa de melhorar as coisas.

O IPP vai estabelecer algum acordo com uma instituição angolana?
Estamos em contacto com a Academia BAI na ideia de estabelecermos um protocolo de cooperação e tentar ver em que é que podemos trabalhar juntos.

De quem partiu a iniciativa?
Estabelecemos contactos com várias instituições, mas o que está a dar melhores resultados é com a Academia BAI. A presidente da Academia BAI [Noelma Viegas D”Abreu] esteve em Cabo Verde, há seis meses, numa conferência que costumamos fazer anualmente, a que chamamos Diálogo Estratégico, onde ela interveio. Portanto, a relação está a ser construída.

Já há algum projecto concreto no horizonte?
Em princípio sim. Teremos uma actividade conjunta. É muito possível que seja no próximo ano.

Preservar a Memória Comum das Lutas de Libertação

A sua vinda a Angola tem um duplo objectivo?
Vim a Angola para falar do Instituto Pedro Pires (IPP) e de questões ligadas à memória comum das lutas de libertação nacional, relacionadas com a Fundação Amílcar Cabral, a que presido. A fundação está a trabalhar com o Governo de Cabo Verde para a candidatura dos escritos de Cabral ao projecto Memória do Mundo, da Unesco. Estamos interessados em trabalhar com a Guiné Bissau e os países da CPLP.

O encontro com a presidente da Fundação Agostinho Neto [Eugénia Neto] insere-se nesse objectivo?
É possível. Aprecio o que a Fundação Agostinho Neto tem feito. Vou ter um encontro com a Fundação Sagrada Esperança, do MPLA, com o vice-presidente da República [Bornito de Sousa], com o Paulo Lara, que dirige a Fundação Tchiweka de Documentação, que tem feito um trabalho muito interessante. Estes são os meus interlocutores, não os governos. Se falo com o Governo, é precisamente sobre isto.

O espólio de Amílcar Cabral e de outras personalidades está disponível nalgum espaço?
A Fundação Mário Soares (FMS) tem uma plataforma, conhecida por Casa Comum, que contém os escritos de Amílcar Cabral, fotografias e filmes, o espólio de Mário Pinto de Andrade e alguma coisa minha. Mas, neste momento, a FMS tem problemas sérios e estamos interessados num diálogo para saber onde é que esse espólio ficará depositado, porque eles são depositários, não são donos. Como fazer com que os documentos, que pertencem à Guiné-Bissau e ao PAIGC, sejam recuperados, se assim o desejarem. Queremos que essa documentação tenha um bom destino.

A ideia de haver um espaço em Cabo Verde que reúna essa memória pode ser uma solução?
Não quero antecipar nada. É uma coisa que precisa de ser gerida com cautela, para não mexer com interesses e susceptibilidades. Não tenho soluções, tenho preocupações. O máximo que posso fazer é dar uma contribuição, mas sem liderar.

PERFIL: de Guerrilheiro a Presidente

Nascido em Cabo Verde, Pe dro Pires estudou em Portugal, onde se cruzou com os movimentos de libertação. Da capital portuguesa partiu para a Guiné-Bissau, onde se juntou a Amílcar Cabral, integrando as fileiras do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Depois da Declaração de Independência, em 1975, foi designado primeiro-ministro do primeiro governo de Cabo Verde, ao lado do presidente Aristides Pereira, co-fundador do PAIGC, mantendo-se no cargo até 1991, altura em que foi introduzido o multipartidarismo no arquipélago. Uma década depois, ganha as eleições presidenciais, iniciando o primeiro de dois mandatos como Presidente da República. Em 2011, quando cessou o mandato, foi laureado com o Prémio Mo Ibrahim de Liderança e Boa Governação.

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